CARTA DE BRAGA – “estórias fantásticas, ‘tiradas’ da História comum” por António Oliveira

Mais um conjunto das minhas estoriazinhas, mas a partir de uma quase certeza, ‘Somos primatas e violentos, mas os únicos capazes de se reconciliarem’, afirma peremptoriamente Marta M. Lahr, paleoantropóloga e Directora do Laboratório Duckworth da Universidade de Cambridge, mas não se esquecendo de salientar, ‘Temo também que sejamos violentos desde que somos humanos’.

Estas afirmações não nascem dos terríveis problemas, destruições e chacinas que temos oportunidade de ver (até em directo!), de ouvir e ler em qualquer dos media razoavelmente actualizado, mas por a investigadora explicar ter chegado a estas conclusões por casualidade, ao analisar uns fósseis bem antigos, com mais de 10.000 anos, e com sinais de terem sido vítimas de um massacre:Será uma evidência mais, a favor dos que pensam que a violência é inata nos humanos, contra aqueles que crêem nos massacres planificados, mas muitos anos mais tarde, com o início da agricultura e, com ela, da propriedade privada. Criou-se uma hierarquia social, a do caçador primitivo e nómada, mas igualitário, e a do agricultor pastor, hierárquico e desigual, mas culto’.

O advogado ensaísta e escritor francês Jean de La Bruyère, (1645-1696), também pensava assim, ‘A guerra tem ligada a ela a antiguidade, esteve em todos os séculos, encheu o mundo de viúvas e de órfãos. Em todos os tempos, os homens lutaram por um pedaço de terra e, para imporem as suas ideias, inventaram regras chamaram “arte militar”; depois ligaram a essa prática, a glória e uma sólida reputação e, da injustiça dos primeiros homens, nasceu a guerra’.

Mas o Tempo, esse grande inimigo dos autocratas e ditadores, por ser a única coisa que não conseguem dominar, até nem existe, escreve o jornalista e escritor Manuel Vicent, ‘El tiempo son solo las cosas que nos pasan’ e, agora traduzido por mim, ‘Deus criou o tempo, mas Otis Redding, sentado no molhe da baía, deixou que transcorressem as horas a ver entrar e sair os barcos. Deus criou o tempo, mas Hamlet, em apenas uma hora, pôde comentar entre o ser e o não ser. Deus criou o tempo, mas Gary Cooper em “O combóio apitou três vezes”, passou uma hora fatídica frente ao relógio da estação, para enfrentar o perigo sozinho, e Einstein demonstrou que a eternidade está incluída numa hora só, a mesma que até pode fazer de um qualquer, um imortal’.

Para o poeta brasileiro Mário Quintana, a Vida e o Tempo podem ser olhados de outra forma:

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são seis horas!

Quando se vê, já é sexta-feira!

Quando se vê, já é natal…

Quando se vê, já terminou o ano…

Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.

Quando se vê, passaram 50 anos!

Agora é tarde demais para ser reprovado…

Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.

Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas…

Oportunidade que a vida parece negar a Ford Francis Coppola, o premiado realizador de ‘O Padrinho’ e ‘Apocalipse Now’. Propôs-se a realização de ‘Megalópolis’, um projecto ambicioso a mostrar os states em risco de desaparecerem, por culpa dos maus políticos. Projecto com base no diferendo entre Cícero e Catilina, duas conhecidas figuras da Roma antiga, e que poderia ali acontecer agora, pois ‘A conspiração de Catilina, poderia ter lugar na América moderna em vez de ser na antiga Roma’. A figura feminina cita Marco Aurélio e fala latim, a masculina cita Shakespeare, e diz termos sido feitos da mesma matéria dos sonhos, (mas os patrões, agora falam e pensam tecno!), digo eu.

O veterano realizador (oitenta e seis anos), amparado pelos seus triunfos, acrescentou ainda (já lá vão algumas semanas) mas a contragosto, ‘Muitas coisas estão a desaparecer; o jornalismo está a desaparecer, da mesma maneira que o sistema de cinema de estúdios e, com ele, estamos a acabar com uma arte formosa. Creio que já não sou muito popular no sistema de Hollywood. Foi Hollywood que me criou, mas já não me quer’, devido aos comentários que, uma vez mais, criticam os seus excessos.

Viajei, viajámos 10.000 anos neste pequeno texto, ‘parido’ sem pressão do tempo, há já uns tempos atrás, porque o Tempo não existe! É apenas a totalidade das coisas que nos passam e, por isso, nem damos conta de ele passar quando não nos passa nada, mas o texto fica sempre, mesmo a pontapear, a tal casca inútil das horas, como acabei de fazer com estes escritos!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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