ÀS PORTAS DO OUTONO
por Eva Cruz
Mais um, mais um início de Outono na companhia dos amigos de sempre, debaixo da ramada, toda pintada de folhas vermelhas, castanhas e amarelas. No céu, de um azul cristalino como água, pequenos mantos de nuvens brancas deslizavam serenamente de Norte para Sul, anunciando bom tempo e cobrindo, por vezes, uns pedaços de sol que um ventinho fresco, ainda acanhado, aproveitava sorrateiramente para arrefecer o fim da tarde.
A vindima já tinha sido feita, ou melhor, as poucas uvas que por lá se criaram, ainda assim mais do que em anos anteriores, uvas brancas douradas do sol ou pintadas de negro retinto, já haviam sido apanhadas e levadas para o lagar de um amigo, a fim de as juntar às suas, pois de tão poucas não mereciam um lagar sozinhas. Apenas foram deixadas na ramada as americanas, para serem debicadas pelos donos e pelos melros e para perfumarem o jardim ou não fossem elas uvas de cheiro. Magrinha, plantada há anos pelo meu marido, uma videirita americana sobrevivia… ainda. Uma outra, velha resistente, pendurava uns cachos também eles de bagos magros e rarefeitos, que nada tinham a ver com os da nossa infância. E para ajudar este enfraquecido ar da natureza, muitos dos bagos tinham sido comidos pelos pássaros, que apenas deixavam o cardaço. Provei os poucos que restavam, e eram tão doces que libertavam em mim um sentimento de amor. Pelo menos assim o senti.
Um amigo que nos veio visitar, presente nesse dia e sempre presente a vida inteira nos bons e maus momentos, chamou-me para ir ver outras árvores plantadas por ambos, ele e o meu marido. E foram tantas… Castanheiros, limoeiros, tangerineiras, pessegueiros – as suas favoritas – e também um medronheiro e uma oliveira. Tal como nós, umas viveram mais do que outras. Tantas ilusões! Porém, sempre foram elas que alimentaram a vida…
Entre as árvores erguiam-se dois viçosos araçazeiros, tão carregadinhos de araçás, aninhados entre as folhas verdes, que mais pareciam crianças cobrindo todo o colo da mãe. Pareciam piorras de eucaliptos. Lá para finais do Outono, com as luas a favor, ficarão vermelhinhos como bolinhas de sangue. Dizem que a lua nova e o quarto crescente lhes darão mais açúcar. E, certamente, assim madurinhos, um mais doce sentimento de amor.
araçazeiro (este de araçá vermelho)


