Seleção e tradução de Francisco Tavares
4 min de leitura
Zelensky reduz as reivindicações. Mas, à noite, chega o ataque a Sochi
Publicado por
em 9 de Setembro de 2025 (original aqui)
Na entrevista de 6 de setembro à ABC news, Zelensky redefiniu os termos da vitória do seu país; “O objetivo de Putin é ocupar a Ucrânia, ele quer, é claro, ocupá-la completamente. Esta é a vitória para ele. E desde que ele não o consiga, a vitória estará do nosso lado. É por isso que para nós sobreviver é uma vitória. Enquanto sobrevivermos com a nossa identidade, com o nosso país, com a nossa independência”.
Dado que a Rússia não tem interesse em conquistar toda a Ucrânia, uma vez que controlá-la a sangraria (ataques e muito mais), a posição de Zelensky é um claro recuo das reivindicações anteriores: nenhuma referência à reconquista dos territórios perdidos, nem um indício dos outros objetivos irrealistas enunciados até agora, como a exigência de danos de guerra à Rússia e fantasmagorias semelhantes.
Um baixar de bandeira depois de tão histérica, como irrealista, prosopopeia. Agora que tomou consciência da derrota, resta apenas compreender quando e como se fará a paz. A razão deve fazer com que ele acelere o tempo, já que as pessoas morrem todos os dias, mas a racionalidade já não vive em Kiev há muito tempo. E há sempre o risco de que, se ele ceder, alguém o elimine (já foram recebidas ameaças neste sentido).
O “fim do túnel”, como afirmou Putin, está a semear nervosismo na política ucraniana, conforme assinala a proibição imposta aos ex-diplomatas de viajarem para o estrangeiro, fechando as fronteiras a que escapou o ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros, Dmitry Kuleba, que, antes da entrada em vigor da norma, fugiu para a Polónia. Evidentemente, temem que a liberdade de que esses funcionários possam usufruir no estrangeiro os leve a dizer coisas que não são bem-vindas em Kiev.
E anunciam-se tempos ainda mais sombrios: lutas políticas até à morte, alimentadas pelo regresso à vida civil dos soldados, muitos deles dos batalhões neonazis, e pelas duras condições económicas, porque ninguém vai ajudar Kiev apesar das promessas… o nervosismo vai transbordar.
Uma histeria também sinalizada pela recente charada sobre o ataque ao palácio do Governo pelos russos. Não somos os únicos a acreditar que se trata de uma encenação. Disse-o explicitamente Oleksiy Arestovych: “com todo o respeito pelo edifício do Governo […] com as suas paredes de um metro de espessura, um Iskander [míssel russo de curto alcance], mesmo que não tivesse explodido, teria causado mais danos”.
O conselho de ministros é apenas uma “fotocopiadora” das decisões tomadas no Bankova [gabinete do presidente] ou na Rada [parlamento ucraniano], acrescentou o ex-conselheiro de Zelensky, insinuando que é inexplicável que os russos o tenham escolhido como alvo.
“Eles mostraram-nos um show”, concluiu incisivamente, uma peça que serviu para fomentar a raiva contra os russos. O incidente, acrescentou ele, lembrou-o quando Kiev detonou a notícia bomba de um ataque russo à central nuclear de “Chernobyll no decurso da Conferência de Munique [14-16 fevereiro 2025]” com a presença de todos os patrocinadores da Ucrânia. “Ninguém reagiu a esse ataque à margem da conferência, na verdade alguns até riram alto”.
E, voltando ao alegado ataque ao edifício do governo, retomou: “ninguém acreditou, não houve reação. Talvez estivessem a tentar fazer alguma agitação. Mas ninguém aqueceu”.
Sobre este ataque, escrevemos ontem, relatando que o prefeito de Kiev, Vitali Klitschko, no imediato, havia observado nas redes sociais que fragmentos de um drone abatido pelo antiaéreo ucraniano haviam caído sobre o prédio (portanto, não era o alvo do ataque).
Tanto é assim que, para justificar o facto de que nas imagens relativas ao ataque não havia vestígios de explosão, o que deveria ter sido visto se tivesse sido atingido por um drone, Kiev falou então de um ataque de um Iskander não detonado, cujos reservatórios teriam desencadeado o incêndio. As declarações de Arestovich confirmam a reconstrução de Klitschko, com a adição de uma encenação posterior. Uma lápide tumular sobre o que aconteceu.
Mas, embora não tivesse o eco esperado, tudo isso também serviu para justificar o que aconteceu mais tarde: na noite em que drones ucranianos atacaram Sochi enquanto Putin estava na sua residência junto do mar Negro, na qual ele havia realizado uma reunião on-line dos Brics.
Isto foi anunciado pelo governador da região de Krasnodar e confirmado pelo porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, acrescentando que o ataque, de facto não maciço, não interferiu na actividade do czar.
Ver aqui
Tratou-se de uma ameaça directa ao presidente da Rússia – uma potência que tem o maior número de ogivas nucleares do mundo – e teleguiada pela inteligência Ocidental, porque os ucranianos não são capazes de fazer tais ataques. Uma loucura total…
Os patrocinadores desta guerra sem fim não se resignam e tentam explorá-la ao máximo na esperança de a continuar e alargar o seu âmbito. Isso apesar de todos os indicadores apontarem para o fim do jogo, com Trump reafirmando que, apesar da encenação de ontem, ele falará em breve com Putin, enquanto a frente ucraniana se aproxima do colapso cada dia, também porque os russos no último mês intensificaram ataques a depósitos de munições e outras infra-estruturas importantes do exército ucraniano.
Ver aqui
Entretanto, deve notar-se que, após a abertura das fronteiras aos jovens entre os 18 e os 22 anos, anteriormente excluídos, o país regista um êxodo em massa de homens desta faixa etária. Os alarmes que ecoam na política ucraniana de que eles não voltarão multiplicam-se e não parecem infundados.
Ver aqui
Assim, a enésima guerra interminável feita pelos neoconservadores destruiu outra nação, depois da Líbia e da Síria (e da Palestina, que se saiu pior)… uma previsão fácil, também a tínhamos feito.
__________
O autor: Davide Malacaria, jornalista italiano e blogger, escreveu no católico “30giorni” e dirige o sítio Piccole Note de que é fundador. “Trabalhava numa revista, mas já não trabalho. Mas a vontade de olhar para os jornais continuou a ser a de captar lampejos de inteligência e de conforto sobre os assuntos do mundo e da Igreja. E de as comunicar aos outros. Daí a ideia deste pequeno sítio. Uma coisa pobre, sem pretensões, que espero que seja de alguma utilidade para aqueles que partilharem estas páginas comigo. Com o passar do tempo, Piccole note enriqueceu-se com colaborações queridas. Não como resultado de uma procura laboriosa, mas através de uma feliz acumulação espontânea. Uma riqueza para o sítio, mas muito mais para os nossos pobres corações.”






