A Psicoterapia de Deus — Consulta de Acompanhamento. Por Carlos Pereira Martins

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A Psicoterapia de Deus — Consulta de Acompanhamento

(ou: “Criei o universo e agora não sei o que fazer com ele.”)

Por Carlos Pereira Martins

 

[CENA 1 — INTERIOR, MANHÃ — CONSULTÓRIO PSICOLÓGICO COM VISTA PARA O NADA (LITERALMENTE). HÁ UM DIVÃ BRANCO, UM BLOCO DE NOTAS FLUTUANTE, UMA PLANTA QUE EXISTE SÓ POR CONVENção, E UMA ENORME PRESENÇA INVISÍVEL QUE FALA EM ECO.]

Presentes: Deus (voz omnipotente, mas em modo vulnerável), a Terapeuta (uma senhora calma chamada Dra. Existência), e em videoconferência, dessas “aplicações” que utilizamos agora: Nietzsche, Simone de Beauvoir, e um gato (não se sabe se vivo ou morto).

 

CENA 1.1 — A CHEGADA

DRA. EXISTÊNCIA (com voz suave):

Bom dia, Deus. Como se sente hoje?

DEUS (ecoando, mas cabisbaixo):

Criei o espaço, o tempo, a vida, o mar, a luz, o glúten…quem seja alérgico que procure a minha criação sem glúten, também a criei !

E agora sinto-me… vazio.

DRA. EXISTÊNCIA:

Vazio como… “pré-Big Bang”?

DEUS:

Não… pior. Vazio como domingo à tarde sem futebol mas com consciência de eternidade.

 

CENA 1.2 — O DESABAFO

DEUS:

No início foi o Verbo.

Depois veio a criação.

Depois… começaram a fazer criptomoedas e  Tokens de golfinhos a fumar charutos.

Onde foi que falhei?

DRA. EXISTÊNCIA:

Talvez no livre-arbítrio?

DEUS:

Sim… isso foi um bug mal testado. Andava muito atarefado !

[SOM DE CONEXÃO — ENTRA NIETZSCHE POR VIDEOCONFERÊNCIA.]

NIETZSCHE:

Olá, sim, desculpem o atraso.

Estava morto.

Mas voltei para dizer: o universo está sem liderança. Está tudo à deriva num caos irónico. Por isso mesmo não se admirem nem critiquem a Europa…!

DEUS:
Obrigadinho. Sempre encorajador, Friedrich.

 

CENA 1.3 — TRAUMAS DIVINOS

DRA. EXISTÊNCIA:

E o que sente em relação aos seus filhos?

DEUS:
Depende. Os dinossauros? Amor eterno.

Os humanos? Têm potencial… mas continuam a fazer guerras em meu nome, uns aldrabões de Washington a Moscovo, passando por Kiev, por Bruxelas e pelo Médio Oriente.

Eu só queria que fizessem pão e partilhassem. Se tivessem arte, como eu e o Luís de Matos, que o multiplicassem.

Nunca pedi templos com Wi-Fi. Até entendo que computadores e telemóveis devem sempre ficar à entrada dos templos, junto às caixas das esmolas.

[SOM DE ENTRADA: SIMONE DE BEAUVOIR LIGA-SE À VIDEOCONFERÊNCIA.]

SIMONE:

Com licença, mas o problema talvez seja o patriarcado celestial.

A ideia de um “Deus-Homem-Pai-Barbudo” cria um desequilíbrio ontológico desde o Éden.

DEUS (pausa longa):

…eu queria parecer acolhedor.

Mas depois deram-me tronos, ceptros e… francamente, um visual muito difícil de gerir.

 

CENA 1.4 — A CRISE DE IDENTIDADE

DRA. EXISTÊNCIA:

E quem é Deus… sem ser “Deus”?

DEUS (silêncio prolongado):

Sou só…

Uma consciência com saudades do silêncio.

NIETZSCHE (aplaudindo):

Brilhante. Está quase a escrever poesia metafísica.

Mais duas sessões e vira existencialista.

 

CENA 1.5 — O GATO INTERVÉM

[DE REPENTE, UM GATO APARECE NA VIDEOCONFERÊNCIA. É SCHRÖDINGER’S CAT. ESTÁ NUMA CAIXA. OU NÃO.]

GATO:

Desculpem, mas será que alguém vai finalmente decidir se eu estou vivo ou morto?

DEUS:

Não fui eu que fiz esse quebra-cabeças, foi o Schrödinger.

Eu só criei os gatos. O resto é culpa da mecânica quântica.

 

CENA 1.6 — ACONSELHAMENTO FINAL

DRA. EXISTÊNCIA:

Talvez esteja a tentar controlar tudo… quando o seu papel é apenas observar.

Talvez até Deus precise de…

desistir de ser omnipotente para ser apenas… presente.

DEUS (voz mais serena):

Estar presente…

Sem julgar. Sem castigar.

Só… estar.

SIMONE:

Exactamente. Ser para o outro. Não acima, não fora. Com.

NIETZSCHE:

Olhem, eu critico Deus há séculos… mas até eu reconheço: o senhor precisa de férias.

DEUS:

Férias.

Sim…

Vou tirar um tempo.

Deixar os humanos resolverem isto sozinhos por um bocadinho.

Na verdade, já fiz isso há milénios. Chamam-lhe “livre-arbítrio”. Ninguém notou.

 

EPÍLOGO (voz off de Schrödinger’s Cat):

“Se até Deus tem crises existenciais, talvez não estejas assim tão mal.

Só não cries universos numa tarde de domingo. Dá asneira.”

 

MORAL DO EPISÓDIO:

O universo pode ter começado com um Big Bang.

Mas às vezes, o que ele mais precisa…

…é de um bom divã e alguém que o ouça sem tentar rezar.

 

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