Nota de editor:
Dada a extensão do presente texto, o mesmo é editado em oito partes, hoje a segunda.
Autópsia de uma morte de há muito tempo anunciada, a da Universidade (2/8)
Coimbra, 26 de março de 2025
Índice
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- Introdução
- De uma estranha exclusão a uma estranha inclusão
- O poder absoluto conferido por um título
- Sobre os tempos de desprezo pelos docentes, pela docência, nas Universidades de agora
- A Universidade, entre a vista curta da Rua da Betesga ou a visão larga da Praça D, Pedro IV, escolhe a rua da Betesga
- Anexo 1. Capitalismo da finitude
- Anexo 2. A propósito de um concurso para catedrático, um olhar para dentro da Universidade
- Anexo 3- A importância da história
10 min de leitura
(continuação)
2. De uma estranha exclusão a uma estranha inclusão
Analisei com alguma curiosidade as rondas sucessivas desta segunda sessão do concurso para com elas se chegar á conclusão final deste concurso. Quanto ao primeiro lugar, atribuído ao Carlos Carreira, não me pronuncio, uma vez que o Carlos Carreira foi meu aluno de licenciatura, meu aluno de mestrado e meu orientando em tese de mestrado. Este foi aprovado na primeira ronda, logo ficou em primeiro lugar, e passa-se às rondas seguintes para seriar os restantes candidatos em presença, onde estavam presentes os candidatos Luís Cruz, Pedro Godinho e Pedro Cerqueira: nestas votações seguintes, achei curioso que Tiago Sequeira e Luís Conraria tenham sempre votado em Pedro Godinho contra o Luís Cruz, ao contrário do Paulino Teixeira que votou sempre Luís Cruz. Achei curioso que o Paulino Teixeira, quanto à seleção do candidato que ocuparia a posição 2 na lista final, se tenha mantido sempre coerente. E isto é ainda tanto mais de realçar quanto o Luís Cruz é formado em Economia e com sólida formação neste campo. Não poderei dizer o mesmo do Pedro Godinho, até porque não é licenciado em Economia. O Luís Cruz foi meu aluno e tenho uma muito boa ideia da sua formação como estudante e da sua competência como professor. No quadro dessa reconhecida competência foi por nós convidado para participar na Iniciativa Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC. Dir-me-ão que isso já vai longe, responderei que sei o que vale o molde quando feito na altura própria, como é este o caso. A segunda escolha foi então o Pedro Godinho.
Quanto à escolha de Pedro Godinho, vale a pena referir os comentários de Luís Conraria expressos em ata:
“Além disso, a sua investigação tem um fio condutor coerente e considero-a relevante. Quem terá as melhores publicações é Pedro Godinho (e.g. Tourism Management ou European Journal of Operational Research), mas não são da área de economia. Na verdade, grande parte das melhores publicações de Pedro Godinho não são da área de economia. No entanto, muitos desses papers mostram um domínio muito bom de teorias económicas e econométricas. Por exemplo, no paper “A two-player competitive discrete location model with simultaneous decisions”, a Teoria dos Jogos é muito bem aplicada para explicar um problema de decisão de localização de empresas. O paper foi publicado numa (excelente) revista de Investigação Operacional, mas seria perfeitamente adequado para uma revista de Economia Industrial. Foi esse o motivo para considerar que o candidato cumpre os critérios de mérito absoluto “. Fim de citação.
Sem querer entrar em discussão sobre esta matéria, fico a saber que um artigo que vale por ser um texto de qualidade numa especialidade que não é de Economia, Teoria dos Jogos, mas que pode ser aproveitado por uma disciplina de Economia, Economia Industrial, dada a sua ferramenta de base onde pode valer por um capítulo, vale por um título de catedrático em Economia. Mas sinceramente, estar na Rua da Betesga, não é a mesma coisa que estar no Rossio. O Luís Conraria, que foi meu aluno, sabe muito bem o custo que tem a alta escadaria da aprendizagem, em Economia. Aprendeu isso comigo, garantidamente. Com alguma ironia direi que teve a “sorte” de ter alguém a fazer-lhe apontamentos da minha disciplina, aliás muito bem feitos, mas isso não chega, foi preciso o seu mérito pessoal para a classificação obtida, e esse era dele, e creio ter-lhe-ei dado 17 ou 18 valores, as duas notas máximas que dei na vida. A nota de 19 valores era a nota que daria a mim próprio e que tentei dar uma vez ao Pedro Ramos, o que não consegui, e isto porque a nota de 20 valores seria só para Deus. O Luís Conraria sabe tudo isso e direi: esqueceu-se. Sobre esta visão da ciência, e da aprendizagem em ciência, seja ela qual for, relembro aqui dois vultos relevantes da cultura ocidental, Thomas Huxley e Blaise Pascal, para além de Niels Bohr.
De Thomas Huxley:
“Tente aprender alguma coisa sobre tudo e tudo sobre alguma coisa.”
De Blaise Pascal:
“Uma vez que não podemos ser universais e saber tudo quanto se pode saber acerca de tudo, é preciso saber-se um pouco de tudo, pois é muito melhor saber-se alguma coisa de tudo do que saber-se tudo apenas de uma coisa.”
De Niels Bohr (cito de memória):
“Hoje sabe-se cada vez mais, mas de cada vez menos, ao ponto de se saber quase tudo, mas de quase nada.”
Nada disto tem a ver com a opinião de Luís Conraria. A ilustrá-lo deixem-me reproduzir a apresentação de um manifesto sobre ensino intitulado Manifesto pela interdisciplinaridade – Por uma educação transformadora [4] da autoria de Filipa M. Ribeiro e João Bettencourt Relvas onde se diz:
Este Manifesto:
a) Apela à urgência de uma reestruturação dos curricula com vista à implementação de novos ciclos de estudo que incorporem uma visão interdisciplinar, pondo fim à separação injustificada e dicotómica entre ciências sociais e naturais, as quais apresentam apenas visões diversas, mas complementares, de uma mesma realidade.
b) Repudia os “dispositivos de destruição” do pensamento crítico, da curiosidade e da diversidade baseados na transmissão debitada e cumulativa de conteúdos curriculares.
c) Propõe a eliminação da separação artificial do conhecimento em áreas disciplinares estanques, no pressuposto de que a interdisciplinaridade abrange não apenas o trânsito entre disciplinas, mas também a amplitude necessária para conciliar as diferentes culturas das diferentes áreas disciplinares, assumindo-se como uma interdisciplinaridade metodológica, teórica e estrutural.
d) Recusa a ideia de que a interdisciplinaridade seja o elo fraco num mercado laboral e académico segregado e dominado por lobbies fortes; defende uma educação sem enciclopedismos, que aposte na profundidade e amplitude de conhecimentos na investigação, no ensino e na aprendizagem. Não nega, porém, a importância da especialização.
e) Defende uma educação por uma dinâmica social renovadora, descentralizada, democrática e participativa, onde cada indivíduo contribua para uma sociedade plural que se construa e reconstrua continuamente a partir dos princípios da diversidade de conhecimentos. Reclama, por isso, a interdisciplinaridade para abordagens inovadoras, informadas e críticas a problemas complexos de natureza múltipla.
f) Sustenta uma educação transformadora que privilegie formas inovadoras de integração da informação, contextualizando-a e criando redes de sentido, por oposição à mera disponibilização de dados.
g) Repudia a conceção neo-institucionalista e isomorfista da Ciência e das instituições científicas e de ensino que prejudica a qualidade do conhecimento produzido e ensinado e as condições de trabalho diário dos académicos.
h) Promove a discussão crítica sobre formas de recuperação de princípios emancipatórios de ensino e de investigação científica capazes de reverter alguns dos efeitos destrutivos da orientação neo-liberal e colonizadora na Educação e na Ciência.
O Manifesto propõe, pois, a interdisciplinaridade como uma estratégia para a transformação da educação.” Fim de citação.
Explicada a posição de Luís Conraria relativamente à escolha de Pedro Godinho contra todos os outros de Economia para catedrático, como segundo selecionado, reafirmo a minha preferência, sempre, por alguém que sabe à partida passear-se no Rossio do que alguém que está preparado à partida para se passear apenas na estreita Rua da Betesga. É a minha opinião e como cidadão tenho o direito de a exprimir. E voltemos ao nosso concurso para catedrático da FEUC.
Mas a questão da Rua da Betesga ou Praça de D. Pedro IV (a praça do Rossio) levanta a velha questão de cidadãos com formação técnica ou de formação técnica, mas de fraca conceção de cidadania. Um confronto que pode ser expresso entre “os cursos de um Ensino Superior de vocação universitária, integrado numa pedagogia polivalente, personalista e cultural, de tonalidade fortemente humanista, verdadeira Escola formadora de Homens, abertos a todas as frentes da Cultura, e os que defendem apenas, ou em primeiro lugar, um Ensino Superior de vocação tecnocrática, orientado predominantemente para uma visão de realidade mais polarizada, diferenciadora, linear, acutilante e instrumental, fecunda Fábrica de Técnicos, marcados por imperativos de eficiência e de produtividade, mas amputados de todas as dimensões humanas que não apontem diretamente para uma orientação profissional [5]“. O drama todo nesta dicotomia, como se ilustra com o Ensino Superior de agora, é que é impossível coletivamente fazer técnicos de primeira a serem cidadãos de segunda, isto é, cidadãos submissos aos ditames neoliberais, como é impossível criar cidadãos de primeira a serem técnicos de segunda. A missão da Universidade exigiria criar técnicos de primeira qualidade que sejam igualmente cidadãos de primeira, isto é, cidadãos ativos na defesa da Democracia vivida.
A sociedade portuguesa atual e a crise política que a todos deve envergonhar são o exemplo claro do que acabo de afirmar. Que o Luís Conraria não tenha entendido isso, ele que é um analista político, é para mim estranho, e talvez isso se explique como o efeito da degradação dos tempos, mesmo naqueles que saíram das Universidades com uma sólida formação e, essa, no caso do Luís Conraria, atesto-a eu.
Depois, na escolha para a terceira posição na lista final do concurso ficavam a concurso o Pedro Cerqueira e o Luís Cruz. Aqui a história repete-se: o Paulino Teixeira, um “velho” da casa, continuou a votar Luís Cruz contra os dois ”jovens” na casa, que continuaram a votar contra o Luís Cruz. Como um velho da casa que eu fui, hoje a casa não me diz nada, saúdo a coerência do Paulino Teixeira que logicamente deve conhecer melhor o terreno que se pisa na FEUC do que os dois membros do júri referidos.
Deste júri, Luís Conraria e Paulino Teixeira foram meus alunos na FEUC e ainda da casa teremos também Tiago Sequeira, aprovado para catedrático no concurso anterior, a que se adiciona o Presidente do Júri, Álvaro Garrido que tem voto de desempate, se necessário.
Alguém que em concurso internacional fica em primeiro lugar para o cargo de professor associado, fica em terceiro lugar para professor catedrático, não tem a seguir um perfil global apropriado para o concurso seguinte para catedrático! Entenda quem puder e souber. Eu não consigo perceber e bem me esforcei para tal. Uma coisa eu sei, que a dignidade pedagógica foi posta em saldo pela equipa dirigente com Álvaro Garrido à frente, o que se mostra pelas equivalências sem rei nem roque que foram estabelecidas para os planos de transição e que não vi contestadas por ninguém.
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Com este texto já concluído, em 26 de março, cruzo-me na Alameda Armando Gonçalves em Coimbra junto ao café Gourmet da Maria, em 27 de março, com uma pessoa de quem fui professor e que me habituei a estimar desde então, e já lá vão décadas. Sublinho fui professor dos velhos tempos em que os professores não viam os alunos pelas costas. A conversa havida tem a ver com o que acima está escrito, pelo que me limito a inserir esta conversa em caixa. Dado ter tido uma queda aparatosa no dia anterior, ia devagar e a olhar para o chão, porque decorrem obras para o Metro de superfície e o medo do que me aconteceu na véspera estava ainda bem presente. De repente, alguém chama por mim: Professor! Professor! Tratava-se de uma pessoa com quem me cruzo no supermercado Pingo Doce, de alguém que aprendeu comigo na Universidade. Tratava-se de alguém por quem eu sempre tive muita estima. No relato que se segue, evitemos o género e evitemos também os laços familiares de quem chamou por mim. Trata-se de uma pessoa que foi minha aluna há décadas. E diz-me o seguinte: Professor hoje dou-lhe a resposta à pergunta que ainda hoje não me fez. Pus-lhe a mão no ombro e disse-lhe: espere aí, diz-me que me vai dar a resposta à pergunta que ainda não lhe fiz? É isso? É, acrescentou. Bom, não me diga nada: deixe-me então fazer a pergunta que ainda não lhe fiz e dar-lhe a resposta que ainda não me deu. Posso? Pode. Então a pergunta é: a pessoa nossa conhecida já fez Economia Internacional? Já se licenciou? E a resposta é: A Faculdade informou-a de que estava licenciada sem fazer mais nenhuma disciplina. Sem fazer mais nada? Estou certo ou errado? Como adivinhou, diz-me essa pessoa espantada. Simples, quando a dignidade académica cai na rua, tudo é possível. É este o caso. A pessoa nossa conhecida, vem de um curso de cinco anos e não o concluiu. O curso passou para 4 anos e não o concluiu. Passou para um curso de 3 anos, interrompeu-me a pessoa com quem dialogava. Não, não passou para um curso de três anos, passou para um curso de 2 anos e meio! Há no plano de curso disciplinas que são tanto de economia quanto eu poderia dizer que são de física. Não são nem uma coisa nem outra. Vejamos o que se terá passado: a pessoa nossa conhecida na passagem do curso de 5 para 4 anos perdeu disciplinas que já tinha feito e que desapareceram no novo plano de curso. O plano de curso passou depois de 4 anos para os ditos 3 anos e volta agora a perder mais disciplinas com a redução de anos de ensino. Se somarmos às disciplinas já feitas, e que constam do atual plano de curso, às disciplinas perdidas na passagem de 5 para 4 para anos de licenciatura e se adicionarmos ainda as cadeiras perdidas na passagem do plano de curso de 4 para 3 anos, essa soma em créditos será igual ou superior a 180 créditos, o suficiente para se considerar licenciado. Andou-se à pesca e somaram-se os peixes bons, as disciplinas feitas e que continuam em vigor no atual plano de curso, com os peixes já putrefactos, as cadeiras desaparecidas nos diversos planos de curso, e isso dá em créditos igual ou superior a 180 créditos e uf! Com esses créditos fica-se licenciado. Sei que o professor deve ficar chateado. Não fez a disciplina de Economia internacional, esta pessoa não a fez. Não fez Economia Internacional, como pode não ter feito outras disciplinas obrigatórias, como Matemáticas, por exemplo. Para os nossos fabricantes de diplomas, isso não tem importância. Exemplo: admita que não fez Política Económica, disciplina que era obrigatória nos planos de curso de 5 e de 4 anos. Pois bem, mas esta disciplina é agora de opção e tem, portanto, o mesmo estatuto que todas as outras disciplinas de opção. Opções, essa pessoa fez muitas, perdeu-as, foram recuperadas pela operação de pesca, disciplinas de opção são todas iguais entre si e alcançou os 180 créditos e está licenciado. Agora repare, quem anda cerca de 20 anos para acabar um curso, inteligente é qualidade que aqui não lhe pode ser reconhecida e, neste caso, a Faculdade ao reclamar-se no direito de considerar como licenciados encartados por si pessoas com esta falta de qualidades está a reclamar-se no direito de assumir a “produção” de licenciados verdadeiramente ignorantes. Mas mais ainda: ao proceder desta maneira é a Faculdade que também se desvaloriza a si-mesma, mas ao desvalorizar-se a si-mesma está a desvalorizar todos os seus licenciados, e a maioria é gente que fez o curso seriamente. Produzir ignorância parece ser a vocação dos nossos catedráticos de aviário, produtores apressados de diplomas, é a conclusão que se pode tirar, sem que daí advenha um qualquer problema de ordem ética. E despedimo-nos. |
Uma outra coisa eu sei, sei que a dignidade científica foi posta de rastos com o novo plano de curso, em que disciplinas fundamentais desapareceram dos planos obrigatórios, enquanto disciplinas sem sentido são introduzidas como, por exemplo, a disciplina de Projeto Integrador, a valer por 12 créditos! Sabendo tudo isso, que pensar do que que acabo de questionar? Incapacidade minha em perceber, nepotismo ou submissão das instituições ao poder e à arrogância dos jovens turcos, como é que se deve justificar esta anomalia?
Se o problema é incapacidade minha em perceber as pressupostas virtudes do novo plano de curso, expliquem então quais são estas virtudes e tudo isto significará, então, que é um problema individual meu, a incapacidade de compreender a realidade que tenho pela frente. Mas se é apenas explicável pelo neopotismo dos catedráticos de aviário ou pela submissão das Instituições Universitárias ao poder, então esta degradação representa, isso sim, um problema de ordem coletiva, grave, muito grave, mas haja então alguém que me esclareça nesta questão.
Vejamos um outro concurso para um lugar de catedrático, agora para a área de Matemática e já com a seguinte classificação final:
Dois professores de exceção, é o que se pode dizer de Pedro Godinho e de Pedro Cerqueira, ambos de longa experiência em matemática e agora ambos aceites como catedráticos possíveis para ocupar o cargo de catedrático tanto em Matemática como em Economia. Têm ambos, contrariamente ao que nos dizem sobre José Fuinhas, currículo global adequado à ocupação do cargo de catedrático tanto em Economia como em Matemática, saiba-se muito ou pouco de Economia. Em Matemática, o Pedro Godinho ficou em primeiro lugar, o Pedro Cerqueira em terceiro lugar, mas ambos aprovados para os dois tipos de cátedra. Há um só lugar em Matemática. O Pedro Godinho que é aprovado tanto para ocupar um lugar no núcleo de Matemática como no de Economia, opta pela cátedra em Matemática e liberta o segundo lugar de catedrático alcançado na área de Economia. O Pedro Cerqueira consegue por esta via o segundo lugar para o lugar de catedrático em Economia. Note-se que o Pedro Cerqueira no concurso para associado estava atrás do José Fuinhas) e agora, para catedrático, o José Fuinhas é excluído e o Pedro Cerqueira é aprovado. Bem me esforço por perceber esta lógica, mas desisti: não consigo percebê-la, é areia demais para a minha camioneta. Duas lógicas possíveis para perceber o que se passa ou para não o perceber:
a) Trata-se de um procedimento normal, de um procedimento correto, limpo, escorreito.
Como referi atrás, neste caso, eu é que estou velho, tenho 82 anos, eu é que estarei a perder capacidades de raciocínio e, portanto, o problema é meu. Será então melhor ir ao médico e começar a tomar medicamentos de contenção dos mecanismos de senilidade. O problema é então apenas um problema individual, um problema meu.
b) Trata-se de um procedimento institucional anómalo, opaco, de razões não enquadráveis logicamente numa Instituição condigna de Ensino Superior. Aqui o problema deixa de ser individual, é de uma Instituição Pública e a pergunta que se levanta é: estaremos nós perante uma epidemia de mal-estar na Administração Pública, uma vez que ouço queixas de tanta gente com quem falo e a trabalhar em diferentes ministérios, muitos deles a aguardarem ansiosamente a passagem à reforma?
Neste contexto, percebe-se assim que eu estranhe a aprovação do professor Pedro Godinho para catedrático em Economia [6]. Note-se que este terá levado menos tempo a fazer o mestrado em Finança que lhe vai dar o título de catedrático do que eu a estudar a obra de David Ricardo, mas como diz, e com muito humor, o meu amigo Fausto Pereira, Presidente da Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência (FPDD), em reação ao comentário de um amigo comum sobre o que eu lia e não lia, o problema é meu, que não leio muito, não senhor, leio pouco e leio muito devagar, muito devagarinho! Nesta lógica humorística, direi eu, além de ler devagar, muito devagarinho, ainda serei lento, muito lento, a pensar, demasiado lento até, poder-se-ia acrescentar, o que nos tempos de hoje em que a lentidão é um defeito e a rapidez uma virtude, isso é muito grave.
(continua)
Notas
[4] Original aqui. Agradeço ao João Relvas, biólogo e doutorado em Genética Molecular, a disponibilidade do referido Manifesto.
[5] Introdução de J. L. Rodrigues Martins ao texto de Niels Bohr, “Sobre a constituição de átomos e moléculas”, editado pela Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa,1989.
[6] Sublinho que em tudo o que se segue não se trata de nenhuma critica pessoal contra o Pedro Godinho. Tal como disse relativamente ao José Fuinhas, poderia ser um outro qualquer professor e o texto seria exatamente o mesmo. Não se trata de discutir pessoas, mas sim lógicas e práticas institucionais.



