Quando a ignorância se disfarça de patriotismo: sobre o artigo do Observador que refere Carlos Branco e Agostinho Costa – por Carlos Pereira Martins

 

Quando a ignorância se disfarça de patriotismo: sobre o artigo do Observador que refere Carlos Branco e Agostinho Costa

por Carlos Pereira Martins

Declaração de interesses: não tenho especial predilecção por nenhum dos líderes dos países beligerantes, Rússia ou Ucrânia, pelo contrário, tenho múltiplos pontos de discórdia em relação a qualquer um deles e aos séquitos que os rodeiam e tanto mal têm causado aos seus compatriotas, ameaçando, inclusive, arrastar os povos europeus para uma guerra de consequências imprevisíveis, mas certamente de horrores, assim como a toda a humanidade.

O artigo publicado no Observador a 4 de Maio de 2025 por um Tenente-Coronel, não é uma peça de opinião informada — é, sim, um panfleto ideológico, mal disfarçado de indignação patriótica, que insulta dois generais portugueses com carreiras respeitadas e um profundo conhecimento da realidade geopolítica.

A acusação de que Carlos Branco e Agostinho Costa “falam a linguagem de Moscovo” é não só falsa como perigosa. Pretende reduzir toda a análise crítica à categoria de traição, como se a única opinião aceitável fosse a que repete acriticamente a narrativa oficial da NATO, do Governo ucraniano e das lideranças das Instituições Europeias (Comissão e Conselho).

Em democracia, este tipo de intolerância intelectual é inaceitável.

O currículo fala mais alto que a propaganda

Carlos Branco foi Director da Divisão de Cooperação e Segurança Regional, do Estado-Maior Militar da NATO, e responsável pelo planeamento estratégico da cooperação militar com os parceiros, entre outras funções de relevo, como porta-voz do Comandante da ISAF. Agostinho Costa tem um longo percurso académico e operacional nas Forças Armadas. Nenhum dos dois precisa de lições de patriotismo de quem confunde fervor ideológico com análise geoestratégica. Não é por se recusar a alinhar com o pensamento único que alguém passa a “porta-voz de Putin”.

Ambos têm alertado para factos incómodos, mas concretos: a expansão da NATO para Leste, ignorando os compromissos feitos após o colapso da URSS; o golpe de Estado em Kiev em 2014, com apoio ocidental; a repressão no Donbass antes da invasão de 2022; e o falhanço rotundo das tentativas de negociação. Negar esta realidade histórica não é virtude — é ignorância.

Criticar a NATO não é ser pró-Rússia

Esta lógica binária, em que quem critica a NATO ou o Ocidente é automaticamente aliado do Kremlin, é infantil e intelectualmente desonesta. O papel dos analistas militares não é servir de eco a Washington ou a Bruxelas, mas sim interpretar os factos com base no conhecimento técnico e estratégico.

Carlos Branco e Agostinho Costa não “desculpam” Putin — analisam a sua actuação à luz da realpolitik. Não confundem o mundo com um filme de Hollywood. Sabem que a guerra é uma expressão violenta de interesses nacionais, e que tanto a Rússia como o Ocidente agem em função de agendas que vão muito para além dos discursos sobre “liberdade” e “soberania”.

Comparações com Goebbels: um abuso vergonhoso

Comparar generais portugueses — que serviram com distinção ao longo de décadas — ao chefe da propaganda nazi é um acto de vileza. Não é apenas um insulto pessoal, é uma ofensa grave à verdade, à história e à decência.

Este tipo de linguagem revela mais sobre o autor do que sobre os visados: revela intolerância, má-fé e incapacidade para lidar com o contraditório. Numa democracia adulta, o debate faz-se com argumentos, não com insultos histéricos nem insinuações de “colaboracionismo”.

O contraditório é um direito, não um favor

É profundamente preocupante que se sugira que as televisões deveriam deixar de convidar estes generais por “não dizerem o que convém”. O papel da comunicação social não é validar consensos, mas promover o pluralismo. Só regimes autoritários têm medo da diversidade de pensamento.

Quer gostemos ou não das análises de Branco e Costa, elas têm sustentação técnica e base factual. O que verdadeiramente incomoda os seus detractores é que desmontam a narrativa simplista do “bem contra o mal” e apontam responsabilidades também do lado ocidental — o que, pelos vistos, é suficiente para serem rotulados de traidores.

Conclusão: a liberdade de expressão não se suspende em tempo de guerra

A guerra na Ucrânia é complexa, suja e cheia de zonas cinzentas. Transformá-la num teste de fidelidade ideológica à NATO ou a Washington é não só absurdo como perigoso. Carlos Branco e Agostinho Costa prestam um serviço valioso ao oferecerem uma leitura crítica, baseada na experiência militar e no conhecimento do terreno.

O que verdadeiramente “deplora” não é a sua presença nas televisões — é o nível a que chegou o debate público, onde quem não repete o discurso dominante é difamado, silenciado ou acusado de traição.

Esta deriva censória, que confunde discordância com deslealdade, é o verdadeiro veneno no discurso democrático. E é contra ela que, mais do que nunca, importa resistir.

Carlos Branco e Agostinho Costa prestam um serviço importante ao desafiar narrativas simplistas e oferecer uma visão alternativa. Discordar deles é legítimo. Difamá-los, não.

3 Comments

  1. Um bom artigo. Deveria ser enviado às direções de infromação das nossas TVs e também ao Observador. Mas o nome do plumitivo deveria ter sido mencionado.

  2. E para que conste: o nome deste panfletista difamador é José António Rodrigues do Carmo, militar reformado dos Comandos, e que como ele o assume é de direita. Casa bem com a “casa” que lhe dá acolhimento, O Observador, fundado e dirigido, entre outros , pelo jornalista José Manuel Fernandes que depois de deixar as plumas esquerdistas de UDP está no regaço que mais lhe agrada: a direita.

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