Não ao cancelamento, contra o cancelamento de Boaventura de Sousa Santos — UMA TOMADA DE POSIÇÃO

Cultura do cancelamento, arte abstrata de August Meriwether

in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cultura_do_cancelamento

 

Não ao cancelamento, contra o cancelamento de Boaventura de Sousa Santos

 

UMA TOMADA DE POSIÇÃO

Vivemos num sistema político cada vez menos democrático, onde a liberdade de expressão começa a ver-se coarctada de forma alarmante, onde a cultura de cancelamento é uma das demonstrações desta falta de liberdade, provocando danos psicológicos e sociais às pessoas canceladas ao verem-se impedidas de apresentarem a sua defesa, onde nem a presunção de inocência lhes é concedida.

Vivemos num sistema dito democrático, onde a presunção de inocência é concedida aos maiores criminosos, o mesmo não acontecendo a uma figura pública que se tenha destacado em qualquer ramo de actividade, com destaque para o meio académico, onde o espaço para o diálogo deveria ser uma das suas características mais basilares. Infelizmente, é também neste meio que têm nascido algumas acusações de cancelamento gratuito e que impedem o(a) acusado(a) de dispor de um espaço onde possa rebater a injustiça de que sente estar a ser alvo.

 

«Em Julho de 2020 — (in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cultura_do_cancelamento) —, um grupo de 153 figuras públicas progressistas, entre elas Noam Chomsky, Margaret Atwood, Salman Rushdie, Martin Amis, J. K. Rowling, publicaram na Harper’s Magazine uma carta intitulada “A Letter on Justice and Open Debate” (Uma Carta sobre Justiça e Debate Aberto) apresentando argumentos contra “uma intolerância de pontos de vista opostos, uma moda de humilhação pública e ostracismo, e a tendência para dissolver questões políticas complexas numa cega certeza moral”. A carta observa os efeitos da cultura do cancelamento nos meios académicos: “Editores são demitidos por publicarem peças controversas; livros são retirados por alegada inautenticidade; jornalistas são impedidos de escrever sobre certos tópicos; professores são investigados por citarem obras de literatura nas aulas; um investigador é demitido por fazer circular um estudo académico revisto por pares; e líderes de organizações são expulsos por aquilo que por vezes são apenas erros desajeitados. Quaisquer que sejam os argumentos em torno de cada incidente em particular, o resultado tem sido a redução constante dos limites do que pode ser dito sem ameaça de represálias.”

 

Não ao cancelamento

 

Paradigmático entre nós, em Portugal, é o caso de Boaventura de Sousa Santos, vítima de uma difamação formulada por ex-investigadoras do CES, caso que nunca foi julgado nem condenado a não ser nos meios de comunicação social, nas redes sociais, nas editoras e, estranhamente também, nas próprias Universidades.

A publicação dos emails trocados por Boaventura de Sousa Santos com as acusantes revela um relacionamento cordial entre todos elas com o acusado, e até uma data muito recente nalguns casos.  O recente  texto de Isabella Gonçalves  levanta-nos também, com muita lógica, a seguinte  dúvida: não terá o linchamento público de Boaventura de Sousa Santos muita  coisa  a ver com o seu posicionamento ideológico?  Pensamos que  sim.  E porque o pensamos defendemos o não cancelamento de Boaventura de Sousa  Santos  como se explica abaixo.

 

Contra o cancelamento de Boaventura de Sousa Santos

 

Boaventura de Sousa Santos é intelectual público conhecido nacional e internacionalmente. Desde há três anos é vítima de uma difamação. Nunca foi julgado nem condenado a não ser nos meios de comunicação social e nas redes sociais. Recentemente tornou públicos os documentos que provam a falsidade das acusações que contra ele fizeram ex-investigadoras do CES. A filósofa brasileira Marilena Chaui tomou forte posição pública contra essa difamação e consequente cancelamento (aqui). Na cuidadosa réplica de uma das denunciantes, que escreve associada ao chamado “Colectivo de Vítimas CES”, sugere-se que nem as denunciantes são santas, nem Boaventura de Sousa Santos é santo (aqui). Pois não. Porquê, então, a deliberada destruição da reputação e da saúde de um intelectual, cujo mérito esse mesmo texto se apressa a reconhecer?

Fora do Brasil, não parece que alguém se tenha disposto a ler os documentos e a falar publicamente no sentido de se começar a corrigir a injustiça que continua a ser feita. Em Portugal, a excepção é o economista Júlio Mota (aqui). Decerto porque são muitos e volumosos os documentos. Dezenas de trocas de são convívio académico entre Boaventura de Sousa Santos e as mulheres que o acusam. Acusações vagas e informais, de resto. Na justiça existe apenas uma queixa-crime por difamação que o próprio Boaventura de Sousa Santos interpôs contra as denunciantes.

É tempo de acabar com o silenciamento de Boaventura de Sousa Santos e de novo ouvir a sua voz.

 É tempo de pôr fim à sua morte civil.

É tempo de o voltar a ver participar na realidade nacional e internacional.

É tempo de ver publicados os novos livros que, entretanto, completou. Em Portugal, a sua editora, as Edições 70/Almedina, tem três manuscritos suspensos. Outros estão suspensos nos EUA e na Espanha.

É tempo de deixar de fazer de conta que Boaventura de Sousa Santos já não existe.

É tempo de rejeitar mobilizações contrárias, públicas ou não, às suas intervenções em eventos intelectuais, culturais, políticos, como aconteceu recentemente na Universidade de São Paulo. A este propósito, 23 académicas publicaram uma “Nota Crítica” sobre a “política do cancelamento” (aqui).

É tempo de acabar com tão pesado e injusto silenciamento de um grande intelectual que, apesar dos seus 84 anos, tem ainda muito a contribuir na luta pela democracia, pela justiça social e pela diversidade epistémica do mundo.

 

 

Assinam esta tomada de posição pública os seguintes subscritores do blog A Viagem dos Argonautas:

 

António Gomes Marques

António Oliveira 

Francisco Tavares

João Machado

José Almeida Serra 

José Fernando Magalhães

Júlio Mota

Júlio Gomes

Manuel Simões 

 

1 Comment

  1. Uma canalhice sem nome e visando destruir, reuduzindo-o ao nada, um dos nossos melhores e mais profícuos cidadãos. Um grande pensador e um grande escritor.
    Critico os/as denunciadoras, mas mais critico o ambiente social – sobretudo judicial e académico – que tal proporciona. Uma desgraça e uma vergonha, em suma uma desonra. Eu fugi da Universidade (fugir é o termo correto) em 1972 quando constatei a bandalheira em que o ISCEF havia caído; mas também paguei o pçreço. Paguei-o em outras areas e outras andanças.
    Um abraço grande e sincero ao Boaventura, que já não abraço há décadas.
    José de Almeida Serra

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