Mãe… mãe…MÃE, onde estás que não te vejo?
Caíste quando correste para me ires buscar no meio das pedras do nosso prédio?
Sentiste o prédio a cair e o barulho das bombas?
MÃE, quero os teus braços para me abraçares. Quero o teu colinho…
MÃE, tenho medo.
As pessoas estão todas a correr e eu? O que faço para te encontrar, não chores porque não estou ferido, mas tenho o corpo, a roupa com sangue e muitas, muitas lágrimas a lavar-me a cara.
Mãe, tenho medo… e o pai? Ele está na guerra e deve estar triste porque está longe, mas disse-nos que ia defender a nossa terra porque nos querem tirar o chão por onde andamos, todos os dias.
Mãe, estou a andar à tua procura e só vejo pessoas a correr, a gritar, a chorar, muitos estão feridos, gemem com dores, estão cobertos de sangue, mas ainda não sabem que os hospitais não conseguem tratar de todos…
Mãe, mãe não te quero ver a correr à minha procura. Pára, não te canses porque nos vamos encontrar, eu vou atrás dos outros…
Sabes mãe, há muitas crianças, como eu, sozinhas, à procura das suas mães…?
Mãe, tenho tanto medo!
Há muitos sacos brancos na rua, sabes o que têm lá dentro?
Eu não sabia, mas agora sei que são pessoas que já morreram…
Mãe, mãe, mãe, por favor não vás, não deixes que te embrulhem num saco branco porque assim não te consigo encontrar.
Muitas crianças vão a correr sem saberem que monte de pedras hão-de escolher!
Mãe, tenho medo!
Onde estão os teus braços para pegarem em mim ao colo?
Mãe, quero ir para o teu colinho.
Estou cansado e não vejo ninguém conhecido, só vejo que todos vão a correr e a gritar.
Oh! Vejo crianças com sorte, que vão de mão dada com as suas mães, mães que levam os seus bebés ao colo, cobertos com uns panos já cheios de pó e de sangue!
Porquê? Não estás aqui para me dizeres… para me dizeres porque é que os russos nos querem matar, nós que não nos podemos defender!
Mãe, passou uma fila de homens a levar mais sacos brancos, não sei para onde, nem sei se tu mãe… Oh MÃE, não sei se vais dentro de um saco branco!!!
Mãe, tenho tanto MEDO!
As crianças, como eu, correm à procura das suas mães e estão assustadas, estão a chorar…
MÃE, mãe espera por mim…
Sentei-me em cima de uma pedra, olhei para os meus amigos do medo e desatei a chorar muito, muito, tanto que eles vieram ter comigo e disseram-me para não chorar porque as lágrimas, às vezes, tiram-nos a esperança.
Eu sou o mais novo, tenho sete anos! A minha escola foi bombardeada e estavam lá pessoas que já não tinham casa para se abrigarem dos bombardeamentos, uma bomba destruiu os seus prédios!
Eu, eu continuava a chorar com tanto medo de tudo! Onde estás, minha mãe? Eu continuo à tua procura e tu à minha. Vais ver que nos vamos encontrar e eu vou a correr para os teus braços. O pai está a lutar por nós, o pai vai voltar feliz porque nos salvou.
Vai abraçar-nos e vai chorar, mas não faz mal, são lágrimas de alegria!
Os soldados do nosso inimigo também têm filhos, também choram, também querem ir para casa. Porque destroem as nossas casas? Porque fazem as suas crianças chorarem como nós? Porque destroem escolas, hospitais?!
E eu chorava, chorava…mãe, mãe nos meus sonhos tu apareces a correr para mim com os braços abertos, mas estás tão magrinha! Também tens fome, não é?
Os meus amigos disseram-me que tomariam conta de mim e que iam proteger-me, sempre, até eu te encontrar.
Eu parei de chorar quando me disseram que os nossos pais eram uns heróis e que já faltava pouco tempo para virem para casa.
Acreditas, mãe?
Mãe, tenho fome.
Mãe tenho medo.
Mãe tenho dois amigos, para sempre, vais gostar deles.
Eu tento aprender a viver num país em guerra, mas sabes, já não sei viver numa terra em paz…já não me lembro. Não, não, lembro-me da minha escola, lembro-me do lanche que levava para comer no intervalo, lembro-me de me ires buscar à escola e de falares com outras mães.
Lembro-me de irmos jantar ao domingo na casa dos avós. Onde estarão os nossos amigos?
Lembro-me de brincar na rua e de ver televisão e de ver a guerra que estamos a viver!
Mãe, tenho medo agora, não me digam que amanhã a vida vai ser melhor, porque melhor tem de ser AGORA.
Mãe, tenho medo do medo!

