CARTA DE BRAGA -“da riqueza, da morte e da pobreza” por António Oliveira

 

Por muito que me custe, tenho de escrever, uma vez mais, sobre o sujeito que habita na capital dos states (espero que por pouco tempo), na Casa a que quer anexar um salão de baile. Um sujeito que deu origem a manifestações com mais de sete milhões de habitantes, por se negarem a ser seus súbditos, e se passearam pelas ruas das maiores cidades sob o lema ‘No Kings’. Mas também inscreveu na sua lista de inimigos pessoais os directores e jornalistas de 10 importantes órgãos de comunicação entre os quais se contam o ‘The New York Times’, ‘The Wall Street Journal’, ‘The Atlantic’ uma das revistas mais prestigiadas, o canal ‘Bloomberg’, os jornalistas e colunistas Michael Wolff e David Remick, director também do semanário ‘New Yorker’, este dirigido mormente a um público, cultural, crítico e plural. Está tramado quem não lhe apara o jogo!

Mas, na verdade, quer ser um rei real numa república, pois o ‘Diario.es’ daqui ao lado, noticiou no dia 23 do passado mês, ‘Trumpa exige 230 milhões de dólares ao governo que ele mesmo preside’, fazendo ao mesmo tempo de acusação, de juiz e de réu, um feito que suponho nunca ninguém teve a ‘lata’ de protagonizar pois, diz ele, o governo federal deve-lhe muito dinheiro por investigações anteriores do Departamento de Justiça sobre si mesmo e, insistiu ainda, será dele a palavra final, uma vez que ‘Qualquer decisão terá que passar pelo meu escritório’.

Juan Colombato, Trump mais rico

El País’, 25.1013

E a propósito do tal anexo, o tal sujeito vai mandar construir um grande salão de baile de 8.360 metros quadrados no espaço da derrubada Ala Leste da Casa Branca. Será um espaço para celebrar as suas vitórias e, temo bem, as nossas derrotas. Após o desastre da auto candidatura ao Prémio Nobel da Paz, pelo fracasso dos seus ‘planos de paz’ para a Ucrânia e Palestina, também aumentam os bombardeamentos de Israel, no ‘campo de concentração ao vivo e a cores via tv’s’, que nunca o resto do mundo tentou também acabar, apesar das ruínas, dos milhares de mortos e feridos, da ajuda de todos os tipos, bloqueada pelo ocupante, a quem ele nunca negou ajuda.

E a reforçar esta ideia, há alguns dias que o mundo parece ter entrado em ebulição. Não vou citar aqui as mais de 130 mortes no Rio de Janeiro, numa operação policial contra as organizações criminosas que por ali pululam, nem sequer o tufão Melissa que atravessou a Jamaica com ventos próximos dos 300 kms/hora e chuvas a rondar os 1.000 litros por metro quadrado, mas o retorno dos bombardeamentos israelitas em Gaza, com Netanyahu a inventar uma desculpa para o fazer (ataques imediatos e poderosos, mais de 100 mortos ‘46 crianças’, de terça para quarta feira), devido a uma troca de tiros entre soldados, mas sem se ter a certeza de ter sido o Hamas, que o nega. Mas, diz Pérez Oliva no ‘El País’ do dia 30, para Netanyahu a paz era só isto, ‘Uma rendição sem condições nem garantias’.

Por tudo isso, afirma Sato Díaz, colunista e coordenador da secção Políticas do ‘Publico’, também daqui ao lado, ‘Vivemos num mundo construído ao som de tambores de guerra. A morte está cada vez mais na política quotidiana, a da necropolítica. Necropolítica de guerra, necropolítica genocida, necropolítica nas fronteiras, necropolítica nos sistemas de saúde pública cada vez mais precários, necropolítica na pobreza, necropolítica nas consequências devastadoras das mudanças climáticas’.

Temo também (já aqui o disse algumas vezes), por estes serem tempos que muito se assemelham aos dos anos vinte e trinta do século passado, e suas trágicas consequências, mas temo ainda mais o avanço tecnológico, aliado ao drama da incultura a que assistimos diariamente, tanto a nível nacional como internacional, onde as coisas com mais de dois dias já são história, aquela disciplina das Humanidades que só fala de gente que já nem há, e de coisas que já nem interessam.

Mas, para nos incomodar ainda mais, o tal sujeito fala aberta e frequentemente da política como um negócio, como ser a Europa a comprar aos states a ajuda que ele ‘irá dar’ a Zelensky, como do ‘projecto turístico’ que imaginou para a Faixa de Gaza, por actuar sempre como um magnate, uma pessoa poderosa no mundo das finanças e da política, que nunca faz uma anuência, só ‘negoceia’ um acordo, uma visão empresarial da política, afastando qualquer outra interpretação, tanto social, como humanística ou cultural.

Vêm a calhar aqui, os trabalhos de Olivier de Schutter, o Relator Especial da ONU sobre Pobreza Extrema e Direitos Humanos, que até chama aos ataques de Israel à Faixa de Gaza ‘genocídio’. Mas para além de Gaza, Schutter diz haver possibilidades de os mais de 800 milhões de pessoas que vivem com menos de 1,83 euros por dia, poderem vir a melhorar as suas condições de vida.

Tudo passa por haver vontade política global, patrocinada pelas Nações Unidas, para tributar bilionários e mais outras medidas como tributar a aviação, a navegação e transacções financeiras, para fornecer segurança económica às populações, frente a riscos de vida, desemprego, invalidez, doença ou pagamentos de pensões. O custo seria, diz Schutter ao ‘El País’ do passado dia 25, de cerca de 263.417 milhões de euros por ano, para fornecer um apoio básico aos 26 países mais pobres, o dobro da Ajuda Oficial ao Desenvolvimento de 2019, ‘Inaceitável apenas para eles, mas bom para a comunidade internacional. O dinheiro está lá. Há falta de vontade política. E é o melhor investimento que podemos fazer’.

Falando depois sobre o que se está a verificar no mundo ocidental, e das razões que levam milhares e milhares de pessoas a não conseguir sair nem escapar da pobreza, Schutter usa apenas uma palavra, ‘descriminação’, que aponta como situação real, nunca como experiência subjectiva.

É um obstáculo ao acesso ao emprego, à habitação, à educação ou à protecção social. Se uma empresa não o contrata por estar desempregado há muito tempo, ou por não ter o sotaque certo, nem bons dentes, ou por não dominar certos códigos culturais ou sociais, já está em desvantagem. Se um proprietário não quiser alugar para quem depende de benefícios sociais ou tem rendimento irregular, é mais um obstáculo. E se os pobres são humilhados quando solicitam benefícios sociais, muitos nem sequer vão reivindicar os seus direitos. A aporofobia não é apenas injusta: é um obstáculo estrutural para sair da pobreza’.

Ouvi há algumas noites atrás na ‘Antena 2’ e no programa ‘A Fuga da Arte’, o radialista Ricardo Saló dizer uma frase que creio ter transcrito como deve ser: trata-se apenas de uma parte da introdução de Luís Fernando Veríssimo a textos de Camilo, ‘Quando até o arco-íris já esteve mais longe de ser transmitido a preto e branco, pensamentos positivos e corações ao alto, parecem uma boa estratégia para preservar a saúde mental, para que tudo corra bem, e temos sempre mestres do ofício ao nosso lado’.

E haverá mestres com ofício para tantas questões?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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