UM FILHO DE DEUS – por Adão Cruz

UM FILHO DE DEUS

por Adão Cruz

Um dia meteram-lhe uma coisa na boca e disseram-lhe que era Deus. Como se Deus coubesse na sua boca! O mar, infinitamente mais pequeno do que Deus, não cabe em todas as bocas juntas. Também lhe disseram que ele era filho de Deus. Ou gozaram com ele ou pretenderam fazê-lo acreditar em paranóias. Como se Deus andasse para aí a fazer filhos como ele! Seria preciso que fosse um Deus muito fraco e muito irresponsável! Revelaram-lhe, ainda, que sua mãe era uma virgem, o que ele não era capaz de entender. Deveria ser um mal-entendido, pois Deus, pelos vistos, ao gritar ao mundo que crescesse e se multiplicasse, ou se teria enganado ou se arrependera ou não acreditara no que fez.

Apesar de tudo, sempre foram para ele um tanto estranhas as atitudes de seu divino pai. Ouvira falar de comboios com milhões de pessoas a entrar nas câmaras de gás. Deus estava lá, Deus está em toda a parte. Morreram e morrem milhões de crianças às mãos da guerra e da fome, em aberto genocídio para o mundo inteiro, e Deus, seu pai, assobia para o lado e atafulha as mesas dos que abarrotam de fartura. As guerras crescem como as moscas, correm rios de sangue ao sabor dos interesses dos que mais rezam a Deus, e seu pai, com poderes para desligar a máquina, não o faz. Milhões de mortos, milhões de corpos violentados, amputados, esventrados, despedaçados.  O mundo abarrota de famintos e doentes, de crianças mortas à bomba e tiro ao alvo em monstruosos genocídios, e logo crianças! E todos são seus irmãos.

Ainda noutro dia o seu celestial pai dissera alto e bom som: “Deixem vir a mim os pequeninos”. Pensa ele que o pai se referira aos meninos ricos, enjoados de tanta comida e lavados de tanta piscina, porque os pobres e sujos são sempre os mesmos, e ele nunca os vira em casa de seu pai. Os das barracas, os famintos, os esfarrapados, os abandonados. Muitos dos que transitam por este planeta imundo argumentam, dizendo que um pai que tanto deixa sofrer os seus filhos não pode existir. Mas os ditos ministros de Deus na Terra insistem na bondade e na misericórdia divinas. E ele, o filho de Deus, começa a ter alguma vergonha, porque nenhum filho gosta que o pai o atraiçoe. E dá consigo a pensar: os que comem tudo e não deixam nada, os que geram a fome para que não lhes falte a fartura, têm casas de ouro, férias para descansarem de não fazer nada, hiperluxo em cima de luxo, o céu garantido aqui na terra e lá em cima, nas primeiras filas que o Vaticano sempre lhes reservara, enquanto os outros vão para a vala comum, agora que o inferno faliu. O inferno lá de baixo, o das almas penadas, perante o grito de sofrimento dos povos, imbuídos da fé que tanta e tanta “felicidade” lhes trouxe nestes místicos séculos, até parece que não seria tão mau como o de cá. Talvez o diabo não seja como o pintam. Os fervorosos comungadores, não tanto da sagrada hóstia como do ouro, continuam a achar que os espoliados ainda têm pele, eventualmente rentável e utilizável para fazer tambores.

No fim de contas, o filho de Deus desconfia que seu pai, que é omnividente, omnisciente e omnipotente, optimiza as condições de vida dos fortes para que não sofram e cria todas as condições para que as catástrofes, as guerras, as torres de Babel e os dilúvios se abatam sempre sobre as cabeças dos mais fracos. E conclui que a estupidez, a maldade e a barbárie invadem a cidade, enquanto seu pai permite que façam dela a bandeira com que a bolorenta metafísica apodrece a razão de todos os criados à sua imagem e semelhança.

 

2 Comments

  1. Que argumentos se podem usar para explicar que não se concorda com isto? Eu não tenho! Pai, pai, porque me abandonaste? Disse-lhe o filho na cruz!. Onde estavas meu Deus quando isto aconteceu? Disse Ratzinger perante o cenário do Holocausto. JG84

  2. Reflexões de leitura obrigatória. Embora respeitando-os, sempre me admiro que pessoas de cultura e conhecimento tenham que “inventar” um ser omnitudo para lhes justificar a existência.

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