Espuma dos dias — O nó da força europeia de interposição: a paz ucraniana já está em risco. Por Davide Malacaria

Seleção e tradução de Francisco Tavares

4 min de leitura

O nó da força europeia de interposição: a paz ucraniana já está em risco

 Por Davide Malacaria

Publicado por  em 20 de Agosto de 2025 (original aqui)

 

Na foto, o mapa da Ucrânia que Trump mostrou aos líderes reunidos em Washington, com as quatro regiões reivindicadas por Moscovo assinaladas como russas…

 

A implantação de uma força militar europeia na Ucrânia após um possível acordo de paz, que saiu pela porta durante a reunião entre Trump, Zelensky e os líderes europeus em Washington, reentrou pela janela [n.t. também chamada porta do cavalo] e tomou assento. E, claro, não por acaso, porque poderia frustrar ab initio o processo de paz entre Moscovo e Kiev.

Foi o próprio Trump que, após o acordo, relançou a ideia de um destacamento militar em modo defensivo: as forças destacadas seriam europeias e não americanas, mas os Estados Unidos garantiriam apoio aéreo em caso de agressão russa. Isso faria parte do pacote de garantias de segurança exigido pela Ucrânia com o apoio dos países europeus.

Tudo isto contrasta com o pedido russo de evitar que, uma vez alcançado um possível acordo, sejam mobilizadas forças europeias ou americanas na Ucrânia – um pedido que parecia ter sido aceite pelos Estados Unidos – e reiterado ontem pela porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Maria Zakharova, para impedir a escalada de alarido neste sentido.

O pedido russo visa evitar uma linha de atrito entre os russos e as forças ocidentais, o que poderia levar a acidentes de percurso em risco de desencadear uma nova guerra, desta vez com a participação activa, e não a supervisão e retaguarda, dos países europeus e, quer Trump goste ou não, dos Estados Unidos.

Na verdade, não sabemos quem sugeriu ao presidente dos EUA o subterfúgio do apoio aéreo, mas é um tanto bizarro que queiramos evitar um possível confronto directo EUA – Rússia, evitando o envio de soldados para a Ucrânia e, ao mesmo tempo, garantindo o apoio aéreo às tropas europeias eventualmente envolvidas contra os russos, como se isso não implicasse inevitáveis confrontos aéreos entre as Forças Aéreas das duas superpotências, o que conduziria inevitavelmente a um confronto directo.

De facto, trata-se de um regresso, noutra espécie, da opção de impor uma zona de exclusão aérea feita pelos EUA nos céus ucranianos que foi brandida no início do conflito pelos beligerantes neoconservadores e rejeitada pela administração Biden, com o presidente americano que, estupefacto, respondeu assim às exigências neste sentido: querem a Terceira Guerra Mundial?

Mais detalhado foi o senador Marco Rubio, então um simples membro do Congresso e atualmente chefe do Departamento de Estado: “a zona no-fly tornou-se um slogan. Não tenho a certeza se muitos entendem completamente o que isso significa. [ … ] Significa fazer voar AWACS [sistemas de alerta e controlo aerotransportados] 24 horas por dia. Significa decidir atacar e abater aviões russos. Significa, além disso, que não podemos fazer voar os nossos aviões a menos que estejamos dispostos a derrubar os sistemas antiaéreos implantados pelos russos… não só na Ucrânia, mas também na Rússia e na Bielorrússia. Então, basicamente, uma zona de no-fly, para entender o que significa, significa a Terceira Guerra Mundial. Significa começar a Terceira Guerra Mundial”.

Assim, uma nova variável entrou no processo de apaziguamento, o que poderia fazer explodir tudo. Dito isto, é legítimo que Kiev exija garantias de segurança, tal como é legítimo que os russos não queiram tropas ocidentais nas suas fronteiras, uma vez que a liderança europeia é vítima de um transe belicista aparentemente inexplicável.

Isto é realçado pelas suas exigências e pelas suas declarações incendiárias, a última das quais é a extremamente estúpida de Macron, segundo a qual Putin é “um predador, um ogro à nossa porta”, que “deve continuar a comer” para “a sua própria sobrevivência”, acrescentando que os europeus “não devem ser ingénuos” em relação à Rússia, que continuará a ser “uma força desestabilizadora duradoura”. Note-se o uso do epíteto “ogro”, que é o usado pelos ucranianos para identificar os russos neste conflito (desumanizar o inimigo serve para justificar qualquer infâmia, como é evidente em Gaza).

Tal postura beligerante, típica de quase todos os líderes da UE, obviamente não tem uma base em si mesma, dada a falta de poder de fogo dos nossos, por isso precisa da ajuda dos Estados Unidos, que estão a tentar de todas as maneiras arrastar para o conflito. Eles não tiveram sucesso no decurso da guerra, poderiam ter sucesso com a paz, se o cenário acima se concretizasse. Definir uma falsa bandeira é um exercício fácil. Os defensores de guerras intermináveis são especialistas nesta área desde os tempos das armas de destruição massiva de Saddam.

Resta que, para além das declarações trumpianas, que nos habituaram a proclamações tão bombásticas quanto vazias, e do niet de Moscovo sobre o destacamento de forças de interposição europeias, os Estados Unidos e a Rússia têm várias formas de frustrar esta perspectiva, quer destruindo esta opção quer implementando-a esvaziada das ameaças inerentes.

Para incutir esperança neste sentido é o facto de, apesar do niet de Zakharova, os russos se manterem discretos: evidentemente não querem queimar pontes e aguardam esclarecimentos. Ao mesmo tempo, a Casa Branca determinou que uma equipa liderada por Rubio concordasse com Moscovo sobre “garantias de segurança aceitáveis para os ucranianos”, uma fórmula subjacente ao facto de que elas também são aceitáveis para os russos. Tantas possibilidades, como o envio de forças da ONU, Brics ou outros.

Este é, neste momento, o foco em que a negociação em curso está ou recai, enquanto que no que diz respeito ao intercâmbio de territórios, outro nó crucial, está a ser tratado fora do radar. Há muitas hipóteses também sobre o encontro entre Putin e Zelensky pré anunciado por Trump, entre as quais também a que esse encontro se estenda ao presidente dos EUA, que hoje deveria estar presente numa trilateral subsequente. Tanta confusão sobre o assunto, mesmo sobre a possível localização da cimeira, que preferimos esperar antes de escrever sobre o assunto.

Restaria esclarecer a menção desta nota sobre o” transe belicista aparentemente inexplicável de que a liderança europeia é presa”, mas vamos adiar para não nos determos muito.

Restaria esclarecer a menção desta nota sobre o “transe belicista aparentemente inexplicável de que está presa a liderança europeia”, mas vamos adiar para não nos estendermos demasiado.

 

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O autor: Davide Malacaria, jornalista italiano e blogger, escreveu no católico “30giorni” e dirige o sítio Piccole Note de que é fundador. “Trabalhava numa revista, mas já não trabalho. Mas a vontade de olhar para os jornais continuou a ser a de captar lampejos de inteligência e de conforto sobre os assuntos do mundo e da Igreja. E de as comunicar aos outros. Daí a ideia deste pequeno sítio. Uma coisa pobre, sem pretensões, que espero que seja de alguma utilidade para aqueles que partilharem estas páginas comigo. Com o passar do tempo, Piccole note enriqueceu-se com colaborações queridas. Não como resultado de uma procura laboriosa, mas através de uma feliz acumulação espontânea. Uma riqueza para o sítio, mas muito mais para os nossos pobres corações.”

 

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