CARTA DE BRAGA – “a mochila dos jovens” por António Oliveira

Os jovens de agora serão os governantes de amanhã! É assim, sempre foi assim, independentemente dos lugares onde crescem, aprendem a ‘pecar’, a ‘sobreviver’, a ‘desemerdarem-se’, a ‘herdar’, a ‘ler’, ou a ‘lutar’ por um futuro por cada um escolhido, com as vantagens e os problemas de cada opção, mais as noções de ‘ser’ aqui e de ‘estar’ também aqui, seguindo ou não as normas da normalização das corporações estatucionais ou institucionais, privadas ou públicas, por nunca estar sozinho, porque ao lado está ‘o outro’ e seu igual, seja ele quem for!

Parece-me necessária esta Carta, por ser cada vez mais evidente estarmos frente ao extravasar do balde onde estava arrumada a extrema direita nos países ocidentais, que envolve também, directa e grandemente, os antigos e velhos partidos conservadores, bem como os velhos e antigos partidos da esquerda, por eles todos, tanto um como outros, se terem dedicado a discutir e analisar o ‘sexo dos anjos’, esquecendo os deserdados da sorte e os que perderam os elevadores sociais, frente aos acumuladores de fortunas, com métodos e conhecimentos que eles não tiveram nem nunca conseguiriam alcançar, até pelos lugares de onde partiram.

O panorama internacional, principalmente depois dos anos oitenta, tanto neste país, como no resto do mundo, mas mormente no que nos habituámos a chamar ‘mundo ocidental’, aponta para uma mudança dramática, desde as chefias às bases, pelo aumento dramático também da desigualdade, onde as chefias mentais ou físicas, se constituem em autocracias, aumentam e se rodeiam de riqueza, segurança e de poder bélico ou outro, frente ao desconsolo, à precaridade e aos problemas inerentes ao ‘ter de viver’, desde a habitação, à alimentação, à saúde e à educação, afinal a base da noção de ‘Dignidade’.

Um estudo feito pela Universidade Humboldt de Berlim, pela London School of Economics e a Universitade Pompeu Fabra de Barcelona e Universidade de Amsterdão, detalha que o voto na direita se nota em todas as gerações, mas significativamente maior entre os mais jovens, assinalando ainda ser um padrão semelhante em toda a Europa, à excepção do Benelux, Dinamarca e Letónia.

O problema está, salienta o estudo das quatro universidades, no facto de essa tendência se manter depois na idade adulta, quando os jovens manifestam agora a afinidade com a extrema direita, ‘Porque o que se aprende quando jovem, é como uma mochila que vais carregar durante o resto da vida’. Temos a propensão a pensar que nos primeiros anos da votação as pessoas escolham opções mais radicais e que, o passar do tempo ameniza essa inclinação, mas o estudo alerta que ideias de extrema direita se enraízam nesses jovens, e passam a fazer parte de sua socialização, quando os partidos em que votam se estabelecem como instituições.

Se assim for, a extrema direita crescerá muito nos próximos anos. O maior problema está no facto de os jovens se sentirem perdidos e inseguros com a globalização, com o acesso à habitação e os baixos salários. A pressão social para o sucesso nessas áreas, torna-os ainda mais inseguros, e faz com que se rendam mais facilmente a uma retórica agressiva.

Não custa muito voltarmos a ler História, e lembrar o que aconteceu nesta Europa, nos anos trinta do século passado, mas é, ao que parece, uma ideia pouco viável no mundo de hoje, a ver pelo abandono –não tenho medo da palavra– a que têm estado sujeitas as Humanidades na Educação deste país e, assim, podemos também verificar a ausência de uma esquerda com um programa social e ambiental mobilizador, sem cair no racismo, na xenofobia e na violência.

Mas talvez e, só assim, se possa dar resposta à pergunta que o poeta e escritor Luís Castro Mendes deixou na crónica ‘Os construtores do caos’, que o DN publicou no dia 25 de Maio, ‘Quanto tempo passou desde que se decretou, que a única salvação para a nossa economia, era empobrecermos?

Não tenho rebuçados para oferecer a quem acertar na resposta, basta-me pensar no rosto de quem acertar, a satisfação pelo acerto, e a tristeza com o resto que a memória encontrou!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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