Francisco ou a resistência contra o caminho para o abismo — “A Fábula de Kautsky”.  Por John Ganz

 

Nota prévia

Vivemos tempos difíceis. Morreu ontem um dos mais importantes símbolos da resistência contra a tendência atual de caminharmos para o abismo. Morreu o Papa Francisco, o Papa de todos nós. Mando-vos hoje o texto de homenagem sentida de Robert Reich, o homem que bateu com a porta na cara a Bill Clinton quando era o seu ministro do Trabalho. Ao ler o texto de homenagem ao Papa Francisco percebe-se porque é que bateu com a porta na cara a Bill Clinton, o representante da Terceira Via nos EUA.

Vivemos uns tempos difíceis e muito confusos. Há dias recebi dois textos curiosos um de John Ganz – A Fábula de Kautsky (original aqui) – a retomar as teses de Kaustky do primeiro quartel do século XX, quanto ao imperialismo e um outro de Brad DeLong sobre Marx (original aqui), ele que anda agora a reler encantado Marx numa tradução de melhor qualidade do que a que tinha.

Como se isto não chegasse, John Ganz parte de férias e num texto de até breve – Tempo Livre (original aqui) – manifesta o seu espanto quando nos diz que o Financial Times parece agora situado mais à esquerda que a revista marxista por mim citada ontem, The Jacobin, como manifesta o seu espanto por a TIME citar o Manifesto do Partido Comunista. Curiosidades que são sinais claros de borrascas que nos esperam.

Por fim, um texto de Harold Meyerson – Francis and his critics (original aqui) – onde assinala o desalinhamento de muitos dos católicos americanos com o pensamento do Papa Francisco.

[n.e. Hoje publicamos o texto A Fábula de Kautsky de John Ganz]

 

Júlio Mota, 22/04/2025


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

4 min de leitura

A Fábula de Kautsky

Do ultra-Imperialismo e do seu retorno

 Por John Ganz

Publicado por  Unpopular Front em 18 de Abril de 2025 (original aqui)

 

Karl Kautsky com os social-democratas georgianos, 1920

 

O “ultra-imperialismo” de Karl Kautsky pode ser o pior artigo jamais escrito. Na edição de setembro de 1914 da revista teórica do seu partido Die Neue Zeit, o principal teórico do partido Social Democrata alemão — “O Papa do marxismo” — argumentou que uma guerra massiva não era o resultado necessário da competição entre as grandes potências. Pelo contrário, as grandes economias desenvolvidas, dominadas pelo capital financeiro, poderiam renunciar à proteção dos seus monopólios nacionais e cooperar pacificamente para uma exploração mais completa do resto do mundo. Eles podem formar uma ” federação dos mais fortes, que renunciam à sua corrida armamentista”. O imperialismo seria substituído pelo “ultra-imperialismo”, onde esse prefixo deveria ser entendido como um movimento para além, em vez de uma intensificação, do processo anterior. Isto seria conseguido através da “translação da cartelização para a política externa”, ou seja, o conluio das principais economias industrializadas através de um conjunto de acordos e instituições internacionais.

O artigo estava pronto para ser publicado no início do verão de 1914, mas a eclosão da Primeira Guerra Mundial em julho pareceu alterar totalmente a sua premissa. Kautsky foi forçado a fazer revisões que justificavam a chegada da guerra intra-imperialista há muito profetizada. O líder bolchevique V. I. Lenine foi brutal na sua resposta a Kautsky: o seu famoso panfleto Imperialismo: o estágio supremo do capitalismo era uma crítica das esperanças pacifistas de Kautsky. A crença de Lenine de que a guerra era o resultado necessário da fase imperialista do capitalismo parecia ser confirmada pelos factos. Segundo Lenine, Kautsky já não era nem mesmo um verdadeiro marxista, mas um social-democrata burguês, “oportunista”, que tinha inventado uma “pequena fábula tola” sobre a paz mundial.

Ainda assim, penso que vale a pena rever as previsões de Kautsky. Kautsky escreveu: “todas as consequências que amadureceram no ventre da presente Guerra Mundial ainda não viram a luz. O resultado ainda pode ser que as tendências imperialistas e a corrida armamentista acelerem a princípio – nesse caso, a paz subsequente não passará de um curto armistício”. É certamente possível ler isso como uma compreensão premonitória do período entre guerras e do retorno ao conflito no espaço de menos de 30 anos, com a Liga das Nações como um gesto fracassado em direção ao ultra-imperialismo. Kautsky pensava que este regresso ao conflito imperialista se devia ao facto de os efeitos ideológicos do nacionalismo não se terem esgotado, mas que,

do ponto de vista puramente económico, porém, nada mais impede que essa explosão violenta substitua finalmente o imperialismo por uma aliança sagrada dos imperialistas. Quanto mais a guerra durar, mais ela exaure todos os participantes e os faz recuar diante de uma repetição precoce do conflito armado, mais nos aproximamos dessa última solução, por mais improvável que pareça no momento.

Mais uma vez, Kautsky pode ter estado um pouco à frente de seu tempo, em vez de lamentavelmente atrasado: era possível ver o acordo pós-guerra, com a criação de instituições como as Nações Unidas, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, como a concretização prática desse esgotamento com a guerra total. É claro que a Guerra Fria não foi pacífica nem cooperativa — ainda havia grandes blocos conflituantes que quase chegaram a vias de facto e se enfrentaram em sangrentas batalhas por procuração. Outro candidato a uma situação “ultra-imperialista” era a esperança pós-Guerra Fria de um mundo unipolar sustentado pela globalização, acordos e organizações económicas como a OMC e o NAFTA, e o domínio militar incomparável dos Estados Unidos e seus aliados. Isso teve vida curta: o fim da história chegou ao fim, conflitos étnicos refratários fervilharam e explodiram, o “globalismo” foi rejeitado nas urnas em muitos países ocidentais e grandes confrontos armados retornaram na forma de campanhas revanchistas, como a invasão da Ucrânia pela Rússia.

Segundo Lenine, Kautsky foi ingénuo ao pensar que o imperialismo — a implacável competição inter-estados que cortejava a guerra — era meramente uma escolha política da burguesia e não uma parte intrínseca do desenvolvimento capitalista, que sempre tendia ao conflito e à crise. Lenine pensava que qualquer aliança aparente entre as potências imperialistas não passava de uma trégua temporária: “As causas mais profundas do conflito não são removidas por essas alianças, são apenas adiadas”. À medida que alianças antigas e “permanentes” são destruídas, talvez Vladimir Ilitch estivesse no caminho certo a longo prazo. Por outro lado, Kautsky parece estar certo ao afirmar que não há nada na subestrutura económica que necessite de um conflito imperialista: parece um programa ideológico adotado apesar das objeções fervorosas de muitos capitalistas que se contentavam com a velha maneira de fazer as coisas. Talvez uma análise mais aprofundada revelasse algo estrutural na relação económica entre a China e os Estados Unidos que empurrou o mundo de volta a uma fase imperialista.

Os leninistas acreditavam que a guerra geraria revolução: a Götterdamerung imperialista seria o início do socialismo internacional. “O leninismo é o marxismo para a era do imperialismo e da revolução proletária”, como diria Estaline. Os kautskistas — e os seus descendentes, que talvez nem saibam o seu nome — esperavam que um socialismo florescente se desfizesse gradual e pacificamente do invólucro ultra imperialista. A suspeita aparentemente paranoica e delirante da direita reacionária de que há algo comunista ou socialista à espreita no “globalismo” capitalista financeiro advém de uma estranha intuição sobre uma estratégia da social-democracia kautskista: uma visão de crescente cooperação internacional e paz que, eventualmente, elimina até mesmo a competição de mercado em prol da coordenação racional e do planeamento social. A noção de Lenine de contradição inevitável e violenta está muito mais próxima, em espírito, da crença da direita nacionalista no conflito irreprimível e de soma zero entre raças e povos, embora ele acreditasse que não era uma característica natural da humanidade, mas algo que seria superado pela revolução. Tudo é possível, suponho, mas depois do século XX, pouquíssimos acreditam nessa possibilidade. Eu, por exemplo, ainda prefiro a fábula de Kautsky a um mundo de traições, estratagemas e despojos. Enfim.

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O autor: O autor: John Ganz é editor e escritor independente. Licenciado em História pela Universidade de Michigan e mestre em Belas-Artes pela Universidade de Columbia. É autor best-seller de When the Clock Broke: Con Men, Conspiracists, and How America Cracked Up in the Early 1990s do New York Times. Dirige o sítio Unpopular Front.

 

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