Cada vez tenho mais dificuldade em me situar politicamente neste mundo em que vivemos, pela quantidade e qualidade de esdrúxulos (a precisar mesmo de acento!), que por aí pululam e até comandam as diferentes orientações políticas, hoje a determinar os caminhos do pensamento devido em tal arte, se a política for considerada como tal, pelos tais esdrúxulos que a interpretam; todos os dias há mais uns grãos a pesar na balança de incerteza, pois ‘se num lado chove, no outro troveja’ como se dizia in illo tempore.
E por me ter lembrado desta expressão na nossa língua mãe, também me devia ter lembrado de uma outra que até tive necessidade de apontar, e li algures numa poesia traduzida de Públio Terêncio Africano, poeta e dramaturgo cartaginês e romano do séc. II a.C., onde e afirmava ‘Homo sum, et humani nihil a me alienum’ e, por ter escrito também a tradução (Sou humano, e nada humano é estranho para mim).
Confesso e repito sinceramente, como humano, ter cada vez mais dificuldade em não deixar de ficar abismado e, por vezes, aterrorizado, com o comportamento de tais esdrúxulos (que Públio Terêncio diz humanos), a ver pelos comentários de gente que todos conhecem, e que têm enchido as primeiras páginas de jornais e serviços noticiosos em tudo quando é lado.
O comentador e ex-director do ‘La Vanguardia’, Lluís Foix, escreveu a 22 do mês passado, ‘Eric Hobsbawm, o historiador britânico descreve na sua obra ‘A era dos extremos’, como o séc. XX foi marcado pelo choque entre fascismo e comunismo, guerras mundiais e reconstruções forçadas em tempos de paz. Hoje, três décadas após esse diagnóstico, a Europa parece estar entrando em uma segunda era de extremos’. Só lhes falta estarem militarizados, mas Netanyahu desempenha bem esse papel; e mais acrescenta ‘A centralidade na Europa funciona como um método de contenção de extremos, e não como uma ideologia única e homogénea’.
Apesar da crítica que estas palavras contêm, a jornalista Anne Applebaum, numa entrevista ao DN a 17 também do mês passado, não tem pejo em afirmar ‘Trump demonstrou que uma parte importante da sociedade americana não gosta nem se preocupa com a Europa’, acrescentando ainda ‘Ele está aliado a empresas tecnológicas que, possivelmente, estão interessadas em mudar a política europeia e, certamente interessadas, em utilizar todo o poder político que possuem, para impedir qualquer tipo de regulação’, de tal maneira que os europeus já foram avisados por duas vezes, ‘que há uma parte muito importante da América que já não os considera aliados’.
E, até por mais me ver outra vez, forçado pelas circunstâncias, a escrever sobre o sujeito da Casa Branca, prefiro usar as palavras do médico e escritor Alberto Soler Montagud, como escreveu no ‘Nueva Tribuna’, também no dia 17, um comentário sob o título ‘Trump, o bufão que queria ser um império’, onde afirma, ‘Contemple-o e verá como só resta o homem nu, a caricatura de um incorporador imobiliário com alma de charlatão. Tudo nele é impostura, começando com seu bronzeado químico, e continuando com o cabelo de fabrico incerto, sorriso de vendedor de caixões e discurso de patriota de equilíbrio’.
Aliás, no passado domingo dia 2, uma estação de rádio começava o noticiário das 8 horas da manhã, desta maneira, ‘Enquanto milhares de funcionários públicos fazem fila nos bancos de alimentos, Trump gaba-se da última reforma na Casa Branca:o restauro da casa de banho Lincoln, remodelada com mármore estatuário polido com perfeição’. Nesse mesmo dia o ‘New York Times’ publica, ‘Enquanto os efeitos da não aprovação do orçamento pioram, as filas crescem nos centros de caridade, e Trump fez a festa do Halloween, na residência presidencial’.
Acredito também que tudo isto é possível num país onde ‘Já existem mais de 16.000 proibições de livros, de acordo com a PEN América, uma organização de liberdade de expressão que junta e anota os títulos que são retirados ou restritos nas escolas em cada ano. No ano lectivo de 2023-2024, mais de 10.000 proibições foram realizadas, afectando um total de 4.000 livros’. Um dos títulos que mais recebeu proibições foi a distopia de Margaret Atwood, ‘The Handmaid’s Tale’, que imagina uma América transformada numa ultraconservadora teocracia cristã.
É óbvio que um panorama como este, teria de haver reacções de grandes nomes do mundo da cultura, como o actor Michael Douglas nos primeiros dias de Julho, afirmou à Yahoonews, ‘Não tenho intenção de voltar a actuar, o idealismo americano não existe mais. Vejo isso como quão preciosa e vulnerável é a democracia, e de como precisa ser sempre protegida. A política parece estar agora voltada para o lucro’.
Harrison Ford é muito mais duro e, fala daquele sujeito na ‘Cadena Ser’, no passado dia 1, ‘Ele está a ganhar dinheiro enquanto o mundo se deteriora’ e. numa entrevista ao ‘The Guardian’, salienta que ‘não conhece um criminoso maior do que o presidente dos EUA’. Adiante ainda que o segundo mandato de Trump o assusta realmente, porque a atitude ‘arrogante e pérfida’ do presidente está associada à ‘ignorância’ e ao uso de múltiplas ‘mentiras’ durante todas as suas declarações.
Não quero deixar de citar o jornalista e escritor norte-americano Tom Wolfe, abalado já em Maio de 2018, por ter dito uma vez, perante todas as coisas que lhe iam apontando, e que ele também ia transmitindo, ‘Não digam à minha mãe que sou jornalista; ela pensa que sou pianista de bordel’.
Tudo é estranho e possível, lá nos states!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor