Em jeito de carta aberta ao Ministro Fernando Alexandre Um olhar crítico sobre o ensino em Portugal, sobre a Inteligência Artificial (1/2) – por Júlio Marques Mota

Em jeito de carta aberta ao Ministro Fernando Alexandre
Um olhar crítico sobre o ensino em Portugal, sobre a Inteligência Artificial (1/2)

por Júlio Marques Mota

Caríssimo Fernando Alexandre, Exmo. senhor Ministro

I Parte – ALGUMAS NOTAS SOBRE O ENSINO SUPERIOR ATUAL

Começo a escrever este texto sem saber bem a quem o dirijo, se ao meu antigo aluno e amigo de outrora, se ao Ministro da Educação de agora.

Na sua maior parte optarei por estar a falar imaginariamente com o meu antigo aluno e, por fim, concluirei este meu texto dirigindo-se ao ministro da Educação que tu és, quando tratar do tema que justifica este texto: a incapacidade do sistema do ensino atual em saber-se defender do ataque à inteligência potencial da juventude do nosso país que é promovido pela utilização massiva das novas tecnologias no ensino, sob o silêncio do ministro de tutela e com a conivência dos nossos reitores (com r minúsculo) e dos nossos diretores de escola (com d minúsculo).

Caro Fernando Alexandre, cruzámo-nos no final dos anos 80, o Fernando como aluno e eu como professor, e poderei dizer, sem querer tirar nenhum dividendo disso, que nos tornámos amigos e, neste contexto, fui teu orientador de tese de mestrado. Por contraponto a Musil direi que estive perante um homem com qualidades, um jovem adulto, um homem sensato, com um forte sentido do real e não do sentido das nuvens que pairavam no imaginário de muitos dos jovens da tua idade, com apetência de saber crítico em economia fora do comum e um nível cultural invulgar pela sua profundidade. Estas eram características que faziam ti, Fernando Alexandre, um aluno quase que de exceção e tanto assim que consegui colocar-te a estagiar numa das mais prestigiadas instituições de economia em França para tomares conhecimento do que em termos de economia se fazia de melhor lá fora. Fi-lo porque entendi que o merecias e fiz o mesmo com o Luís Peres Lopes, este com uma estada em Groningen, com o professor Bart Van d’Ark. Hoje, em que não me considero amigo de nenhum dos dois, por razões que se verão abaixo, como professor faria o mesmo e com as mesmas pessoas no quadro das características estudantis acima enumeradas. Pode isto parecer contraditório com a afirmação anterior, mas sublinhe-se que o meu ditado sempre foi: não me importa o que politicamente os meus estudantes sejam, importa-me, isso sim, é que politicamente sejam alguma coisa e de forma coerente e consistente. Já naquele tempo isso era pedir muito, daí o apareceres como uma rara exceção.

Os anos passaram, muita água correu por debaixo das pontes ou, como se diz, muita gente mudou de rumo e este é o problema da consistência a que aludo acima. Tu foste para Braga, como foi também o Aguiar Conraria, foi pena não terem ficado em Coimbra. Estávamos em plena vaga neoliberal e muita gente foi diretamente captada pelos cânticos neoliberais. Foi o vosso caso. Entretanto chegaste à Administração Passos Coelho, o que me espantou, tendo em conta a tua formação de base, que de modo algum era uma formação de direita e muito menos de direita pura e dura como era a Administração de Passos Coelho, mais perto do Chega que Luís Montenegro e aí, eu, como homem de esquerda que nunca deixei de ser, senti uma repulsa total pelo que essa Administração representava. Do ponto de vista do que aqui me importa senti a necessidade de me distanciar de ti e de tudo a que politicamente estavas associado, a política da Troika. Ir mais longe que a Troika, era a palavra de ordem de Passos Coelho e da sua administração e para isso nem que fosse necessário vender as joias da coroa portuguesa aos chineses, o que foi feito, mas mais do que isso venderam-se décadas do futuro de Portugal. Logicamente não poderia ter nada a ver com essas gentes e distanciei-me, por completo com um texto publicado no nosso blog. Tal como no tempo de Salazar, em que muita gente se vendeu aos dinheiros do fascismo, aqui e agora muita gente se está a vender aos sabores do neoliberalismo através da defesa dos mercados livres e soberanos. Este parece ser o teu caso.

Como assinala Bradford DeLong com as políticas neoliberais praticadas, muita camada de poeiras neoliberais se foi acumulando, em muita gente, camada após camada, obscurecendo-lhes a mente e deturpando a sua visão do mundo real que passam depois ou a ignorar ou a atacar como impróprio. Esta assimilação ao longo de décadas das sucessivas camadas de poeiras neoliberais gerou dois tipos de pessoas que se reclamam da Democracia:

  1. Pessoas que absorveram as teses neoliberais e passaram a defendê-las de forma ativa ou muitas das vezes de forma implícita. São pessoas situadas politicamente tanto à direita como à esquerda. São a maioria da massa de gente do PSD e de muita gente do PS, são a maioria da classe política em Portugal. Exemplos:

a) No plano político aparentemente situado à esquerda temos António Costa, José Luís Carneiro, Francisco Assis, Fernando Medina, Mário Centeno, Santos Silva pelo PS, a dita esquerda oficial ou do arco do poder.

Fora do plano partidário e neste grupo, como um dos muitos exemplos possíveis, colocaria aqui o antigo diretor da FEUC, Álvaro Garrido, o responsável máximo pelas reformas levadas a cabo na Faculdade onde vivi quase 40 anos.

Ainda neste grupo seria curioso analisar a matriz política das pessoas nomeadas por António Costa para estarem à frente das empresas públicas do Estado, as EPEs, nas duas últimas legislaturas, relativamente à importância do Estado na gestão e no desenvolvimento da Coisa Pública. Seria igualmente curioso saber quais as faculdades de onde são originárias estas pessoas. Note-se que a sucessiva descentralização levada a cabo pelo PS assim como a criação destas empresas e o desenvolvimento dos contratos individuais de trabalho nas empresas públicas têm como objetivo último reduzir o papel do Estado, a relembrar o Clinton dos anos 90: o grande Estado acabou.

b) No plano político à direita, dita democrática, temos então deste lado do xadrez político Poiares Maduro, e este é, na minha opinião, o ideólogo esclarecido do regime atual, Passos Coelho, Luís Montenegro e toda a sua equipa ministerial e nesta estás tu, caro Fernando Alexandre.

Fora do plano partidário e neste grupo situado à direita, temos como exemplos à mão, Tiago Sequeira, Pedro Godinho, ambos catedráticos de aviário da FEUC, mas assimiláveis a muitos outros catedráticos da mesma estirpe a exercerem funções docentes ou políticas neste país.

  1. Pessoas que absorveram as teses neoliberais e que sem frontalmente as aceitarem ou rejeitarem se acomodaram profissionalmente à prática quotidiana que estas teses implicam. São as chamadas pessoas politicamente cinzentas, mas que acabam por ser, sem o querer ou sem o saber, uma extensão do primeiro grupo de pessoas. Nestas temos incluídas as pessoas que conduziram na prática as sucessivas reformas do ensino, desde o primário ao superior.

E neste grupo sublinharia aqui o atual diretor da FEUC, o homem que assumiu como função não beliscar a reforma que o seu antecessor estabeleceu. É preciso estar em conformidade com a realidade herdada, não com a necessidade da sua mudança, parece ser o seu lema.

Muito recentemente um dos eleitos deste país e autarca numa das cidades importantes desta nossa terra explicou-me uma característica comum a muita das gentes que compõem o primeiro grupo: chega-se ao exercício do poder político por se saber defender as causas comuns, mantem-se nesse exercício do poder político se se souber, depois, defender não as causas comuns, mas sim as causas privadas, as nossas, foi o que me disse. E acrescentou: se assim não for é a nomenclatura do sistema que nos elimina a nós.

É esta viragem que sustenta os “animais” políticos de hoje. Pode parecer estranho, mas isto é o que se passa no nosso dia a dia profissional: quando se é muito competente, a escapar à mediania, caem sobre nós todos os outros que o não são à procura da mínima falha para nos imporem a regra do comportamento comum. Foi assim comigo durante anos na FEUC, o que relatei no texto em que falo sobre o que foram as minhas circunstâncias de vida, é assim ainda hoje em qualquer sítio onde se tenha perdido a noção de trabalhador coletivo, e essa perda hoje está generalizada. Para qualquer lado onde a gente se vire, é o que se começa a sentir à medida que as velhas gerações e os poucos resistentes vão sendo abatidos no ativo ou transferidos

Como cidadão percebi que no teu caso as qualidades de outrora acima referidas estariam a ser abafadas pela argamassa criada com essas poeiras neoliberais às quais se misturou um óleo viscoso e perigoso produzido pela ânsia de poder, formando-se assim uma massa compacta, que te coloca num mundo imaginário, num mundo de Pangloss que não tem nada a ver com a classe social a que pertenço e de onde também és originário, que não tem nada a ver com os interesses e os sonhos desta última, sonhos desfeitos e pisados pelas políticas do sistema que agora defendes e que já se começa a assimilar ao Chega[i]. Esta passagem do mundo em que te situavas enquanto estudante para o mundo da direita conservadora em que aparentemente te situas hoje, é a questão da coerência a que me referia acima e que me levou a distanciar-me da tua pessoa. Uma questão aqui de coerência tanto do ponto de vista pessoal como do ponto de vista político, de classe social!

 O falecido Nuno Portas disse-me um dia, por volta de 1975, num serão em que discutimos a realidade política portuguesa com um dos filósofos mais influentes daquele tempo, Henri Lefebvre, que era inimaginável a sensação de orgasmo que o poder confere a quem o tem em mãos. É viciante e, por isso, acrescentou ele, é que o poder é tão desejado e por tanta gente, sempre disposta a tudo para o obter e conservar. O Nuno Portas queria com esta curta frase dizer muita coisa, como também o quis dizer João Abel Manta com o seu quadro os vira-casacas. Acrescentou ainda uma forte pitada de humor no decorrer da discussão naquela noite: que o nosso destino era selado com o nome do batismo. Vejam só: o meu nome é Portas, logo só podia ser arquiteto. O paisagista Ribeiro Teles só podia ser o que é, está associado a ribeiros a paisagens verdejantes. Rimo-nos.

Enfim, devido ao teu trajeto político distanciámo-nos, nada a dizer, nada a lamentar, mas não deixo de recordar aqui uma afirmação de João Cravinho relativo a alguém que era um colega seu de trabalho no GEBEI: é pena que sendo tecnicamente tão bom seja uma pessoa de direita ou que sendo uma pessoa de direita seja ele tecnicamente tão bom. Será este também o caso? Cada vez estou mais inclinado a dizer que é este também o caso.

Quanto às pessoas do segundo grupo, grosso modo, as pessoas politicamente cinzentas por educação ou por comodismo de situação, pessoas que se assumem como não sendo nem de esquerda nem de direita e que, por isso mesmo se colam ao sistema em vigor e fazem o que este pretende, tomemos dois exemplos desta sintonia com o sistema em vigor, o neoliberalismo puro e duro, exemplos estes ligados à nova reforma da FEUC, aos seus planos de cursos, às pessoas que o certificaram, às pessoas que o aprovaram.

Dê-se uma olhadela pelo plano de curso:

Tem como disciplinas obrigatórias de Economia: um semestre de História Económica, dois semestres de Introdução à Economia, um semestre de Macroeconomia, um semestre de Microeconomia, um semestre de Economia Industrial, um semestre de Economia do Crescimento e Desenvolvimento, um semestre de Economia e Finanças Públicas, um semestre de Economia Monetária e um semestre de Economia Internacional – Ao todo 10 semestres de Economia como disciplinas obrigatórias. Depois acrescentam-se as opções de economia no terceiro ano: duas opções semestrais. Teremos doze disciplinas de economia no total, ou seja, apenas 72 créditos de 180 de formação especifica em economia. Nestas duas opões podem nem sequer constar as disciplinas de Política Económica e de História do Pensamento Económico. Inacreditável!

A pergunta então a fazer é a seguinte: como é possível que um curso destes, em que nem as matemáticas gerais escaparam aos cortes, estas passaram de quatro semestres a dois semestres, tenha sido aprovado, aprovado pela A3EsE, aprovado pelos especialistas ditos independentes, aprovado pelo Conselho Científico da FEUC? Tantos catedráticos, de aviário ou não, a aprovarem a brutal simplificação do curso. Como? Quanto aos especialistas independentes, cujo mérito está fora de questão, e a explicação quanto a esta avaliação, para mim, está nas múltiplas camadas de poeiras neoliberais que foram absorvendo e que lhes foi minando a capacidade crítica enquanto lhes ia aumentando a sua inserção dentro do sistema com as vantagens que esse comportamento lhes acarreta. E o resultado é este, a aprovação de uma licenciatura em economia que mais parece um curso de economia para principiantes!

Olhemos para a disciplina História do Pensamento Económico, colocada como disciplina de opção e com uma carga horária de 3 horas. Um licenciado em economia pode apresentar um diploma de licenciado em Economia sem sequer saber quem foi Adam Smith, Ricardo ou Marx. Mas podemos ir mais longe, mesmo que passe na disciplina com esta carga horária mínima pouco aprenderá de jeito tanto por falta de espaço de lecionação, o tempo não é elástico, como ainda por falta de apetência cultural ou de conhecimentos de base para perceber algumas matérias mais complexas.

Curiosamente acabo de ler um extenso trabalho escrito por dois Prémio Nobel, Daron Acemoglu e Simon Johnson, intitulado Aprender com Ricardo e Tonso: Maquinaria e Trabalho na Primeira Revolução Industrial e na Era da Inteligência Artificial (original aqui) em que os autores mostram que para perceber os efeitos que o tsunami social que a Inteligência Artificial generativa irá atingir as sociedades à escala mundial é bem conveniente voltar a Ricardo e às suas posições divergentes quanto aos efeitos da automação assumidas em 1817 e em 1821 na primeira e na terceira edição dos Princípios, Regressar a Ricardo para perceber o que nos espera no plano económico e social num futuro já muito próximo como tsunami não deixa de ser curioso e isto é escrito pela mão de dois prémios Nobel. Nada disto é pensável num curso de Economia como o que foi elaborado pelos catedráticos de aviário doutorados em Economia, reinantes na FEUC, e depois aprovado pelo Conselho Científico na FEUC. Sinceramente lamento muito que os conhecimentos a lecionar sobre Ricardo não possam passar para além de ideias gerais e lecionadas de forma superficial. Por melhor que seja o futuro professor, presumo que venha a ser o João Rodrigues, um professor de exceção para esta disciplina, milagres é coisa que não há, é coisa que ele não poderá fazer.

Mas não é só por isso que é impossível. Admitamos que a disciplina tem a carga horária normal, de 4 horas. Note-se que é uma cadeira de opção e como cadeira de opção concorre com outras cadeiras de opção para captar alunos. Se a disciplina se torna pesada em carga letiva ou em exigência é certo e sabido que não terá alunos a escolherem-na e, como tal, deixa de ser justificável a sua existência. Isto já aconteceu, daí que se possa perguntar: porque é que não poderá acontecer de novo se os mandarins são os mesmos ou piores ainda?

Num trabalho recente de investigação sobre o problema da crise universitária e da fragmentação que a IA está a provocar pode-se ler:

“Outros professores fizeram afirmações semelhantes:

Eu defini as tarefas, as nossas tarefas não mudaram muito. Suponho que nós obscurecemos o problema, sabem, ignoramo-lo de alguma maneira, porque isso me parece ser, essa é também a política da universidade neste momento: se não falarmos sobre isso, vamos fingir que nada está a acontecer e apenas iremos lidar com cada caso individualmente, se surgir alguma questão de integridade académica.”

Alguns estudantes pareciam cientes desse desafio, afirmando, por exemplo, que:

“Acho que é muito difícil construir uma avaliação, a menos que se esteja fisicamente com os alunos na sala de aula, para que se veja, digamos, o que é que eles estão a fazer. É muito difícil monitorizar, porque, sabe, o objetivo da IA generativa é justamente fazer tudo.”

Para outros professores, no entanto, a falta de confiança na avaliação vinha da insegurança em relação à compreensão das capacidades da tecnologia: espero ainda estar à frente nesse aspeto, mas quem sabe? Quem sabe? O mesmo professor discutiu possíveis alternativas, mas considerou-as insatisfatórias: algumas pessoas sugeriram que eu fizesse exames orais. Bem, se eu fizesse isso, simplesmente, não teria nenhum aluno se fosse incluído como obrigatório o exame oral nas nossas provas, e então…” Fim de citação

Para além da carga horária mínima a que nos referimos, o professor universitário citado é claro quanto a um outro problema das disciplinas optativas: O grau de exigência é um limite para captar alunos nas disciplinas de opção e a consequência é: se se quer alunos para se manter a lecionar a disciplina de opção que lhe foi atribuída o professor tem de concorrer com os seus colegas das restantes disciplinas de opção ao facilitismo. E estas disciplinas de opção são muitas no curso lecionado na FEUC. Mais precisamente são sete disciplinas e se a estas somarmos as disciplinas feitas de nada e para nada, ou seja, as disciplinas de Responsabilidade ética e sustentabilidade, Projeto Integrador e FEUC Skills, a valerem 24 créditos, teremos um total de optativas ou equivalente em carga de esforço que valem 66 créditos num total de 180! E digam-me então que a Nova Reforma não é um convite ou mesmo uma ode ao facilitismo. Que os nossos mandarins universitários tenham sempre desprezado esta realidade, isso mostra-nos bem que não é para a qualidade de ensino que estão virados, mas sim para a sua carreira, para os seus títulos, ou para as outras coisas, como disse o catedrático Tiago Sequeira na Assembleia da República.

Escolhi falar da disciplina de História do Pensamento Económico e não de outra qualquer porque esta tem todos os condimentos para se perceber o drama geral da situação universitário de hoje, a agravar, e muito, o amanhã quando as ferramentas da Inteligência Artificial forem massificadas no espaço das práticas tanto dos estudantes como dos docentes.

Ora, numa disciplina deste tipo, exige-se culturalmente muito à entrada e estamos a falar de jovens na casa dos 19 a 20 anos. Há que contextualizar o que nos dizem os autores tomados como de referência, há que contextualizar a realidade vivida no tempo desses autores, há que procurar as múltiplas ligações entre eles e há que transpor para o presente muito do que disseram e como o disseram, é isso que fazem os dois Prémio Nobel citados com Ricardo e com a situação que se irá desenrolar num futuro já muito próximo. Mas culturalmente o problema não é só nosso, é internacional, é civilizacional, e deriva também do modelo de ensino que assenta no primado dos ratings, tanto para professores como para estudantes, sem que estes ratings estejam assentes no primado do conhecimento apreendido. Culturalmente, o universo universitário é hoje um problema, uma pobreza, o campus está de forma crescente a ser ocupado por cretinos digitais. E o problema não se centra no digital, que por si só é um elemento fundamental da modernidade, mas no modo como esse digital se torna num adjuvante para a estupidificação e para o facilitismo, ou como substituto do que não pode nem deve substituir: o pensamento livre e crítico.

Poupando-me nesta matéria, deixo aqui uma referência do que se passa numa das melhores universidades do mundo, Berkeley, a partir de dois pares de olhos, o de Robert Reich e o de Bradford DeLong. Num texto a publicar proximamente e ligado à problemática da Inteligência Artificial, intitulado Grandes livros sérios podem realmente ser seus amigos intelectuais.

Mas, como Robert Reich e eu nos queixávamos no café da manhã no Saul’s Deli (que, agora que ele, como emérito, perdeu o seu escritório na Goldman Public-Policy School parece estar a ser utilizado como o seu gabinete), há algumas semanas atrás, de que há cada vez menos alunos a terem uma educação que lhes proporcione a experiência de campo de formação necessária para que se se possam acostumar a essa interação alucinatória entre fantasia literária e intelectual. John Zysman diz que para ele isso realmente fez sentido no segundo ano, com Barrington Moore a interpretar o papel de Louis Gossett Jr.: “Este ano, vocês vão aprender três coisas: a ler, a escrever e a pensar!”

No meu arquivo de recortes de vinte anos atrás, há um lamento-desabafo sobre a Noite escura da alma de um universitário escrito por um Humanista:

Agora, estou a tentar descobrir uma maneira, seja como for, para conseguir escrever um artigo sobre a utilização de Kierkegaard por Žižek, para que eu possa enviá-lo e as pessoas o publiquem, para que eu possa escrever num pedaço de papel que ele foi publicado. Eu compreendo as regras do jogo universitário; a este nível trata-se sobretudo de construir um currículo suficiente para que as pessoas acreditem que sou bom neste domínio… [Mas] dissecar mais um texto para produzir um texto meu que esteja em conformidade com os cânones do profissionalismo do meio universitário em certos círculos do discurso “filosófico” e “teológico” não me parece ser nenhuma espécie de resposta — não me parece que ajudaria em nada, absolutamente nada, nem um pouquinho sequer. Nem quando estou a tentar descobrir uma maneira de andar pela rua, de estar com as pessoas, de fazer o que é certo por elas, de sentir algum tipo de paz interior… Mesmo que eu “tivesse conseguido”, eu ainda sentiria que preciso constantemente de provar a mim mesmo… Porque eu não sentiria que mereço, porque não existe merecimento — não há maneira disponível de o determinar. E então, prove a si mesmo — para nada, para ninguém, vezes sem fim…

E naquela época eu escrevi uma resposta:

Parece que o Humanista está a passar por uma dessas tardes sombrias e nubladas da alma que acontecem quando cada um de nós se empenha ao máximo você se dedica ao máximo.

Então deixem-me ser um tio holandês chato e dizer-lhe o que ele já sabe:

Dê um passo atrás. Veja bem, quando pensa no que está a fazer com o “dissecar mais um texto para produzir um texto que se ajuste aos cânones do profissionalismo dentro de certos círculos do discurso ‘filosófico’ e ‘teológico'”, então fica vítima da escrita que mata, enquanto é o espírito que vivifica.

Deixem-me pegar os quatro primeiros “textos” da prateleira da minha estante que me está mais próxima: Garry Wills, Nixon Agonistes (um livro incrivelmente denso e incrivelmente reflexivo que preciso muito de reler, pois sempre que o leio, sinto que estou a receber detalhes maravilhosos que me estavam a escapar); Laurence Meyer, A Term at the Fed (as suas memórias dos seus dias como governador do Federal Reserve; nós o escolhemos para o trabalho como alguém que poderia ser uma ponte entre os altos formuladores de políticas e os analistas e construtores de modelos; eu acho — e o livro di-lo — que ele fez esse trabalho muito bem); o excelente Selling Women Short: The Landmark Battle for Workers’ Rights at Wal-Mart, de Liza Featherstone; e Innovation and Its Discontents, de Adam Jaffe e Josh Lerner (nem quero acreditar que ainda não tenha lido isto! Preciso de os ler, e urgentemente).

Enquanto eu penso neles como “textos”, eles são para mim textos secos e chatos.

Mas há um segredo para torná-los interessantes: lembrar que eles não são textos: são pessoas — pessoas a tentar falar comigo com urgência, para me dizerem algo muito importante que elas acham que eu preciso desesperadamente de saber[ii].” Fim de citação.

A concluir esta primeira parte, voltemos ainda à questão das pessoas que por diversas razões se assumem como neutras, nem de esquerda nem de direita, como se isto fosse possível. Votaram aquele triste plano de curso, uma ferramenta muito útil no processo de cretinização do ensino superior. Será que o votaram, à boa maneira de Hegel, porque saberiam que este iria ser certificado, ratificado numa outra instância internacional privada? Talvez, mas isto levanta uma questão mais séria: será que um curso de uma Universidade pública e aprovado por uma instância governamental também ela publica a A3Es precisa de ser validado por uma empresa privada internacional para ser credível[iii]? Em que mundo estamos nós? Qual é a ideia que se quer dar do Estado enquanto Estado com práticas deste tipo?

A certificação faz-me recordar dois acontecimentos curiosos.

a) Numa cidade deste país, cheia de calçadas à portuguesa em estado avançado de degradação, um empresário da cidade cansado de ver gente cair nos buracos da calçada decidiu escreveu à Câmara da cidade, mostrando-se pronto para reparar a respetiva calçada da sua rua. escreve aos serviços camarários a solicitar informação sobre que licenças seria necessário obter dos serviços camarários para ele poder mandar reparar a calçada. Cansou-se de esperar e voltou a solicitar o mesmo pedido. Voltou a ficar cansado de esperar. Pediu à sua secretária para ir à Câmara. Esta foi e disseram-lhe que era necessário apresentar documentação de certificação de quem queriam que reparasse a referida calçada.

O empresário em questão irritou-se com o requisito necessário para a Câmara despachar o seu pedido e mandou reparar a calçada. Pagou o serviço a um calceteiro de classe e informou a Câmara de que a obra estava feita. Não houve nenhum despacho da Câmara, mas sim uma informação oral de que a Câmara chegou a considerar a hipótese de o penalizar por ausência do referido certificado de calceteiro. Voz amiga tê-lo-á informado que o processo morre na gaveta, mas só porque estamos perto das eleições autárquicas.

Imagem de uma calçada depois de restaurada três meses antes desta fotografia ter sido obtida e foi restaurada por empresa certificada:

Veja, agora na foto abaixo, uma parte da mesma a calçada em zona não reparada e que terá sido feita por calceteiros não certificados e há já muito tempo:

Enfim, a certificação no primeiro caso, a especialização no segundo.

b) Recordo aqui o caso da crise dita de subprimes: havia certificações para tudo e o resultado foi o que se viu. Nos inquéritos levantados pelas autoridades americanas descobriram-se emails entre os operadores da certificação do género: aqui até a bosta de boi se certifica com 3 A!

Os dois exemplos mostram, pois, o que no limite pode ser a certificação: tudo e nada. Porque não pensar o mesmo com a certificação dos cursos superiores? O exemplo da FEUC não representa isso mesmo? Penso que sim.

II PARTE. Ligação entre dois acontecimentos espaçados no tempo

Mas para além dos aspetos culturais envolvidos em disciplinas do tipo de História do Pensamento Económico, é-se obrigado a pensar no estado mental da nossa juventude, desde há muito tempo a que está ligada a fraca apetência por tudo o que é cultura. Meu caro, tens falado muito nisso e eu também. Esta é uma situação que vem desde há muito tempo, mas que foi acelerada pós-Covid e para a qual ninguém quis ligar, seja-se do PSD ou do PS. Sobre este tema voltaremos ainda a falar neste texto. Relembro aqui a entrevista dada ao jornal Público por Dino Baldi, onde se lê:

“A pandemia acelerou uma tendência que já estava inscrita na história da nova geração: solidão, distanciamento social, medo do corpo do outro. Esta é a transformação antropológica e psicológica que tornou a solidariedade impossível.

Quando saímos da pandemia, descobrimos que a nossa solidão era definitiva. A solidão é a característica determinante da vida da geração digital. Tenho trabalhado particularmente com jovens, estudantes, militantes, pessoas que falam comigo por razões psicanalíticas, e o que descubro é que, para eles, a solidão é o seu futuro. Não há nada que permita imaginar solidariedade no futuro. (…)

No entanto, nos últimos anos, assistimos a alguns movimentos de reação. Vimos, por exemplo, jovens a aderirem aos “sabbaths digitais”, um dia semanal com pouco ou nenhum uso de tecnologia digital. E objetos como a série Adolescência e o livro A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt, provocaram grandes debates. Há uma maior consciência dos efeitos da tecnologia nas vidas, incluindo dos mais jovens? Sim, mas é tarde de mais. A questão é que nenhuma campanha cultural, nenhuma terapia psicológica pode mudar a programação básica da mente. A geração que aprendeu mais palavras com uma máquina do que com a mãe não pode ser “reeducada”, não pode ser “curada”. Não se pode ajudar um adolescente a sair da prisão digital porque é o único mundo que conhece, porque a sua mente foi formatada de acordo com esse tipo de estímulo, de acordo com esse paradigma. Não creio que haja um caminho de volta do inferno digital.” Fim de citação.

Em suma, temos pela frente uma Universidade em que os professores vivem para a obrigação não de ensinar mas sim de escrever artigos, não porque sintam que têm algo de útil a dizer, mas porque precisam de preencher várias linhas do seu curriculum, e em que se tem pela frente uma juventude inculta, como assinala Brad DeLong, politicamente desmotivada, mentalmente desorientada, como nos assinala Baldi, e em que o comodismo assentou arraiais sobretudo quando se tem planos de cursos totalmente disfuncionais. Não há conhecimento sem sofrimento, terá dito Hegel, não há conhecimento sem fricção, dizem-nos os pedagogos sérios de hoje, enfim, esta é uma visão que a Inteligência Artificial irá rejeitar quando entrar em massa nas nossas Universidades e, pasme-se, pela mão dos nossos reitores e dos nossos diretores de faculdade, em que tudo se reduz à necessidade de utilizar apenas caracteres minúsculos para caracterizar estas funções.

Este é o pano de fundo em que vais trabalhar como ministro da Educação em que há tanta coisa a mudar e da qual não se houve sequer falar. Fala-se apenas da reorganização do sistema geral do ensino e fica-se com a ideia de que é para satisfazer os apetites da extrema-direita, seja ela do CDS seja ela do Chega. Terás tu então a coragem de mudar o sistema, mas no sentido em que tenho estado a referir? Não o creio, mas olhemos então sobre o que penso quanto a esta última hipótese.

Sinais de Mudança- onde estão?

Caro Alexandre, distanciados depois de entrares para um Governo da Troika, reencontrámo-nos depois no jantar de despedida de Sousa Andrade. Vale a pena relembrar esse dia por dois ou três detalhes que que se verificaram nesse dia.

O primeiro deles tem a ver com a última aula de Sousa Andrade. Sinceramente, incomodou-me que as suas últimas palavras tenham tido como suporte o termo ódio. Não se entende. Revi a sua intervenção no You Tube para confirmar se tinha ou não ouvido bem. Tinha ouvido bem. Telefonei-lhe e diz-me que não se lembrava. Um detalhe chocante.

Mas mais chocante ainda é que os mandarins em potência, em ascensão, Luís Cruz, Eduardo Barata e Carlos Carreira se tenham colocado no You Tube com igual manifestação de ódio. Duas gerações, uma de saída, a sair com sinais de desagrado, outra a querer entrar e a manifestar iguais sinais de desagrado. Estes dois factos marcam, pois, a nova realidade: o sentimento de que as Instituições Universitárias deixam de ser a expressão coletiva daqueles que nela trabalham para passarem a ser a expressão individual dos que nela trabalham. É isso o que se vê hoje e tudo isto porque a principal determinante para esta situação de ódio hoje generalizada foi a disputa entre todos eles sobre lugares acima na carreira docente. O sinal de partida foi a aprovação para o cargo de professor associado de José Fuinhas num concurso internacional e aberto, contra os mandarins em ascensão acima citados. O José Fuinhas era professor na Covilhã, ganha o concurso para ocupar o lugar de professor associado na FEUC contra os nomes citados que exerciam funções na FEUC como professores auxiliares e dispara-se a situação de ódio na Instituição, situação esta que ainda se mantém, talvez ainda mais agravada devido aos diversos concursos internos que se seguiram. Que se pode, então, esperar de Instituições a viverem assim?

Mas nesse jantar tive a alegria de me encontrar com uma antiga aluna minha, de décadas atrás, creio que de nome Anabela e que terá estado à frente da bolsa de valores da antiga Lourenço Marques, hoje Maputo. Há aqui uma curta história a contar e que tem a ver com o que se falou sobre a fricção no conhecimento. Enquanto minha aluna, ela e uma amiga, sentavam-se sempre nas duas cadeiras na primeira fila à minha direita. Era sempre assim. Estranhei. Eu tinha o hábito de em plena aula teórica interromper a exposição e com questões do tipo: que quis eu dizer com a frase X ou enganei-me com o que escrevi no quadro, é capaz de me dizer onde? Ao questionar a sala, apontava para o aluno A, B ou C. Passei a dirigir as perguntas para estas duas alunas, primeiramente perguntas simples, e fui aumentando a complexidade das perguntas. Foi rara a vez em que não recebia a resposta correta. Isso dava-me alguma felicidade. No final do ano letivo, em julho, quando me dirigia ao meu gabinete com o Luís Lopes (Luís Lopes ou Luís Peres? Ou então, escreves sempre Luís Peres Lopes), eis que tinha as duas alunas referidas à minha espera e pedem-me para falar comigo. Entrem, foi a resposta. As raparigas irradiavam uma felicidade imensa. Dizem-me, professor, viemos aqui agradecer-lhe o que fez por nós. O que fiz por vocês? Não percebo. Esta foi a minha reação. Fez, fez e acrescentaram: este ano passamos a tudo na primeira época e com boas notas. Continuei a olhar para elas, calado tanto eu como o Luís Peres. Continuo a não entender, disse eu. Explicaram-me; fazia-nos perguntas, começámos a saber responder, motivámo-nos, passámos a estudar a aula antes de esta ser dada e passámos a aguentar a intensidade das suas aulas teóricas de hora e meia. Deu-nos capacidade de trabalho, deu-nos capacidade de concentração e o resultado foi o de passarmos a tudo. Mais tarde, uma delas, a Anabela veio a Portugal e trouxe-me uma prenda: uma estatueta, em pau-preto, O Pensador!

Este exemplo seria impossível hoje, quer pela ausência de motivação como era a destas duas alunas, quer pela ausência de professores que tenham hoje o cuidado que eu tive com estas duas alunas. Ironia desta situação; elas preparavam antecipadamente as aulas que iriam ter e eu preparava antecipadamente as perguntas que lhes ia fazer. O mais importante desta história é que a sucessiva fricção que o estudo lhes provocava levou-as a aumentar a sua capacidade de trabalho e de concentração. Nesse ano passaram a tudo!

Um segundo exemplo, igualmente curioso. Tínhamos um aluno de origem guineense. Foi à oral, o que significa uma nota na prova escrita entre 7,5 e 9 valores. O seu assistente das aulas práticas diz-me, este é um aluno muito bom, pode puxá-lo à vontade. Assim foi e tal como fazia normalmente fui subindo o nível de perguntas. A oral foi um espanto. Dei-lhe a máxima dada numa oral e perguntei-lhe: dado o elevado nível mostrado nesta oral como é que me explica uma nota tão baixa na prova escrita? A resposta foi um espanto: estive internado no Hospital, saí de lá ontem! Olhei para ele, sustive a respiração por segundos, e depois disse-lhe: terei muito gosto em pagar-lhe para o ano todos os textos e livros que pretenda comprar no sentido de se manter a este nível para o final da licenciatura. Aceito, foi a resposta e bem sentida no tom de voz.

Paguei os textos editados na FEUC e paguei todos os livros que ele considerou como necessários para concluir a sua licenciatura. A dona Maria José Portugal da secção de textos confirma isto. Anos depois, numa infeliz tarde em que se discutiu a tese de mestrado de um docente da casa, hoje um catedrático de aviário na FEUC, finda a discussão cerrada sobre a nota a atribuir, a arguente da tese, a Maria Paula Fontoura, diz-me o seguinte: temos no mestrado do ISEG um aluno que se formou aqui. Disse-lhe: aqui era muito bom. E aí? A resposta foi simples: é o melhor aluno do mestrado. Contei-lhe a história da “bolsa” que lhe paguei e rimo-nos sobre o dinheiro bem empregue.

Mas por detrás desta história do aluno guineense há uma outra história, acontecida comigo nos anos de 65 no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa. Ia fazer oral de Filosofia. Tinha estudado como autodidata na minha terra em Fratel, por estar em recuperação clinica de uma situação de tuberculose. Na sala chegou a minha vez. Sentei-me. À minha frente estava um júri composto por um professor de filosofia e duas outras professoras da mesma área, creio eu, pois também fizeram perguntas. A minha prova estava em grande parte sublinhada a vermelho e com notas à margem, também a vermelho. E as perguntas incidiram sobre as minhas respostas na prova que estavam assinaladas a vermelho. Depois da última pergunta-resposta perguntam-me o que é que o senhor faz? Respondi: sou operário fabril, neste momento estou em recuperação de uma situação de tuberculose, a viver na casa dos meus pais, na minha aldeia. A sala estava cheia de alunos a “treinarem-se para as orais e “ouve-se” um silêncio brutal em toda a sala, depois da minha resposta, como se toda a gente tivesse mesmo sustido a sua respiração.

Terminada a oral, os professores levantam-se e dirigem-se a mim, felicitando-me. Um deles oferece-me a caneta que tinha, um outro o livro que estava a ler e a terceira pessoa oferece-me a revista que estava a ler, para eu não me esquecer daquele exame. Lembranças que perdi depois, ainda não tinha a cultura que conferia sentido à memória das coisas passadas. Vivia naquele tempo sob o império da necessidade. Agradeço aos professores e saio da sala.

Saio da sala e comigo sai toda a gente a dar-me abraços e beijos. Uma coisa não esqueci, os abraços e beijos daqueles rapazes e raparigas ao tuberculoso que eu talvez ainda fosse. Não sei. Senti-os ainda na cara e nos ombros até ao descer a Avenida Pedro Álvares Cabral (onde se localiza o liceu) em direção ao Rato. É difícil explicar isto. Curiosamente, dois dias depois acontece um “milagre”. Numa delegação do banco Totta & Açores, quase em frente à Portugália, na Avenida Almirante Reis, dois clientes encontram-se ao balcão do banco e comentam o que as suas filhas lhes contaram: a oral estranha de um tipo operário que tinha tido tuberculose. Cada um deles diz que gostava de ajudar o rapaz, mas não sabiam quem era. O caixa do Banco, Victor Coelho Martins, pede licença para se meter na conversa e diz; pelo que estão a dizer, eu conheço o rapaz, é da minha terra. Acordaram em darem-me mensalmente 100 escudos cada um com a obrigação do caixa nunca revelar quem os dava. Durante uns tempos largos, todos os meses ia à Almirante Reis levantar os duzentos escudos. Depois disse que já não precisava e agradeci.

Curiosamente esta história é aqui colocada por duas razões: por um lado fala-nos do empenho dos professores que me fizeram a oral naquilo que faziam, nos “objetos” intelectuais que ajudavam a construir, as nossas mentes, por outro lado e mais importante que tudo isso, o que se passou na oral com o aluno guineense vindo do hospital não é a réplica do que se passou na sala do Pedro Nunes? A História repete-se, será aqui o caso? Talvez, mas não no sentido de Marx, mas no sentido de Hegel, em que a repetição surge e é interpretada como ratificação (confirmação, aceitação) do acontecimento primeiro. Claro que é uma réplica, mas isso significa que as marcas da nossa formação de base nunca desaparecem e, portanto, as tuas marcas, as enraizadas no teu tempo de estudante na FEUC, estarão lá, na tua cabeça, intactas, cobertas pela referida argamassa a que me referi na primeira parte do presente texto. É uma questão de haver coragem ou não para a quebrar, mas disso falaremos quando falarmos da relação complexa existente entre ensino e inteligência artificial.

Aqui, no contexto destas duas orais, sublinhemos apenas uma dada realidade: o empenho dos professores que me fizeram a oral e o grande mérito desta parte deve-se-lhe a eles, como algum mérito terá havido da minha parte e do Luís Peres Lopes, meu assistente, na oral que conduzimos com o guineense. Mas aqui, caro Fernando Alexandre, temos de reconhecer que professores destes há cada vez menos e os que há são normalmente martirizados por aqueles para quem ensinar nunca foi nem é espírito de missão, para quem ensinar é apenas um meio para subir na carreira. Mas os primeiros, os que salvaguardam o espírito de missão, são cada vez mais necessários se queremos responder aos enormes e complexos desafios que nos coloca a prática da utilização em massa da Inteligência Artificial. Falaremos disso na terceira parte desta carta aberta.

NOTAS

[i] Dois exemplos dessa política quase de extrema-direita: 1) o trumpismo disfarçado que representa o desmantelamento na urgência da estrutura de apoio à investigação, a FCT, e a submissão da investigação cientifica aos ditames do mercado; 2) o pacote de revisão das leis laborais onde é claro o aumento da precariedade para quem trabalha por conta de outrem. Neste pacote, como assinala a jornalista Helena Pereira, saliente-se a diabolização da licença de amamentação como se “ao propor esta alteração, sem um debate aprofundado sobre os incentivos do Estado à natalidade, o Governo assumiu-se como inquisidor das mães, acusando-as de ludibriar os patrões ou de estar a “fazer ronha” “Isto, pela parte da ministra Maria do Rosário Palma Ramalho e do primeiro-ministro, mais parece ódio às mães do que outra coisa.
[ii] Tenha-se em conta a visão que nos dá Bradford DeLong do que é a prática do professor universitário atual: publicar, publicar para fazer linhas de curriculum e não porque sinta a necessidade de dizer alguma coisa de válido.
[iii] Veja-se a diferença. Anteriormente tínhamos a Comissão de Avaliação das Universidades Públicas que aconselhava as Universidades a melhorarem a sua qualidade de ensino quando era caso disso, e agora temos empresas privadas de certificação das Universidades. Tenho saudades dos tempos das Comissões de Avaliação e do trabalho sério por elas desenvolvido.

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