CARTA DE BRAGA – “sob o tecto da Capela Sistina” por António Oliveira

Não podemos afastar esta ‘mudança’, o Conclave que começou hoje, do resto das mudanças que se sucedem estes dias por todo o mundo, mormente na política internacional! E a razão é de uma simplicidade espantosa –uma grande parte dos mais de oito mil milhões de pessoas que agora por aqui vão penando os dias, é crente de algum tipo de fé religiosa, ou tão só espiritualista.

E se dermos uma vista de olhos rápida para as mais importantes regiões, os states, a maior potência mundial, apresenta-se como um país muito religioso, e o trumpa, seu líder máximo, divulgou nas redes sociais, no passado dia 25, a imagem abaixo, abstendo-me obviamente de quaisquer comentários.

A imagem gerada por inteligência artificial, depois de o mesmo fulano ter sugerido que ele seria uma boa escolha para ocupar o cargo de sumo pontífice e, a enorme Rússia, ter retornado aos braços da Igreja Ortodoxa, que proclama Moscou como a Terceira Roma; e de acordo com um jornal internacional, ‘O tenente-coronel da KGB Vladimir Putin foi o primeiro a liderar a procissão: o retorno do nacionalismo russo não é possível sem a participação activa da Igreja Ortodoxa’.

Na América Latina, uma grande batalha está a ser travada entre a Igreja Católica e as igrejas evangélicas, apoiadas e promovidas pelos Estados Unidos. Em África, o catolicismo, o islamismo e as igrejas evangélicas, estão em cerrada competição; o hinduísmo é um politeísmo complexo, mas base do poderoso movimento nacionalista que governa a Índia e, na China, o Partido Comunista até nomeia dois novos bispos, para Changai e Sinkiang, este particularmente complicado, porque o bispo nomeado por João Paulo II continua preso, enquanto o novo bispo tem seguido ‘religiosamente’ as ordens de Pequim, chegando até a assinar uma ordem a proibir missas na sua região.

Aqui na Europa, somos só uma porção pequena, dividida entre a evolução privado/material e os sentimentos ideológicos/religiosos, na verdade praticamente incompatíveis; mas é aqui que se decide aquele Conclave, envolvendo cento e trinta e tal purpurados, debaixo do tecto grandioso da Capela Sistina, tentando afastar ou impor as enormes pressões a que estão sujeitos, quando é cada vez mais complicado para cada um, olhar a utopia do Infinito, como sendo a de todos.

Aliás em Roma, dizia o ‘Le Monde’ já no dia 25, circulavam também rumores de uma conspiração tramada por Emmanuel Macron para influenciar a escolha do futuro Papa. Uma parte da imprensa italiana suspeita que o presidente francês esteja manobrando ao lado do movimento católico ‘Sant’Egídio’, próximo ao falecido Papa, para empurrar seus candidatos ao trono de São Pedro.

Mas talvez por ter sido aquela utopia a determinar as atitudes do Papa Francisco, quando tentou o retorno à igreja dos pobres, do respeito pela natureza, se encontrou com a oposição da Cúria e dos interesses instalados, onde a política está cada vez mais longe da ética e do progresso dos sem trabalho, dos precários, dos velhos e reformados, dos bombardeados, dos arrasados, dos expulsos e dos que nada têm, por lhes terem roubado tudo.

O cartoonista El Roto, que publica as suas críticas no ‘El País’, pode ter resumido tudo isto na que publicou também a 25 do mês passado

El Roto, ‘Rezar por um Papa cristão’


‘El País’, 25.05.01

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

Leave a Reply