CANÇÃO DE NATAL por Adão Cruz

CANÇÃO DE NATAL

por Adão Cruz

 

Pintura de Adão Cruz

Vésperas do Santo Natal. O frio enrugava os ossos, a Rua de Santa Catarina era um rio de gente, um rio de águas desencontradas sem destino nem rumo, umas correndo para baixo outras para cima e mesmo para os lados, se algum dia se viu! Gente por cima, gente por baixo, gente saindo e entrando não se sabe bem onde, tanta porta aberta tanta porta fechada, não se sabe ao certo. Pessoas em cima de gente, embrulhadas em pessoas e sacos e mais gente e mais sacos, pendurados nas mãos nos ombros, no pescoço, nas orelhas, nos olhos.

Uma velha andrajosa, suja e gorda, de doença seria a gordura e não da fartura! Uma provável anasarca cardíaca que faz do doente uma espécie de boneco Michelin rebentando de inchaços. Uma velha gorda, excrescente tumoral, de trapos seria a gordura também! O frio enroscara-lhe o corpo com todos os farrapos do lixo. Uma velha feia tentava subir a rua por entre a multidão limpa. Com grande agonia, arrastava pelo chão puxada por um cordel uma caixa de papelão, que dentro continha outras caixas e restos de caixas e mais papelão, provavelmente toda a sua mobília que haveria de montar nesse arrastado andar, lá para o meio da noite, no vão de uma porta muito acima do 575, mais fora dos olhos dos enxotadores de pobres.

A velha, cuja idade lhe mirraria as carnes se os inchaços se escoassem, não ia bem-disposta nem dava ideia de estar bem no meio daquele mar de gente, antes de tudo sentia-se afogar, não era inveja dos sacos nem dos cheiros nem dos casacos nem do luxo (sabia lá ela o que era o luxo!), importava-se lá ela com todo o papelão dos outros, todo o papelão que ia dentro daquele mundo de sacos! Ela só queria o seu papelão e que não estorvassem os seus bocados de passos, que juntos não dariam mais passos do que dez à hora. Ela só queria que toda aquela gente ali parida pelo diabo a não impedisse de arrastar a sua casa. Então praguejava bem alto: vão todos pró caralho, vão-se todos foder. (Ouvia-se como música de fundo um lindo cântico de Natal…). Filhos da puta, deixai-me passar. Dois putos atiçaram a velha: vai-te foder tu velha ranhosa, ao mesmo tempo que ironizavam à gargalhada: avariou-se o mercedes à gaja! A velha não se agastou mais do que já vinha, estava treinada na cena para não perder energias com a inutilidade de erguer a voz e ripostou num grunhido cavo: vai levar no cu paneleiro de merda.

A melodia de Natal escorria pelos ouvidos cheios de sacos de paz e harmonia. Já quase exausta, com voz mais cava a velha dizia: deixai-me passar bandalhos.

Lá em cima, Deus não deve ter levado a mal. Como reza o Divino Testamento, dos pobres é o reino dos Céus. Em breve ela estaria com Ele para usufruir da eterna justiça… e na altura devida Ele lhe daria com ternura um puxãozito de orelhas pelos palavrões. Deus não é bandalho.

 

 

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