Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime
Se não me encontrar num lugar, procure noutro,
Eu pararei em algum lugar à sua espera
“Song of Myself” de Walt Whitman
Parte I – Morte da cultura e o regresso à barbárie e ao pensamento mágico
“Sem a palavra, sem a escrita dos livros, não há história, não há conceito de humanidade”
Hermen Hesse
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
13 min de leitura
Nota de editor: devido à extensão do texto, o mesmo é publicado em duas partes, hoje a segunda.
Texto 10. Como é que a educação pública falhou nos redutos liberais que mais se preocuparam com ela (2/2)
O aproveitamento escolar dos estudantes caiu num abismo. E nem Trump nem a pandemia são os culpados.
Publicado por
, em 18 de Novembro de 2025 (original aqui)

(conclusão)
Como escritor, senti-me particularmente prejudicado pelo desaparecimento dos livros da mochila do meu filho e, no ano passado, fui a uma reunião do conselho de educação de Montclair para perguntar se os alunos poderiam ter a opção de solicitar cópias impressas além dos PDFs. (A minha cruzada não deu em nada.) A noite em que compareci coincidiu com a apresentação anual do desempenho do distrito nos testes estaduais padronizados. Os administradores exibiram uma apresentação de “slides” destacando alguns resultados positivos. Montclair recuperou da pandemia relativamente bem para os padrões nacionais e supera as médias de Nova Jersey, que é tradicionalmente um dos Estados com melhor desempenho no país. Visto de longe, tudo indicava que estávamos a ir muito bem.
Mas, se alguém analisasse com atenção os dados, via o efeito de dispersão [leque] novamente: os maiores ganhos ocorreram entre os alunos brancos e aqueles classificados como “de não baixo rendimento”. Alunos negros, hispânicos e de baixo rendimento ainda pontuavam muito abaixo dos seus colegas de classe. As suas notas em matemática tinham descido significativamente desde a pandemia, aumentando a diferença no desempenho. Na coorte do meu filho, apenas 15% dos alunos negros estavam a ter matemática no nível esperado para o seu ano escolar e todo o grupo etário havia registado uma queda de dez pontos em leitura e matemática entre o quinto e o sexto ano. Apenas 36% dos alunos negros do 11º ano pontuaram acima do limite mínimo de ‘pronto para a licenciatura’ no exame obrigatório de conclusão do ensino secundário do Estado em 2024.
O orçamento das escolas de Montclair havia aumentado mais de 50%, para quase 200 milhões de dólares anuais na última década, mas ainda estava longe de conseguir resultados escolares para todos. Isso já era suficientemente mau. Foi quando descobrimos que o distrito estava falido.
O nosso desastre financeiro começou com uma tragédia humana. No ano passado, o superintendente que dirigiu o distrito durante a pandemia — um homem relativamente jovem — morreu subitamente. Enquanto o conselho escolar iniciava o processo de contratação de um substituto, participei em sessões de audição conduzidas por recrutadores externos. O conselho acabou por contratar Ruth Turner, uma administradora de Rochester com experiência em serviço social e justiça restaurativa. Inicialmente, pareceu uma escolha curiosa. Rochester é uma cidade do “Rust Belt” (Cintura da Ferrugem) com pontuações péssimas em testes e sérias restrições orçamentais, que levaram ao encerramento de escolas. Mas a relevância da experiência de Turner ficou imediatamente clara. Em julho, Turner enviou um “e-mail” em massa pressagiando o pior, anunciando que, em quatro dias, realizaria uma reunião comunitária sobre o orçamento. Juntamente com algumas dezenas de outros cidadãos, sentei-me no auditório de uma escola e ouvi, perplexo, enquanto ela anunciava que estávamos a ficar sem dinheiro.
Não era segredo para ninguém que o distrito enfrentava um problema orçamental. Havia custos crescentes com educação especial, transporte escolar e os benefícios e salários dos professores — negociados coletivamente — que aumentam anualmente a uma taxa superior ao limite de 2% imposto por lei sobre o valor que o distrito pode arrecadar em impostos prediais sem a realização de um referendo. Mas o que antes era uma preocupação agora tornou-se uma crise: Turner afirmou que o administrador financeiro do distrito, que acabara de se demitir, deixou para trás cerca de 12 milhões de dólares em faturas não pagas. (Algumas delas, como Turner me contou mais tarde, foram encontradas entulhadas em gavetas de mesas.)
“Nós não sabíamos o que não sabíamos”, disse ela. Em dezembro, não haveria dinheiro suficiente sequer para pagar a folha de salários. Os cortes eram inevitáveis, embora Turner tenha prometido que se iria esforçar ao máximo para evitar cortes que afetassem a aprendizagem. “A sala de aula é sagrada”, disse ela. “Tanto quanto for possível, ela continuará a ser o um terreno sagrado.”
O nosso défice orçamental mobilizou Montclair de uma forma que os seus défices de aprendizagem nunca conseguiram. Os meus colegas pais, confiantes na capacidade do seu intelecto coletivo, têm montado freneticamente folhas de cálculo, formando grupos de trabalho e desempenhando a função de auditores amadores para se tentar chegar ao cerne dessa confusão orçamental. Eu tenho estado mais interessado em esclarecer um outro mistério: porque é que todo aquele dinheiro que gastámos não fez a diferença?
Enquanto conversava com pessoas de todo o país sobre a situação das escolas, descobri que existem muitas comunidades como Montclair, outros locais onde os pais tinham altas expectativas em relação à educação pública e cujos resultados distritais foram dececionantes. “A casa está a arder”, disse-me um pai em Evanston, Illinois. A sua cidade, um subúrbio de Chicago muito apetecível e diversificado que abriga a Universidade Northwestern, viu as pontuações dos testes estaduais para alunos do ensino fundamental e secundário caírem o equivalente a um nível de ano escolar em leitura e matemática na última década. Um estudo de Stanford descobriu que a lacuna de desempenho racial é uma das maiores do país. As suas matrículas caíram quase 25% ao longo de seis anos. E a cidade está a lidar atualmente com a sua própria crise orçamental, deixada por um superintendente que gastou excessivamente em projetos ambiciosos, como uma nova escola primária (foi recentemente indiciado por acusações criminais federais relacionadas com fraudes com propinas).
Ouvi relatos semelhantes de disfunção em cidades como Ann Arbor, Michigan, onde as notas de leitura e matemática caíram o equivalente a um ano escolar desde 2018 e o conselho escolar está a cortar drasticamente o orçamento; e em Newton, Massachusetts, um subúrbio de Boston onde o desempenho também caiu, alguns pais e professores têm-se manifestado contra o “desnivelamento” — uma iniciativa para eliminar turmas com melhor desempenho com o argumento de que elas estariam a exacerbar a desigualdade.
Os detalhes locais variavam, mas o tema comum era que os moradores estavam a ser abanados na sua crença de longa data sobre a excelência das suas escolas. “A grande notícia é, na verdade, o facto de estarmos em 2025 e você e eu estarmos a ter esta conversa”, diz Tim Daly, especialista em educação e colunista do Substack que analisou a agonia dos distritos suburbanos. “Porque é que demorámos tanto para reconhecer esses problemas e lidar com eles?” Daly descreveu o declínio nacional no desempenho dos estudantes como uma “depressão sem nome”.
Os investigadores universitários que tentam explicar as causas subjacentes a essa queda dos resultados dizem que o momento em que ela ocorre é a sua melhor pista. As notas nos testes começaram a cair quando as crianças nascidas em 2010 — o primeiro ano do iPad — começaram a entrar no sistema escolar e, para alguns, isso aponta para uma explicação simples: são os ecrãs! Por mais intuitiva que essa resposta possa parecer, ela não consegue explicar porque é que as raparigas voltaram a ficar tão atrás dos rapazes em matemática, por exemplo. O uso de dispositivos é universal, mas a regressão educacional está distribuída de forma desigual. ‘Eu penso que os ecrãs são uma desculpa neste momento‘, diz Carol Jago.
Para os atores políticos do movimento de reforma educativa, o momento sugere uma explicação que os vinga: o retrocesso começou a partir do momento em que passaram a perder batalhas políticas sobre a importância das avaliações. Chris Cerf — um democrata que serviu como alto funcionário das escolas de Nova York sob o prefeito Michael Bloomberg e como comissário de educação de Nova Jersey para o governador republicano Chris Christie — afirma: “os antigos defensores de uma reforma a sério, como eu, atribuem isto a um abandono radical de uma estratégia que estava a apresentar resultados reais positivos.” Adicionalmente, ressalta que, embora as notas nos testes tenham tido uma queda acentuada, as notas escolares são artificialmente inflacionadas e as taxas de conclusão dos diferentes níveis de graduação continuam a subir. Conclui referindo que “Isto é do interesse de todos, exceto, é claro, das crianças, fechar os olhos para as tendências de desempenho reais.“
Poder-se-ia chamar isto de “Hipótese do Declínio de Padrões”. Na sua interpretação da história, o evento significativo da última década ocorreu em 2015, com a aprovação de uma lei federal, revogada por Obama, que reverteu o programa “No Child Left Behind” (Nenhuma Criança É Deixada para Trás) e deixou aos Estados decidir como aplicar os recursos. “Havia a ideia de que estávamos numa transição para uma situação melhor” e “Acabou por ser uma transição para algo muito pior”, segundo Daly. Muitos Estados, particularmente os Estados democratas, com sindicatos fortes, começaram a recuar no uso de testes para orientar decisões políticas. Então, durante a pandemia, as avaliações padronizadas foram, na sua maioria, suspensas. Quando os alunos regressaram fisicamente às escolas, pareceu injusto julgá-los — e, por extensão, as suas escolas — de forma rigorosa demais pelas suas insuficiências.
Os defensores da “Hipótese do Declínio de Padrões” podem apontar para muitos indicadores da suavização de expectativas. Nova York, Massachusetts e Oregon aboliram, suspenderam ou anunciaram a intenção de eliminar gradualmente os exames finais, exames de passagem, que exigem que os alunos do ensino secundário demonstrem proficiência em disciplinas fundamentais. Outros Estados, nomeadamente Nova Jersey, baixaram os “referenciais”, facilitando, assim, a demonstração de proficiência ao desnivelar o nível de referência para baixo. Programas para alunos superdotados, outro ponto de discórdia contínuo, foram reduzidos em muitos lugares. Críticos desses programas dizem que eles há muito reforçam a segregação escolar, oferecendo aos alunos oportunidades desiguais. Mas, em vez de oferecer o suporte necessário para que todos os interessados em aulas avançadas pudessem ter sucesso, alguns distritos acharam mais fácil eliminá-las por completo. Isto resultou no que Shlomit Azgad-Tromer — uma mãe de Brookline, Massachusetts, que fundou um grupo para defender o ensino avançado no seu distrito — chama de ‘a mediocridade como política’. Formal e informalmente, muitos distritos tornaram os critérios de avaliação mais benevolentes; por exemplo, estabelecendo uma nota mínima para facilitar que os alunos recuperem uma reprovação. Com isso, os superintendentes conseguem entregar mais diplomas e colher os aplausos e benefícios para as suas carreiras. No entanto, as taxas de sucesso geralmente não são o que parecem. Uma investigação do Asbury Park Press, realizada no início deste ano, revelou que alunos daquela cidade do litoral, de baixo nível de rendimento, onde os índices de formatura dispararam, estavam a receber créditos escolares por tarefas como cuidar de crianças e lavar roupa.
A lógica que une todas essas políticas é que, supostamente, padrões uniformes são aplicados de forma desigual contra aqueles que já estão em desvantagem, muitas vezes com consequências de vida devastadoras. Ainda assim, não é difícil entender porque é que até mesmo alguns detentores de cargos públicos do Partido Democrata em San Francisco reagiram, ridicularizando, quando o conselho escolar local considerou recentemente uma iniciativa de “avaliação por equidade”. Os críticos alertaram que a medida visava tornar quase impossível para os professores darem uma nota “F” (reprovação) aos alunos. O fracasso é duro, mas lançar adolescentes no mundo sem uma educação básica não é algo popular, nem é progressista. “De muitas formas estranhas, a esquerda política tem usado a equidade para diminuir as altas expectativas em relação às crianças”, diz Aldeman, ex-alto funcionário do governo Obama.
Os reformadores centristas em matérias de educação gostam de destacar o sucesso, contraintuitivo, de um punhado de casos atípicos: alguns estados do Sul, outrora retardatários na educação pública, têm dado passos gigantescos no desempenho dos alunos, ao mesmo tempo que Estados do nordeste ficaram para trás no “ranking”. Alunos da quarta classe economicamente desfavorecidos do Mississippi e da Louisiana têm obtido pontuações melhores na Avaliação Nacional (NAEP) do que os seus homólogos de Nova York, Nova Jersey ou Massachusetts. Desde 2013, as pontuações do Mississippi para alunos da quarta classe saltaram das últimas posições no “ranking” estadual da Avaliação Nacional para o 9.º lugar em leitura e para o 16º em matemática.
Investigadores académicos começaram recentemente a examinar o chamado “surto do sul” (“southern surge”). Alguns creditam o sucesso à formação dos professores, aos esforços de acompanhamento (“coaching”) e a uma filosofia de “regresso ao básico” que utiliza ferramentas de ensino tradicionais, como cartões de memorização (“flash cards”) de matemática. Outros apontam para a “ciência da leitura”, um currículo baseado em fonética, que o Mississippi foi um dos primeiros a adotar e que agora está a ser implementado em todo o país (incluindo a cidade de Nova York, que acaba de anunciar um salto nas notas dos testes de leitura).
Outro fator, que os Estados conservadores do Sul tendem a compartilhar, é o compromisso contínuo com medidas de prestação de contas baseadas em testes (“accountability”), que os seus professores tiveram que aceitar por não terem sindicatos fortes. No Mississippi, as crianças também são responsabilizadas: alunos do terceiro ano do 1.º ciclo que não demonstram proficiência em leitura são retidos por lei, o que pode ajudar a explicar porque é que os seus alunos do 4.º ano apresentam resultados tão bons nos testes.
Há cerca de um ano, Carey Wright, a superintendente de educação que liderou o Mississippi durante o período em que o Michigan começou a subir nos “rankings”, foi contratada para gerir as escolas de Maryland. Ao longo da década anterior, apesar de ter aumentado os gastos com educação em 37%, Maryland viu as notas de leitura para alunos do 4.º ano caírem cerca de 20 pontos na Avaliação Nacional, de acordo com dados compilados pelo Georgetown Edunomics Lab. Wright propôs a implementação da mesma política de retenção do terceiro ano que o Mississippi utiliza, mas enfrentou forte oposição. Os pais bombardearam o seu departamento com “e-mails” hostis. Os políticos manifestaram objeções receosas, questionando o impacto da medida sobre os alunos mais carenciados. Wright teve que recuar. “O contexto aqui é muito diferente”, afirma ela.
À medida que os Estados Unidos se fragmentaram em células — comunidades de pessoas que pensam da mesma forma — a política educativa também se dividiu em realidades polarizadas. Existem investigadores em educação à esquerda que insistem que o “milagre do Mississippi”, como tem sido chamado, deve ser uma ilusão ou o produto de manipulação das notas dos testes. (Um dado citado pelos céticos: se observarmos os alunos do 8.º ano do Mississippi, o desempenho deles volta à realidade). Num debate em outubro, a próxima governadora de Nova Jersey, Mikie Sherrill — mãe residente em Montclair — atacou o seu opositor republicano por “citar lugares como Louisiana e Mississippi, que eu considero algumas das piores escolas de todo o país”. Ela afirmou: “Se é para lá que ele quer nos levar, acho que os eleitores devem ficar atentos“. Em muitas comunidades liberais [de esquerda], falar sobre notas de testes — ou até mesmo usar a palavra desempenho — passou a soar como uma linguagem codificada da direita.
“Acho irónico”, diz Kane sobre as suas descobertas a respeito da recuperação pós-pandemia, “que justamente os lugares que mais parecem importar-se com a equidade tenham feito o pior trabalho em termos de recuperação escolar.” A complacência em relação à educação é um luxo que os pais podem adquirir ao comprar uma casa no CEP (código postal) correto. E, ainda assim, é natural questionar-se se leu os livros certos, se adotou a abordagem correta quanto ao tempo passado em frente ao ecrã, se colocou as perguntas certas na reunião de pais com os professores, mesmo se fixou residência no lugar certo. No início deste ano, começaram a surgir cartazes nos comboios suburbanos de Nova Jersey que pareciam projetados para alimentar essas ansiedades. “MARCUS NUNCA SERÁ UM ARQUITETO”, dizia um deles, ilustrado com a foto de uma criança sorridente a carregar uma mochila. Os anúncios citavam estatísticas assustadoras — “55% DOS ALUNOS DA QUARTA CLASSE DE NOVA JERSEY NÃO SABEM MATEMÁTICA AO NÍVEL EXIGIDO” — e incluíam um “QR code” que levava ao “site” de uma organização sem fins lucrativos chamada Wake Up Call New Jersey. Os seus objetivos eram misteriosos.
O grupo revelou ser um projeto pessoal de Laura Overdeck, uma filantropa da área da educação casada com um gestor de fundos (“hedge fund”) com uma fortuna estimada em 8 mil milhões de dólares. (Atualmente, eles estão a passar por um divórcio amplamente publicitado). Há uma década, Overdeck fundou uma organização sem fins lucrativos para promover a aprendizagem em matemática na infância, o que, segundo ela, a levou a perceber que os pais precisam ser alertados para a queda do desempenho escolar.
Neste ano letivo, o seu novo grupo de defesa escolheu cobrir dois distritos escolares específicos de Nova Jersey — um dos quais era o meu — com panfletos de papel brilhante. “ATENÇÃO PAIS: OS ALUNOS DE MONTCLAIR ESTÃO A FICAR PARA TRÁS”, dizia um deles na parte da frente. No verso, citava os resultados dos nossos testes padronizados: “38% DOS ALUNOS do 4º ANO DE MONTCLAIR ESTÃO ABAIXO DO NÍVEL DO ANO EM MATEMÁTICA”. Certo dia, um camião, com painel eletrónico a exibir a mesma mensagem, estacionou em frente à escola de ensino primário do meu filho bem na hora da saída. A ofensiva coordenada estendeu-se até mesmo a anúncios no YouTube, que foram vistos pelas crianças.
Quando falei com Overdeck em outubro, ela disse-me que a sua intenção era provocar uma reação. “Houve um grande esforço para fazer com que os pais não gostem de testes e desconfiem deles”, diz ela. “A sociedade precisa tomar a pílula vermelha quanto a isso”. Ela espera que os pais se sintam inspirados a analisar de perto as notas dos testes dos seus próprios filhos e iniciem “conversas difíceis” com os professores sobre elas — e, a partir daí, se mobilizem por mudanças mais amplas nos seus distritos escolares.
Compreensivelmente, os alvos da ofensiva de Overdeck reagiram de forma defensiva, desconfiada e indignada pelo facto dos seus filhos estarem a ser confrontados com material de “marketing” que sugeria que eles poderiam ser burros. No “Facebook” e no “WhatsApp”, os pais de Montclair agruparam-se como glóbulos brancos para atacar o agente invasor. Eles questionaram as motivações de Overdeck: estaria ela a promover vales-educação (“vouchers”) ou “charter schools [1]”? Estaria a lutar no quadro da guerra cultural republicana? Estaria ela a tentar derrotar Sherrill? Overdeck, que é republicana, tinha doado 500.000 dólares a um PAC (comité de ação política) que apoiava o candidato republicano Jack Ciattarelli. No entanto, ela afirma que o seu grupo é apartidário e não tem posição sobre vouchers ou charter schools. Um professor do ensino fundamental, pai de um detentor de cargo público local pelo Partido Democrata, compareceu a uma reunião do conselho escolar e brandiu um panfleto para denunciar a interferência de uma “organização de direita bem financiada”. Se a intenção de Overdeck era, como ela alegou, iniciar uma conversa local — ou até mesmo um movimento — ela conseguiu o oposto, envenenando o discurso. Pouco importava que os seus números estivessem corretos.
Um cínico diria que isso mostra que os democratas acreditam nos dados apenas até que eles elucidem as suas próprias falhas. Mas a incapacidade de encarar os factos é bipartidária. E a solução preferida dos republicanos para esta crise na educação pública é o abandono. Além dos cortes drásticos de Trump na educação federal — incluindo programas voltados para melhorar o desempenho de alunos de baixo rendimento — diversos estados conservadores instituíram programas de ‘livre escolha de escolas’ (“school choice”), que redirecionam verbas públicas para escolas particulares.
Vladimir Kogan, professor da Universidade Estadual de Ohio que estuda a política educativa, afirma que muitos republicanos se voltaram contra os testes padronizados quando estudos começaram a lançar dúvidas sobre a eficácia dos “vouchers” (vales-educação). “Entre os conservadores, há ceticismo” diz ele, “porque alguns dos seus programas favoritos não resultam em melhores pontuações nos testes”.
Kogan publicou recentemente um livro, No Adult Left Behind (Nenhum Adulto Deixado para Trás), que procura localizar a origem de todo este fracasso sistémico. Ele disse-me que se inspirou na sua experiência como pai de duas crianças de cor adotadas em Columbus, Ohio, durante a pandemia. Enquanto observava o conselho escolar da sua cidade a discutir sobre planos de reabertura e outros temas, ele começou a trabalhar no seu livro, em que investiga a maneira como a educação pública é gerida ao nível local. Em muitos casos, os distritos são supervisionados por conselhos eleitos que deveriam representar os melhores interesses dos beneficiários do sistema: os alunos. Mas, na prática, muitas vezes não é assim que funciona. Na sua investigação, Kogan analisou os resultados de mais de 50.000 disputas eleitorais para conselhos escolares em 16 Estados e descobriu que, em geral, elas são caracterizadas por baixa participação e dominadas por “eleitores de alto rendimento, maioritariamente sem filhos e predominantemente brancos”.
Isso cria o que Kogan chama de um “déficit democrático”, no qual aqueles que têm mais em jogo possuem menos influência. “As políticas públicas são conduzidas por considerações políticas de adultos e objetivos políticos de adultos“, diz ele. Acrescenta que “Não é que as pessoas não se importem com as crianças, mas essas considerações são de importância secundária.”
O livro de Kogan argumenta que as crianças recebem o sistema que os adultos merecem. Nós, adultos, expressamo-nos através dos nossos argumentos e votos, publicando nas redes sociais e colocando placas nos nossos jardins; mas os nossos sistemas sinalizam o que realmente valorizamos: o valor do dinheiro. Talvez este seja um dos motivos pelos quais as pessoas em Montclair se sentiam tão confortáveis nas suas considerações sobre as escolas. Elas não poderiam ser assim tão más se nós gastamos tanto nelas, ou será que poderiam? Foi só quando a nova superintendente chegou e expôs a má gestão do distrito, que começámos a perguntarmo-nos se o dinheiro não seria canalizado para fins erróneos.
Turner disse ao conselho escolar que nunca tinha trabalhado num distrito que investisse tão pouco em instrução e nos currículos. Mesmo com o orçamento de Montclair fora de controle, o montante médio das despesas educacionais essenciais, por aluno, na verdade diminuiu ao longo dos últimos três anos.
Desde que a superintendente nos informou pela primeira vez sobre as dívidas não pagas, as notícias sobre as finanças do nosso distrito tornaram-se cada vez mais sombrias: investigações subsequentes mostraram que o distrito estava a caminho de um défice de 7 milhões de dólares neste ano letivo, elevando o montante que o distrito precisa encontrar para cerca de 20 milhões de dólares — ou seja, mais de 10% do seu orçamento total. Quando chegou a noite de integração escolar (“Back to School Night”), as conversas no Facebook e no WhatsApp eram sobre os sinais de pressão orçamental. Excursões foram canceladas. As escolas estavam sem papel para fotocópia. (Descobriu-se que o distrito não tinha paga uma conta avultada à Staples.) O musical da Buzz Aldrin Middle School, onde o meu filho estuda, provavelmente seria cancelado porque não havia dinheiro para pagar estas atividades extracurriculares. (A Associação de Pais e Mestres lançou uma campanha para arrecadar os 12.000 dólares necessários.)
Turner realizou outra reunião na Câmara Municipal no final de setembro, onde esboçou um plano que envolvia contrair um empréstimo de emergência do Estado para liquidar a dívida e, em seguida, realizar uma eleição especial em dezembro para pedir que os eleitores aprovassem impostos para cobrir a quantia necessária para pagar o empréstimo e colmatar o défice. Se a votação vier a falhar, o distrito acabará sob a gestão de um monitor estadual que pode, unilateralmente, cortar funcionários e programas. “Tudo está em cima da mesa”, disse Turner. O meu filho tinha vindo comigo — um interesse cívico que atribuo à sua fascinação pelo mau comportamento dos adultos. Ele e um amigo sentaram-se na última fileira, absorvendo as más notícias.
Orador após orador exigia uma auditoria forense para investigar indícios de corrupção, mas Turner ofereceu uma explicação mais trivial: tínhamos vivido acima das nossas posses. Ao que parecia, sob o comando do seu falecido antecessor, o distrito começara a ocultar um défice estrutural crescente, empurrando contas não pagas de um ano para o outro. Agora, alguém teria que pagar a conta — ou os contribuintes, ou as crianças.
“Se não podemos pagar, não podemos ter”, disse-me Turner no final de outubro. Afirmou ter consciência que pedir aos eleitores que aumentassem os seus próprios impostos era uma proposta com resultado incerto e, por isso, estava a preparar um “plano B” caso a cidade votasse “não”. “Certamente será algo que Montclair nunca viveu”, disse ela. Poucos dias antes, o distrito tinha enviado um aviso prévio a mais de 100 funcionários que perderiam os seus empregos. Haveria cortes em programas de línguas e de justiça restaurativa, atividades extracurriculares e desportos. Aulas suplementares para alunos com dificuldades durante o período escolar seriam eliminadas. Ela disse que teria de considerar medidas extremas, como o encerramento de escolas. Sob a supervisão de um monitor estadual, até mesmo o nosso precioso sistema de “escolas magnet” (escolas de ensino especializado) poderia estar vulnerável, pois depende de um transporte escolar caro, que poderia ser reduzido.
Se o referendo for aprovado, disse Turner, uma abordagem realista do orçamento ainda exigiria o “ajustamento” do quadro de funcionários e da oferta de aulas. “Teremos que lutar e passar por esse processo doloroso, porque talvez tenhamos que abrir mão de coisas que temos há muito tempo”, disse-me ela. “Mas não é necessariamente algo de mau. Pode ser em prol de algo melhor”. Nesse ínterim, crianças como o meu filho — que sofreram com o ensino à distância nos anos do 1.º ciclo de ensino — enfrentarão agora a austeridade no ensino secundário. Isso, claro, se eles chegarem a frequentá-lo: as jornadas de portas abertas (“open houses”) das escolas particulares estão lotadas.
Pensei em todos os pequenos problemas com os quais Montclair se tem vindo a martirizar nestes últimos anos. Houve protestos contra o corte de algumas árvores centenárias para abrir caminho para o nosso novo campo de beisebol de erva sintética. Houve uma campanha por equidade para a equipa de robótica do ensino secundário, que agora é financiada como um programa desportivo. Houve uma discussão sobre manter ou não um calendário inclusivo que interrompesse as aulas em feriados como o Diwali e o Ano Novo Lunar, obrigando a pausa letivas e levando ao encerramento do ano letivo em final de junho. Enquanto isso, tínhamos perdido de vista o que era realmente importante.
Em novembro, no final de mais uma reunião exaustiva do conselho escolar, os administradores do distrito apresentaram os resultados dos testes da primavera. Havia alguns sinais modestos de melhoria em relação ao ano anterior, mas não muitos. “Estou quase sem palavras”, disse um membro do conselho. Menos da metade de todos os alunos de Álgebra 1 atingiram ou superaram o nível esperado para o respetivo ano, e apenas 14 por cento dos alunos negros o conseguiram — um dado que outro membro do conselho chamou de “o número mais angustiante” em “um mar de números angustiantes”. Pressionado por uma explicação, o novo superintendente foi direto. “O nosso orçamento reflete as nossas prioridades”, disse Turner. “Não sei o quanto o ensino e a aprendizagem têm sido, honestamente, uma prioridade.” Tínhamos pedido tanto às nossas escolas. E acabamos com bem menos do que aquilo que esperávamos.
____________
[1] Trata-se de um modelo de escola pública com uma lógica de gestão privada.
O autor: Andrew Rice [1972- ] é editor colaborador da New York magazine e escreveu dois livros, incluindo o mais recente The Year That Broke America. Ele é natural de Columbia, Carolina do Sul. Iniciou a sua carreira em jornais de Filadélfia e Washington, antes de se juntar ao pessoal de reportagem do semanário New York Observer, onde trabalhou durante o ano 2000. Entre 2002 e 2004, Andrew viveu no Uganda como membro do Institute of Current World Affairs, uma fundação estado-unidense sem fins lucrativos. A sua experiência em África foi a base do seu primeiro livro, The Teeth May Smile but the Heart Does Not Forget, que foi nomeado um dos melhores livros da Kirkus Reviews de 2009. Mais tarde, tornou-se escritor da New York Times Magazine, bem como colaborador regular de várias outras publicações. Como jornalista, as áreas de interesse de Andrew incluem ditadura, democracia, Imóveis de Nova York, Política Africana, direito e justiça, imigração, Congresso, feitiçaria, planejamento urbano, religião, corrupção, beisebol e guerra. Ele é membro da equipe de Nova York desde 2012 e mora com a sua família em Nova Jersey.


