Do mito à procura da verdade sobre a 1.ª República
por António Gomes Marques
Nota Prévia
Em 2018, Carlos Loures, o meu saudoso amigo e, então, o principal animador do nosso blogue, solicitou que eu escrevesse um texto sobre a 1.ª República para publicação no 108.º aniversário da sua proclamação, que é o texto que agora repito.
Terminava eu esse texto confessando o meu pessimismo em relação ao futuro, muito contrário às ilusões que vivi na adolescência e na juventude, mas apelando aos portugueses que agissem no sentido de eu também poder usufruir de um fim de vida bem mais feliz.
A situação que hoje vivemos mostra bem como a razão do meu pessimismo tinha perfeita convergência com a realidade. Hoje vivemos tempos bem mais sombrios, com as forças da extrema-direita a já não temerem dizer o que pensam, como a agir em consonância, acompanhadas pela cobardia dos partidos que se dizem de esquerda e com grandes responsabilidades na governação ao nível local e nacional.
As ideias republicanas apostavam muito na Educação, mas as acções ficaram muito longe do que a propaganda afirmava. Com o 25 de Abril, a Educação/Ensino democratizou-se depois do obscurantismo do período nacional-salazarista, mas nos últimos tempos, sobretudo a partir da implantação do chamado processo de Bolonha, vemos as nossas escolas, com particular realce para as Universidades, a formar ignorantes que nem um texto são capazes de interpretar, com muitos estudantes a socorrerem-se da I. A. para encontrar respostas que, de outro modo, não são capazes de elaborar. O rigor está a desaparecer das nossas escolas, valendo ainda a resistência de bastantes professores, como o Júlio Marques Mota tem demonstrado aqui, em muitas das publicações da sua responsabilidade n’ aviagemdosargonautas.net.
A intenção mostrada na acção governativa de Cavaco Silva — que nenhum dos governos que lhe sucederam alterou substancialmente — já pressagiava que os tempos que agora vivemos fariam parte do nosso futuro, como os factos demonstram.
Hoje passa mais um aniversário do 5 de Outubro e eu poderia tentar escrever um novo texto, mas decidi-me pela republicação do texto de 2018, cujo conteúdo se mantém, na minha perspectiva, actual. O que eu poderia acrescentar vai nesta Nota Prévia.
AGM
Portela (de Sacavém), 2025-10-05
Do mito à procura da verdade sobre a 1.ª República
por António Gomes Marques
I
Saí da aldeia onde nasci —Chã de Alvares/Góis— com 10 anos, mas foi ainda ali que comecei a ouvir falar da 1.ª República como um tempo melhor para todos do que aquele que então se vivia, o que não deixou de me fazer confusão dado que eu nem vivia mal de todo, ou seja, percebia que tinha melhores condições de vida do que a maioria dos companheiros da escola primária.
Depois, lá em casa falava-se muito do meu avô paterno, que não tive a felicidade de conhecer; era a minha avó que dele falava com saudades e sempre com um brilho nos olhos quando o invocava e me mostrava fotografias, mas também o meu tio, irmão mais velho do meu pai, no mês de férias que passava na aldeia, que me falava do meu avô e me dizia ter ele sido um republicano muito activo, desempenhando alguns cargos, nomeadamente Vereador da Câmara Municipal de Góis e Juiz de Paz, para além de arrastar atrás de si as pessoas da freguesia para votarem no seu candidato. Mais tarde, a viver em Torres Vedras e a conviver com os movimentos cineclubistas dos anos 60, com muitos militantes do PCP, já a coisa me soava a caciquismo, resolvendo tirar as dúvidas com o meu tio. «Não penses isso do teu avô, a maioria das pessoas era analfabeta, muitas perguntavam ao teu avô em que candidato deviam votar e ele informava-os de quem ele próprio apoiava, só isso. Claro, acrescentava o meu tio não escondendo o sorriso, o candidato do teu avô ganhava sempre as eleições em várias freguesias do concelho. O teu avô era muito respeitado não só no concelho de Góis, mas também noutros concelhos do distrito de Coimbra».
O meu avô era um verdadeiro republicano, como mais tarde, já adolescente, pude confirmar ao falar com pessoas da freguesia e de Góis que com ele tinham convivido, mas, contrariamente ao que eu desejava, não tinha tendências de esquerda, era um conservador.
Em Torres Vedras o 5 de Outubro era comemorado com grande convicção, havendo nessas comemorações pessoas que eu sabia ligadas ao PCP e às forças da oposição, o que me levou a pensar que a 1.ª República havia sido um período de grandes conquistas para os portugueses, particularmente para os trabalhadores por conta de outrem, que na altura eu confundia um pouco com os proletários.
A candidatura de Arlindo Vicente, muito apoiada em Torres Vedras, alimentou a ideia que eu tinha formado sobre aquele período da nossa história.
Completei os meus 17 anos já a viver em Lisboa, onde não falhava as comemorações do 5 de Outubro e as romagens à estátua de António José de Almeida.
Já com 20 anos, comecei a conviver com uns primos daquela que viria a ser a minha 1.ª mulher e com a mãe de um deles, a D. Gertrudes, que me falava do seu dia-a-dia no período republicano, dos obuses que passavam por cima da sua casa —«O Alto do Pina disparava, depois a fragata no Tejo respondia…»—, despertando em mim a curiosidade, levando-me a pensar que, afinal, a 1.ª República teve problemas mais sérios do que eu pensava. Da curiosidade passei ao estudo sério daquele período e pude verificar que havia construído dentro de mim um mito sobre a 1.ª República portuguesa.
Na minha procura, houve um livro a que não poderia ter acesso e que me teria ajudado muito a compreender o que foi realmente o período republicano: «Os Reinegros», de Alves Redol.
II– Os Reinegros, de Alves Redol
Esta obra foi escrita em 1944, portanto entre as 1.ªs edições de «Fanga» (1943) e de «Anúncio» (1945), mas apenas publicada em Novembro de 1972, três anos após a morte do seu autor. Qual a razão? O seu autor não teria ficado contente com o resultado? Nada mais falso. A razão da sua não publicação residia na censura prévia a que as obras de Alves Redol tinham passado a ser sujeitas. Lembremos que o habitual era a publicação da obra e, só depois, acontecia a actuação da polícia política, apreendendo e proibindo assim muitas obras dos autores portugueses. Há quem afirme que Alves Redol foi o único escritor português a ter de apresentar os seus originais à censura prévia, embora eu julgue que o mesmo também terá acontecido a Romeu Correia. As várias tentativas de Redol para o publicar não obtiveram êxito.
Portanto, eu não poderia ter acesso a esta obra, só dela tomando conhecimento aquando da sua publicação, ainda na vigência do regime anterior, mas com Marcelo Caetano como Presidente do Conselho de Ministros.
O tema é bem diferente dos livros anteriores. Desta vez, o autor nesta sua obra, cuja acção decorre nos anos de 1907 a 1919, desloca ex-camponeses para a cidade de Lisboa em busca de uma melhor vida, acompanhando-os na sua tomada de consciência política da necessidade da implantação da República, particularmente da sua personagem principal, Alfredo Reinegro, que começa como marçano na mercearia do Sr. Almeida, que olha para o seu empregado como se escravo dele fosse e, quando o Alfredo Reinegro decide, sem pedir autorização ao patrão, juntar-se com a Júlia, criada de servir, fugida da sua aldeia depois de se «perder» por amor, a violência do Sr. Almeida aumenta, levando o Alfredo Reinegro a sentir-se ultrajado, acabando por se despedir depois de uma conversa com um trabalhador que o encoraja e por ter conseguido outra ocupação como servente de pedreiro.
Na rua vai ouvindo falar da República e da necessidade da sua implantação como sendo o único regime que poderia contribuir para a libertação das massas trabalhadoras, conversas que se tornam contínuas, primeiro ouvindo a Aurora Peladas, vizinha do casal Reinegro, que lhe chega a dizer que a queda da Monarquia não tardaria, o que Alfredo recebe como se tratasse de uma curiosidade como muitas das habituais nas conversas entre vizinhos. Depois essas conversas começam a acontecer com os colegas de trabalho, na construção civil primeiro e no porto de Lisboa depois, e na taberna. Começa a assistir a comícios e há palavras, como Justiça e Liberdade, que só a República pode proporcionar ao povo trabalhador e oprimido, povo esse de que ele não tem dúvidas ser parte integrante, passando a ter grande respeito por um dos oradores, Luís Polidor, que todos sabiam pertencer à Carbonária. Assiste, como observador interessado, ainda hesitante e, como tal, sem coragem para entrar na luta que derrubou a Monarquia, vendo que essa acção aconteceu por outros, mas não ele, terem tido a coragem para lutar de armas na mão.
Implantada a República, verifica o Alfredo Reinegro e os seus companheiros de trabalho que, afinal, a exploração continua e que os ricos de antes da República continuavam a ser ricos no regime republicano. Verifica que muitos dos exploradores, alguns só agora reconhecidos como tal, se declaravam republicanos. Adere o nosso personagem às greves que se sucedem, cativado pelos anarco-sindicalistas e por aqueles que, mais tarde, vêm a fundar o Partido Comunista, dedução esta que o leitor da obra pode tirar.
Alfredo Reinegro vai tomando consciência de que sem luta e sem se embrenhar na política a massa trabalhadora não verá a sua vida melhorar, acabando por se juntar a outros companheiros de luta, sendo um dos homens do povo que, de armas na mão, aparece em Monsanto a combater mais uma tentativa dos Monárquicos para derrube da República, com o que Alves Redol termina o romance.
N’ «Os Reinegros», Alves Redol mostra-nos uma Primeira República que a historiografia muito rica que hoje temos ao nosso dispor confirma, também demonstrativo de que o autor, seguindo o seu método habitual, previamente se muniu de documentação esclarecedora, lembrando eu que a historiografia da época estava muito longe da riqueza da investigação que acima refiro.
Neste romance, Alves Redol trata dos três últimos anos da Monarquia e dos primeiros dezassete da República, mostrando claramente como foi aquele período da História de Portugal.
Não duvido que Alves Redol quis chamar a atenção para a necessidade de ver com outros olhos aquele período da nossa História, o que a censura fascista não lhe permitiu.
Está lá tudo, sendo este romance de Alves Redol, penso, o mais político de todos os que escreveu.

