Hoje terça feira e à espera de explicações –mas só de quem saiba!– sobre o grande apagão de ontem por eu não saber, não dever nem querer dar origem a uma qualquer teoria conspiranoica, como as que aparecem estes dias e com ar mais ou menos trumposo e, até por isso, optei por uma estória sufi, que me parece bem adequada a estres tempos.
Um senhor que muito respeito e leio sempre que se ‘mostra’ no DN, Luís Castro Mendes, poeta e que também foi diplomata, afirma na crónica do passado dia 19 do mês passado, ‘Quero chamar a atenção para a conspiração mundial contra a democracia, que nos cerca e condiciona, fora da nossa vontade e infelizmente, muitas vezes longe da nossa consciência’.
E mais acrescenta, o que se está a passar nos states, dá sinais –em toda a sua desumanidade– do mundo que estão a preparar tanto para nós, como para os nossos filhos e netos, por cuidarem da guerra, por assumirem que a economia só serve para os ricos, de fechar a porta aos emigrantes –a servir de bode expiatório para o inevitável descontentamento dos povos– que, pela acção de todos os venturas deste mundo, serve apenas os interesses dos autocratas, oligarcas e possidentes, de quem os represente e onde quer que estejam.
Luís Castro Mendes, conclui o seu raciocínio com uma frase lapidar, ‘O nacionalismo conservador e beato persiste na Rússia, mas a China e os Estados Unidos procuram novos meios de submeter os seres humanos à tirania’. O maior problema, como todos temos oportunidade de ver diária e repetidamente, se olharmos em volta, desde os lugares mais frequentados, aos sítios onde focam a atenção, é o de continuar a haver grande parte dessa gente, candidata à servidão voluntária! E já lá vão cinquenta anos!
Acontece que em tempos tão complicados e complexos como os de hoje, aparecem sempre os fantasmas da intolerância e do fanatismo, evocados de modo rebuscado e grandiloquente por qualquer bicho-careta sem princípios, no sentido de reforçar tudo o que referi e foi dito por Luís Castro Mendes.
Para Guilherme d’Oliveira Martins, administrador da Gulbenkian e também cronista no DN, ‘A Arte e a Cultura, a Ciência e a Educação, são os catalisadores de progresso, de respeito mútuo e de reconhecimento da liberdade e da cidadania baseadas na dignidade humana’; onde caberão assim tais fantasmas, já com mais de cinquenta anos?
Mas veio ter comigo, há alguns dias, um dos contos de Nasrudin, um sábio sufi do século XII, bem conhecidos na época medieval, pois percebidas as suas aparentes contradições, terem sempre uma mensagem ética, a poder ser ensinada e adaptada a qualquer comunidade.
Vou servir-me das palavras do sábio, mas reduzindo o tamanho do conto ‘O tesouro do mendigo’, por razões óbvias.
“Era uma vez um andarilho muito sábio, que vagava de vila em vila a pedir esmola, e partilhando conhecimentos na praça e no mercado. Um dia em Akbar, aproximou-se um homem e disse: – Ontem, um poderoso mago disse-me que nesta praça encontraria um mendigo, que apesar do seu ar miserável. me daria um tesouro de valor inestimável que me iria mudar a vida completamente. Quando o vi, percebi logo ser o homem que procurava. Por favor, dê-me o seu tesouro! O mendigo olhou para ele sem dizer nada, meteu a mão num alforge de couro já gasto, e estendeu a mão para o homem. – Deve ser isto! e entregou-lhe um diamante enorme. O outro, espantado, Mas esta pedra deve ter um valor imenso! – Tem mesmo? Achei-a num bosque! – Está bem! Quanto quer por ela? – Nada. Não me serve para nada nem preciso dela. Se lhe serve a si leve-a. Não foi o que o mago lhe disse? – Sim, foi o que ele disse. Obrigado, guardou a pedra e foi-se embora. Voltou meia hora depois, foi ter com o mendigo, Tome lá a pedra e dê-me o tesouro! – Não tenho mais nada para lhe dar! respondeu o mendigo. – Tem sim! Quero que me ensine como pôde dá-la sem que isso o tivesse incomodado! O homem acabou por ficar alguns anos ao lado do mendigo, até aprender o que era o desapego”
Quanto daria para poder encontrar só um dos três principais putin, trump e netanyahu –fica claro que o uso das minúsculas nos nomes de tais protagonistas corresponde à dimensão do seu carácter– agachado no chão, à beira de um mendigo!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor