Espuma dos dias — A utilização dos militares em questões internas por Trump pode agravar-se. Por Greg Sargent

Seleção e tradução de Francisco Tavares

5 min de leitura

A utilização dos militares em questões internas por Trump pode agravar-se, como mostra um memorando do Departamento de Segurança Interna

 Por Greg Sargent

Publicado por  The New Republic em 2 de Agosto de 2025 (original aqui)

 

O presidente Donald Trump fala com o Secretário de Defesa Pete Hegseth em Washington, DC, em 8 de julho. Andrew Harnik / Getty Images

 

Um memorando do Departamento de Segurança Interna obtido pelo TNR sinaliza discussões de alto nível sobre uma potencial escalada do papel anti-imigração doméstico do Pentágono e apresenta novos detalhes.

 

O presidente Donald Trump já enredou os militares dos EUA em operações domésticas de aplicação da lei envolvendo imigração num grau sem precedentes. Ele autorizou um grande aumento militar na fronteira. Ele maximizou o uso de aviões militares para deportações, com a Casa Branca bombeando imagens de migrantes a serem arrastados para aviões militares. Ele enviou a Guarda Nacional para Los Angeles no meio de protestos em grande escala aí — e depois enviou os Fuzileiros Navais.

Mas um memorando interno circulado dentro do Departamento de Segurança Interna (DHS) sugere que o uso dos militares por Trump para a aplicação da lei doméstica sobre imigração pode agravar-se em breve. O memorando — obtido pelo The New Republic — fornece um vislumbre do pensamento de altos responsáveis que procuram envolver mais profundamente o Departamento de Defesa nessas operações domésticas, e tem enervado especialistas que acreditam que pressagia uma escalada assustadora.

O memorando estabelece a necessidade de persuadir os altos responsáveis do Pentágono a levarem muito mais a sério o uso dos militares para combater a imigração ilegal — e não apenas na fronteira. Isso sugere que o DHS está a prever muitos outros usos dos militares nos centros urbanos, observando que operações no estilo da de Los Angeles podem ser necessárias “nos próximos anos”. E compara a ameaça representada por gangues e cartéis transnacionais com a existência de “células e combatentes da Al Qaeda ou do ISIS a operarem livremente dentro da América”, insinuando uma postura militarizada aumentada no interior do país.

“O memorando é alarmante, porque fala da intenção de usar as forças armadas dentro dos Estados Unidos a um nível não visto desde o confinamento de japoneses”, disse-me Carrie Lee, membro sénior do German Marshall Fund. “Os militares são a ferramenta mais poderosa e coerciva que o nosso país tem. Não queremos que os militares façam a aplicação da lei. Isso mina totalmente o estado de direito.”

O memorando é de autoria de Philip Hegseth — o irmão mais novo do Secretário de Defesa Pete Hegseth — que é conselheiro sénior da Secretária de Segurança Interna Kristi Noem e oficial de ligação do DHS ao Departamento de Defesa. Como tal, também lança luz sobre o papel do mais jovem Hegseth, que tem sido objeto de especulações nos media que o rotulam de figura obscura, mas influente, na órbita MAGA do seu irmão.

O memorando descreve o itinerário de uma reunião de 21 de julho entre altos funcionários do DHS e do Pentágono, com o objetivo de coordenar melhor as atividades das agências em “defesa da Pátria”. Ele detalha os objetivos que Philip Hegseth espera alcançar na reunião e descreve os pontos que ele quer que os funcionários do DHS impressionem os participantes do Pentágono.

A lista de  participantes compreende os níveis mais altos de ambas as agências, nomeadamente o Secretário de Defesa Pete Hegseth e vários dos seus principais conselheiros, o Presidente do Estado-Maior Conjunto Dan Caine e o comandante do NORTHCOM Gregory Guillot. O pessoal inclui Phil Hegseth e o Comissário Interino do ICE, Todd Lyons.

“Devido à natureza sensível da reunião, pode ser proporcionado neste memorando informativo uma política escrita mínima ou informações básicas “, diz o memorando.

Lee, do German Marshall Fund, disse-me que isso sugere que ” eles entendem que as ações que estão a tomar estão a contornar linha.”

O principal objetivo da reunião, diz o memorando, é promover “novas ideias de como os dois departamentos podem planear melhor a segurança nacional e a imigração ilegal”. Então acrescenta isto:

A liderança militar dos EUA (o Presidente do Estado-Maior Conjunto e do NORTHCOM) precisa de sentir — pela primeira vez — a urgência da missão de defesa da Pátria. Precisam de compreender a ameaça, o que está em jogo e a importância política que a administração atribuiu a esta questão.

Os especialistas com quem conversei ficaram surpreendidos com a forma como isso sugere que o DHS- Departamento Segurança Interna exerça pressão sobre o Departamento de Defesa para que os militares se envolvam muito mais na fiscalização da imigração, potencial tensão entre altos funcionários de ambas as agências sobre esse imperativo e possível resistência a ele por parte de funcionários do Pentágono. O memorando diz que alinhar ambas as agências desta forma” é uma prioridade de POTUS [Presidente dos Estado Unidos]”, ou seja, Trump.

“É perturbador ver funcionários do DHS pressionando os militares dos EUA a voltarem o seu foco ainda mais para dentro [do país]”, disse-me Joseph Nunn, conselheiro do Programa de Liberdade e Segurança Nacional do Brennan Center. Nunn disse que isso sugere que “o envolvimento militar na aplicação da lei civil doméstica” está prestes a tornar-se “mais comum”.

O memorando articula a necessidade disso. Diz que o DHS espera garantir “um acordo verbal para encontrar lugares onde o DoDefesa possa destacar o pessoal dentro do ICE e [Alfândega e Proteção de Fronteiras] (e vice-versa) para aumentar a partilha de informações e apoiar especificamente as capacidades de planeamento operacional em todo o país.”

O desfecho parece ser que o DHS está a exortar os altos funcionários do Pentágono a darem prioridade ao uso dos militares contra a imigração ilegal num grau substancialmente maior e sem precedentes, e que as discussões estão em andamento para conseguir isso, com a bênção do Secretário de Defesa Hegseth.

“Parece que o DHS e o Secretário Hegseth estão a tentar obrigar os militares a concordar em operar muito mais diretamente dentro do território dos EUA”, disse-me Kori Schake, diretor de estudos de política externa e de defesa do American Enterprise Institute.

Solicitada a clarificação das intenções do memorando, a porta-voz do DHS, Tricia McLaughin, recusou-se a comentar. O The New Republic obteve o memo com a condição de nos abstermos de publicar o documento original, pelo que publicámos grande parte do seu texto aqui. Omitimos alguns pormenores logísticos e biográficos.

Depois, há a menção à Al Qaeda e ao ISIS. O memorando detalha pontos de discussão para os funcionários do DHS usarem para persuadir esses funcionários do Pentágono a envolverem-se mais na fiscalização doméstica. Ele faz referência a ataques a oficiais do DHS e cartéis e gangues da América Central e do Sul, observando que eles foram designados como organizações terroristas.

“Isso coloca essa ameaça no mesmo plano (sic) que ter células e combatentes da Al Qaeda ou do ISIS operando livremente dentro da América”, diz o memorando.

Os peritos com quem falei consideraram esta linha particularmente preocupante.

“A fusão de uma ameaça de baixo nível, como organizações criminosas transnacionais, com a Al Qaeda, que na verdade estava a tentar derrubar o governo dos Estados Unidos, é uma clara tentativa de usar força excessiva para um propósito normalmente tratado pelas autoridades civis”, disse-me Lindsay Cohn, Professora Associada do Colégio de guerra Naval dos EUA.

O memorando também discute as recentes operações militares em Los Angeles da seguinte forma:

Não tem sido perfeito, e ainda estamos a trabalhar com as melhores práticas juntos, mas acho que é um bom indicador do tipo de operações (e resistência) com que vamos trabalhar nos próximos anos.

“Isso é alarmante, porque está a colocar as respostas aos protestos constitucionalmente protegidos na mesma cesta que o contraterrorismo e o combate às organizações criminosas transnacionais”, disse Cohn. “Temos meios legais para os militares apoiarem a aplicação da lei civil, mas é sempre suposto ser um último recurso. Este memorando trata de transformar a segurança interna numa actividade regular do Departamento de Defesa, o que não é. Isto não é normal.”

O contexto mais amplo aqui é que a administração desviou-se das normas na sua invenção de pretextos para operações domésticas draconianas. A administração insistiu que estamos sob “invasão” estrangeira para invocar a Lei de inimigos estrangeiros de 1798 para deportar centenas de pessoas com pouco ou nenhum processo legal. Agências governamentais divulgaram supostas provas dos laços de Kilmar Abrego Garcia [cidadão de El Salvador, ver aqui) com a MS-13 [gangue para proteger imigrantes salvadorenhos, ver aqui] para justificar a sua entrega ilegal a uma prisão salvadorenha. Trump tem um longo historial de mentir sobre o crime para justificar a repressão à imigração. Ele inventou vários pretextos falsos para enviar tropas para Los Angeles.

O memorando sugere uma maior operacionalização dessa táctica. “Eles vêem Los Angeles como um modelo a ser replicado”, disse Lee.

Tudo isto acontece quando o ICE [Fiscalização da Imigração e Fronteiras] está prestes a receber mais de 100 mil milhões de dólares em novos fundos. O memorando levanta a questão de como será detalhado o uso de militares “dentro do ICE e do CBP [Alfândegas e Proteção de Fronteiras]” com todo esse dinheiro.

Em certo sentido, a administração parece estar a sobrealimentar a propaganda da “invasão” da imigração para fabricar uma sensação de trauma nacional semelhante à que surgiu após os ataques de 11 de setembro [de 2001]. Isso levou a outro tipo de “guerra ao terror”: hipermilitarização em casa (assim como no exterior). A administração parece determinada a superar isso – desta vez contra o novo inimigo interno.

“Normalizar um apoio militar de rotina à aplicação da lei poderia criar uma espécie de ‘guerra para sempre’ doméstica, mas que é excepcionalmente perigosa”, disse-me Nunn, do Brennan Center. “Como os fundadores bem entenderam, um exército voltado para dentro é uma ameaça à democracia e à liberdade individual.”

 

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O autor: Greg Sargent é redator do The New Republic e apresentador do podcast The Daily Blast. Um comentarista político experiente com mais de duas décadas de experiência, ele foi um proeminente colunista e blogueiro no Washington Post de 2010 a 2023 e trabalhou em Talking Points Memo, New York magazine e The New York Observer. Greg também é o autor do livro aclamado pela crítica An Uncivil War: Taking Back Our Democracy in an Age of Disinformation and Thunderdome Politics.

 

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