CARTA DE BRAGA – “Pensionópolis, a cidade dos reformados” por António Oliveira

Agora que, até em Bruxelas, se volta a falar das pensões, lembro-me de aqui há uns tempos, ter sido atraído por um título bem apelativo num jornal daqui ao lado, quase a encher o ecrã do computador, ‘Pensionópolis’. Abri, fui ler, e o articulista escrevia ‘ser apenas a ideia de uma cidade organizada em torno de pensionistas; uma espécie de comunidade de pessoas que poderiam ali viver o seu tempo de aposentação, sem se dedicarem a tarefas que não querem nem beneficiam, ‘além do rendimento de subsistência e algum conforto, resultante do que fizeram durante uma longa parte das suas vidas’.

E acrescentava o articulista valer a pena tentar por tal ideia em execução, mas só para as pessoas que estivessem desapegadas dos meios e processos de reprodução de dinheiro (não de valor!), por terem tido a possibilidade de trabalhar para um mundo mais sábio, mais ético e mais estético, pois moralidade, beleza e sabedoria, não combinarem bem com o dinheiro e seus ‘demónios’.

E terminava com uma afirmação com muito para pensar, ‘A transferência do controle do privado, para ser transformado em uma arma de destruição em massa pelos senhores do poder, ocorreu como qualquer outro acto de pilhagem e desapropriação, por meio da intimidação’, lembrando ainda, e apelando à História, ‘Os cidadãos helénicos não participavam da esfera pública, por terem recebido um qualquer prémio, mas por poderem demonstrar um controle harmonioso na vida privada, sem ter que recorrer ao engano, ao roubo ou ao crime’.

Na verdade, a aposentação de uma realidade com base na suficiência da vida privada, permite e concede o direito de a esquecer só como força de trabalho, mas nunca como ser humano e cidadão, pois envelhecer é o último desafio a que, julgamos e acreditamos, ter direito na vida.

Porque, de repente, com mais ou menos anos já vividos, se tem a sensação de o tempo andar e passar com enorme velocidade, como se tivéssemos sido deixados para trás e, ainda por cima, precisamos de ‘perder’ mais tempo do que antes, para fazer qualquer coisa, apenas uma só, porque a arte e o jeito estão a ficar presos entre os dedos, que até estalam quando os esticamos.

Não é fácil explicar tudo isto, mas socorro-me de um antigo, Edgar Morin, actualmente com 104 anos, que propôs na ‘Revista Prosa, Verso e Arte’ já no ano de 2022, ‘É preciso ensinar a compreensão humana, porque é um mal do qual todos sofrem em graus diferentes. Porque em todo destino humano há uma incerteza desde o nascimento. A única certeza é a morte e não sabemos quando. Mas, é claro que estamos em meio, não apenas das incertezas que chamaria normais, da saúde, casamento, trabalho, mas também uma incerteza histórica impressionante. No fundo, os humanos são tratados como objectos’.

Com efeito, diz também Roberto Aramayo no ‘Nueva Tribuna’ de 7 de Julho passado, ‘Numa sociedade distorcida pelo consumo e pela produtividade por peça, você é um obstáculo. Você não é mais lucrativo no trabalho, e as suas pequenas batalhas não interessam a ninguém, porque você também se repete como alho, é cansativo até para si mesmo, que se cansa de tudo, por já ser previsível’.

O escritor e colunista Manuel Vicent, olha para tudo isto e nós todos, de maneira diferente e mais real, ‘Deus criou o tempo, mas deixou que criássemos as horas; e o padeiro durante uma hora fez um pão estaladiço e perfumado no seu forno de lenha. Uma professora afirmou um dia: Deus criou o tempo, mas deixou que durante uma hora de aula, abrisse a cabeça aos seus alunos, e lhes traçasse no quadro, o caminho até à Ilha do Tesouro’.

Por que não, uma comunidade com gente assim, sem os coleccionadores de dinheiros que todos os dias nos enchem as páginas dos media pois e, ainda Edgar Morin, ‘Hoje, com o domínio ajustado do poder e do dinheiro, com o domínio do mundo burocrático, é tudo o reino da barbárie gelada. Se preferir, é preciso repensar a política, e nós ainda estamos na pré-história desse momento’.

Gente boa para aquela cidade-comunidade dos pensionistas! Talvez assim aprendêssemos também a mudar a nossa maneira de ser, de falar e conviver, ou seria a cidade do ‘eu pensei’, do ‘eu fui’ e do ‘eu fiz’…

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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