Em jeito de carta aberta ao Ministro Fernando Alexandre
Um olhar crítico sobre o ensino em Portugal, sobre a Inteligência Artificial (1/2)
por Júlio Marques Mota
Caríssimo Fernando Alexandre, Exmo. senhor Ministro
I Parte – ALGUMAS NOTAS SOBRE O ENSINO SUPERIOR ATUAL
Começo a escrever este texto sem saber bem a quem o dirijo, se ao meu antigo aluno e amigo de outrora, se ao Ministro da Educação de agora.
Na sua maior parte optarei por estar a falar imaginariamente com o meu antigo aluno e, por fim, concluirei este meu texto dirigindo-se ao ministro da Educação que tu és, quando tratar do tema que justifica este texto: a incapacidade do sistema do ensino atual em saber-se defender do ataque à inteligência potencial da juventude do nosso país que é promovido pela utilização massiva das novas tecnologias no ensino, sob o silêncio do ministro de tutela e com a conivência dos nossos reitores (com r minúsculo) e dos nossos diretores de escola (com d minúsculo).
Caro Fernando Alexandre, cruzámo-nos no final dos anos 80, o Fernando como aluno e eu como professor, e poderei dizer, sem querer tirar nenhum dividendo disso, que nos tornámos amigos e, neste contexto, fui teu orientador de tese de mestrado. Por contraponto a Musil direi que estive perante um homem com qualidades, um jovem adulto, um homem sensato, com um forte sentido do real e não do sentido das nuvens que pairavam no imaginário de muitos dos jovens da tua idade, com apetência de saber crítico em economia fora do comum e um nível cultural invulgar pela sua profundidade. Estas eram características que faziam ti, Fernando Alexandre, um aluno quase que de exceção e tanto assim que consegui colocar-te a estagiar numa das mais prestigiadas instituições de economia em França para tomares conhecimento do que em termos de economia se fazia de melhor lá fora. Fi-lo porque entendi que o merecias e fiz o mesmo com o Luís Peres Lopes, este com uma estada em Groningen, com o professor Bart Van d’Ark. Hoje, em que não me considero amigo de nenhum dos dois, por razões que se verão abaixo, como professor faria o mesmo e com as mesmas pessoas no quadro das características estudantis acima enumeradas. Pode isto parecer contraditório com a afirmação anterior, mas sublinhe-se que o meu ditado sempre foi: não me importa o que politicamente os meus estudantes sejam, importa-me, isso sim, é que politicamente sejam alguma coisa e de forma coerente e consistente. Já naquele tempo isso era pedir muito, daí o apareceres como uma rara exceção.
Os anos passaram, muita água correu por debaixo das pontes ou, como se diz, muita gente mudou de rumo e este é o problema da consistência a que aludo acima. Tu foste para Braga, como foi também o Aguiar Conraria, foi pena não terem ficado em Coimbra. Estávamos em plena vaga neoliberal e muita gente foi diretamente captada pelos cânticos neoliberais. Foi o vosso caso. Entretanto chegaste à Administração Passos Coelho, o que me espantou, tendo em conta a tua formação de base, que de modo algum era uma formação de direita e muito menos de direita pura e dura como era a Administração de Passos Coelho, mais perto do Chega que Luís Montenegro e aí, eu, como homem de esquerda que nunca deixei de ser, senti uma repulsa total pelo que essa Administração representava. Do ponto de vista do que aqui me importa senti a necessidade de me distanciar de ti e de tudo a que politicamente estavas associado, a política da Troika. Ir mais longe que a Troika, era a palavra de ordem de Passos Coelho e da sua administração e para isso nem que fosse necessário vender as joias da coroa portuguesa aos chineses, o que foi feito, mas mais do que isso venderam-se décadas do futuro de Portugal. Logicamente não poderia ter nada a ver com essas gentes e distanciei-me, por completo com um texto publicado no nosso blog. Tal como no tempo de Salazar, em que muita gente se vendeu aos dinheiros do fascismo, aqui e agora muita gente se está a vender aos sabores do neoliberalismo através da defesa dos mercados livres e soberanos. Este parece ser o teu caso.
Como assinala Bradford DeLong com as políticas neoliberais praticadas, muita camada de poeiras neoliberais se foi acumulando, em muita gente, camada após camada, obscurecendo-lhes a mente e deturpando a sua visão do mundo real que passam depois ou a ignorar ou a atacar como impróprio. Esta assimilação ao longo de décadas das sucessivas camadas de poeiras neoliberais gerou dois tipos de pessoas que se reclamam da Democracia:
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Pessoas que absorveram as teses neoliberais e passaram a defendê-las de forma ativa ou muitas das vezes de forma implícita. São pessoas situadas politicamente tanto à direita como à esquerda. São a maioria da massa de gente do PSD e de muita gente do PS, são a maioria da classe política em Portugal. Exemplos:
a) No plano político aparentemente situado à esquerda temos António Costa, José Luís Carneiro, Francisco Assis, Fernando Medina, Mário Centeno, Santos Silva pelo PS, a dita esquerda oficial ou do arco do poder.
Fora do plano partidário e neste grupo, como um dos muitos exemplos possíveis, colocaria aqui o antigo diretor da FEUC, Álvaro Garrido, o responsável máximo pelas reformas levadas a cabo na Faculdade onde vivi quase 40 anos.
Ainda neste grupo seria curioso analisar a matriz política das pessoas nomeadas por António Costa para estarem à frente das empresas públicas do Estado, as EPEs, nas duas últimas legislaturas, relativamente à importância do Estado na gestão e no desenvolvimento da Coisa Pública. Seria igualmente curioso saber quais as faculdades de onde são originárias estas pessoas. Note-se que a sucessiva descentralização levada a cabo pelo PS assim como a criação destas empresas e o desenvolvimento dos contratos individuais de trabalho nas empresas públicas têm como objetivo último reduzir o papel do Estado, a relembrar o Clinton dos anos 90: o grande Estado acabou.
b) No plano político à direita, dita democrática, temos então deste lado do xadrez político Poiares Maduro, e este é, na minha opinião, o ideólogo esclarecido do regime atual, Passos Coelho, Luís Montenegro e toda a sua equipa ministerial e nesta estás tu, caro Fernando Alexandre.
Fora do plano partidário e neste grupo situado à direita, temos como exemplos à mão, Tiago Sequeira, Pedro Godinho, ambos catedráticos de aviário da FEUC, mas assimiláveis a muitos outros catedráticos da mesma estirpe a exercerem funções docentes ou políticas neste país.
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Pessoas que absorveram as teses neoliberais e que sem frontalmente as aceitarem ou rejeitarem se acomodaram profissionalmente à prática quotidiana que estas teses implicam. São as chamadas pessoas politicamente cinzentas, mas que acabam por ser, sem o querer ou sem o saber, uma extensão do primeiro grupo de pessoas. Nestas temos incluídas as pessoas que conduziram na prática as sucessivas reformas do ensino, desde o primário ao superior.



