O CULTO DA TRADIÇÃO E O POPULISMO – por MANUEL SIMÕES

O CULTO DA TRADIÇÃO E O POPULISMO

por MANUEL SIMÕES

As sociedades, tal como se organizam no mundo de hoje, diferem todas dos tipos tradicionais que dominaram o mundo, o que distingue as sociedades modernas das sociedades arcaicas por via de uma energia ou força catalisadora de efeitos imparáveis. Daí o dinamismo da mudança (“tudo flui como um rio”), de que Heráclito (séc. VI-V a.C.) nos deixou o extraordinário testemunho: «Para quem entrar no mesmo rio, outras são as águas que correm por ele».

É por isso que, em meu entender, a defesa intransigente da tradição ancestral para reivindicar um acto que escapa, à partida, ao que se considera racional, conduz inevitavelmente a uma visão estática, inerte, da cultura, por oposição às culturas progressivas, até porque, quer se queira ou não, a mudança social influi sempre no desenvolvimento cultural humano. Insistir na tentativa, quase sempre folclórica e sem dúvida populista, de recuperar actos ou ritos distintivos do passado longínquo é uma prática que traduz uma ideologia conservadora, e o pior é quando a celebração irracional desses actos parte de organizações que se dizem progressistas. Ou como acertadamente já escreveu Rui Vieira Nery, a propósito da tradição musical alentejana: «Ao contrário da visão idealizada do folclorismo romântico do século XIX, em que o Estado Novo viria a beber para a política da “tipicidade” do SNI, as tradições populares não são nem estanques nem estáticas – transformam-se, contaminam-se umas às outras, têm um sentido profundo de que a sua perpetuação se faz tanto da continuidade que a identifica como da dinâmica constante de curiosidade pela diferença e de criatividade individual e colectiva que lhes dá energia vital» (“Os donos do Cante”, Público, 17/12/2018, p. 30).

Deste modo, e embora pareça um paradoxo, a tradição convoca-se evoluindo, o que significa que os actos acumulados pela sedimentação se tornam irrepetíveis, são sempre novos porque são outros, razão por que é errado pretender institucionalizar a mesma tradição. Esta avança com a evolução das mentalidades, das técnicas, da formação do gosto, o que põe em causa, por exemplo, a mania mais ou menos generalizada em meios onde a ruralidade persiste, da recuperação dita histórica da época medieval, inventando gastronomia, cortejos, modelos monárquicos (ao que se diz contratando empresas espanholas que se criaram para o efeito), tudo em nome da tradição, esquecendo-se que os objectos e os actos sociais se ”criam” para satisfazer as necessidades de uma determinada organização da sociedade e que a esta ficam irremediavelmente ligados. Repropor hoje um arremedo de ceias medievais ou a exaltação anacrónica e obsoleta do fausto monárquico não me parece uma boa maneira de fazer cultura, sobretudo porque não é possível inserir nestas acções o contexto em que se produziram. Como tudo na vida, os actos humanos propiciadores do progresso actualizam-se progredindo, inovando, sem ficarem agarrados à estratificação dos fósseis.

A tradição é assiduamente invocada como coisa genuína de âmbito regionalista, e portanto não é indicador, como querem fazer crer, da identidade do país. Mas a mera repetição de gestos, muitas vezes de mau gosto (ai!, as confrarias disto e daquilo, essas guardiãs da tradição, com suas conotações religiosas!), ignora a função e as práticas sociais que lhes deram origem, e daí o seu desajustamento em termos culturais, a não ser que se pretenda apenas produzir actos vistosos mas inibidores da participação criativa.

1 Comment

  1. Há muito que sinto isto que aqui se analisa com grande perspicácia, sempre duvidando de tanta festa histórica, de tanta tradição sem fundamento, enfim, de tanta corporação encapada e pompa litúrgica de meter respeito, daquele respeitinho bolorento com que iam enganando o povo. E sentia-o mais por intuição do que por conclusão fundamentada como faz aqui Manuel Simões neste lúcido texto. Grato pela partilha. JG84

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