JÁ NÃO ENTENDO ESTE MUNDO – por Adão Cruz

JÁ NÃO ENTENDO ESTE MUNDO

por Adão Cruz

Quadro de Adão Cruz

 

Não entendo este mundo moribundo

este mundo escuro nascido sem sol e sem luar

já não entendo esta onda de sismos e cifrões

esta dor de milhões de cabeças rolando como esferas

para o fundo dos abismos.

Não entendo este mundo dilacerado e sem vida

já não aguento este frio de quatro paredes

este jogo do cemitério da história

este profundo alarido

este diabólico mistério de morte concebido

esta vida sem sentido a que chama democracia

a argentária escória.

Não entendo este mundo de olhos vendados com barras de ferro

este silêncio absorto e abstrato

no assalto impune a soberanas nações

este mundo de vidas e almas sem direitos nem justiça

este mar de sangue escorrendo pelas garras dos algozes

este rasgar de corações

este martírio dolorosamente tatuado na pele dos inocentes

por tanques e aviões, por mísseis e canhões.

Já não entendo as metástases deste cancro da guerra

este perigo sistémico diariamente arquitetado

esta inelutável evolução para a desordem suprema.

Já não sou capaz de aguentar

o peso do crime chamado superlucro

brilhando como a luz do inferno na ponta dos punhais.

Já não entendo este mundo apodrecido

na secura do grande rio da esperança.

Não entendo este mundo escorraçado para as bocas da fome

pela infame corrida ao inglório podium

por entre as malhas da ganância enlouquecida

neste imparável caminho do caos e da fatalidade

na ensanguentada bandeira erguida para o nada

no constante apunhalar da liberdade.

 

 

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