Analisar as questões políticas e sociais sob uma perspectiva pessoal, pode trazer graves consequências, quando o analisador tem responsabilidades maiores em qualquer desses domínios, e se não der importância ao historial cultural, político e económico de qualquer dessas questões, optando por uma razoabilidade moral ou psicológica, que afasta sempre de uma crítica fundamentada das estruturas onde elas assentam.
Não serão estas as palavras exactas usadas em ‘Ter ou Ser’, uma das obras mais importantes de Erich Fromm, o filósofo e sociólogo alemão que marcou a segunda metade do século passado, mas reflectem bem o que hoje se passa no mundo, a ver pelos candidatos a donos de impérios, de quem somos obrigados a aguentar as imprevisibilidades, comentários, atitudes e aparições, um deles até armado com um ridículo e esclarecedor boné vermelho com letras de clube de basquetebol, para disfarçar a grosseria e até as ameaças a quem se atrever a pensar diferente.
E, cereja em cima do bolo, repare-se na espectacularização feita pelos media a cada uma das suas atitudes, principalmente se atingir algum dos que se lhes opõem, desde usar uma mesa quilométrica a impor uma ridicularização que são, ao mesmo tempo, o desprezo pelas diplomacia e cortesia e até mesmo pelo consenso, sempre necessários num encontro entre personalidades de aparente igualdade simbólica.
O filósofo e escritor Santiago Alba Rico, escreveu (sem eu mudar uma única palavra) há uns dias no diário ‘Publico’ daqui ao lado, ‘Trump é simplesmente inimaginável; é o seu triunfo. É o cubismo de Picasso, o fluxo de consciência de Joyce, a música dodecafónica de Schoenberg. O que faz as coisas, não se limita a introduzir novos objectos no mundo e, ao mesmo tempo, muda as regras do jogo’; ou para seguir um raciocínio e uma lógica mais simples, ‘Trump nunca mente, a mudança das suas ideias, que se alteram de manhã para a tarde, obedece apenas à sua imaginação criativa!’
E (continua Alba Rico), entre as duas sumidades que pretendem alcandorar-se aos céus etéreos e inalcançáveis dos novos impérios do século XXI, ‘A UE certamente tem motivos para se sentir ameaçada pela Rússia de Putin, mas essa Rússia torna-se ainda mais encorajada à medida que percebe a UE cada vez mais vulnerável, e capitulando frente aos EUA de Trump, a maior fonte de ameaças ao mundo e à Europa. Ainda mais: diria que a única maneira para deter a Rússia de Putin (e defender outras regras do jogo na geopolítica, e direito internacional) é sacudir a dependência tóxica dos EUA em relação a Trump. Não parece provável que aconteça’.
De qualquer maneira, aquele plano para Gaza, (se houver plano!), mais parece um caminho para considerar Gaza como um campo enorme para reconstrução, gerido por um conselho empresarial, sob a presidência do mega construtor Trump. Penso ser apenas uma imposição maquilhada de generosidade! Ninguém, nem palestino ou das Nações Unidas, foi tido nem achado, nem se ouviram opiniões! E onde aparece a Cisjordânia?
Mas o mundo continua e avança, com as verdades que vão mudando de manhã para a tarde, depois de se ter noticiado um acordo para o fim do assalto a Gaza; ‘Absolutamente não’, disse Netanyahu num vídeo postado na terça-feira na sua conta no X, onde fez o balanço à sua quarta visita deste ano a Washington, em que acrescentou, sobre a criação do Estado palestino, ‘Nem sequer está escrito no acordo’.
Temos dois criativos deste lado! A pergunta é qual vai ser a resposta a estes dois criativos, quando ‘O documento não contempla uma ocupação indefinida de Gaza, mas uma retirada gradual das tropas israelitas e o subsequente envio de uma força de segurança internacional encarregada de manter a estabilidade. No entanto, não dá prazos sobre esta questão’.
Uma outra questão mais pacífica, mas que, de alguma maneira, também nos diz respeito: ‘A Comunidade Países Língua Portuguesa, acaba com cisão entre PALOP e restantes países na escolha da próxima presidência, pois os PALOP apoiaram a Guiné-Equatorial na pretensão de assumir a presidência, enquanto Lisboa, Brasília e Díli se mantêm juntos na ideia de entregar ao Brasil a liderança pós-Guiné-Bissau’.
Tal facto deve-se ao facto de a Guiné Equatorial, que deveria assumir a presidência em Julho passado, foi substituída pela Guiné-Bissau, uma vez que o seu presidente Teodoro Obiang, ditador desde 1979, tem sido acusado da violação sistemática e continuada dos direitos humanos. A esse propósito, transcrevo na íntegra, a primeira parte de uma notícia sobre o filho de tal senhor, Teodorin de seu nome.
‘Teodorin perde seu palácio parisiense. Era uma jóia de seis andares bem escondida no coração de Paris. Treze anos atrás, quando um grupo de pesquisadores franceses entrou na Avenue Foch, 42, a poucos passos do Arco do Triunfo, em Paris, encontraram um esconderijo cheio de tesouros incomparáveis: nos mais de cem quartos daquele antigo hotel de seis andares e mais de quatro mil metros quadrados, os polícias franceses encontraram jóias exclusivas, relógios incrustados de diamantes, mobiliário de colecção, de antiguidades (incluindo uma mesa de vidro de vinte metros, vasos de porcelana ou uma cómoda Régence, avaliada em 2,8 milhões de euros), fatos e vestidos dos melhores designers de França e garrafas de vinho avaliadas em milhões de euros. Cada detalhe do edifício tornava-o um palácio de excessos de conto de fadas: os banheiros tinham torneiras de ouro, as colunas de mármore eram decoradas com coral e, em alguns quartos, até instalaram um cinema ou um banho turco. Na apreensão daquele prédio parisiense cheio de luxos, a polícia precisou de três dias e vários caminhões para remover todo o material apreendido; tornou-se uma pedra angular da luta do sistema de justiça francês contra a corrupção, a lavagem de dinheiro e o desvio de fundos públicos de seu famoso proprietário, também famoso por ser um ‘bon vivant’, apaixonado por Lamborghinis e longas viagens a Hollywood ou Rio de Janeiro”’.
E uma pergunta minha: o tal senhor Teodoro, presidente de um país onde 75% da população também de ‘fala francesa’, vive na pobreza, é um ditador encartado, e o filho Teodorin, por acaso vice-presidente, tem um fraco por riquezas diversas, de que se vai apropriando; a tal casa vale mais de 100 milhões de euros e, quem teria autorizado a sua entrada na CPLP? Não quis usar a tentativa de perguntar à net, com receio de os algoritmos só me apresentarem ‘criativos’.
António M. Oliveira
Não respeito as que o Acordo Ortográfico me quer impor


