Manel Pérez, Assistente Direcção ‘La Vanguardia’, pergunta na primeira página do diário do passado domingo, ‘O que fez a Europa a Trump para merecer isto?’, mas logo adianta como comentário, ‘É preciso encontrar uma explicação para a mudança repentina de opinião de Trump, além de sua inconstância egocêntrica: hoje pode pensar uma coisa, amanhã o oposto, e depois de amanhã ambas ao mesmo tempo, por ser difícil aceitar que os americanos concordem em dividir o mundo com a Rússia e a China’.
E que mal fiz eu e todos aqueles que se atrevem a dar opinião baseada em gente credível e respeitada, para que, Carta sim e Carta não, me ver obrigado a escrever sobre trumpa, mas a Europa parece agora estar no centro da tudo e, depois da chegada do sujeito ao poder, ‘Poderia ser o ódio à Europa, porque a relativa fraqueza dos states, impõe prosseguir a ofensiva faseada no plano para renovar a hegemonia global. E, nesse cenário, a Europa poderia ser uma etapa intermediária administrável, um alvo mais fácil’, diz ainda Manuel Pérez.
Licenciado em Direito e em História, jornalista e colunista de prestígio internacional na área da economia e temas europeus, Xavier Vidal-Folch, escreveu há meia dúzia de dias no ‘El País’, ‘Em cada dia que passa, a União Europeia desloca-se cada vez mais para a direita, não só para a conservadora, mas para a direita abertamente reaccionária, como se vê com o tratamento dado à imigração, e poderemos dizer em cada um desses dias… ainda ontem… ainda hoje…’.
E, a partir do passado dia 9, a Europa dificultou ainda mais a entrada de emigrantes e pedidos de asilo, assim como se permitiram detenções por tempo indeterminado, da mesma maneira que os governos poderão efectuar deportações para países terceiros, o mesmo que a italiana Meloni, também quis fazer para a Albânia.
Mas Vidal-Folch vai mais longe: ‘Tudo porque a maioria dos governos europeus é de direita e também porque alguns social-democratas, como a Dinamarca, apoiam o racismo contra imigrantes, como pretexto para tais acções. Mas, acima de tudo, por Trump exercer uma pressão extraordinária e altamente prejudicial em todo o mundo, inclusive na Europa’.
O também colunista e ex-director do ‘La Vanguardia’, Mário Carol, ‘Trump não se importa com os direitos fundamentais, considera que a União Europeia foi formada para ‘prejudicar’ os states, e não gosta de uma Europa liberal e solidária. Só a vê como a sanguessuga que suga os recursos dos americanos. E, como até acredita nas próprias mentiras, decidiu que os europeus, já não somos seus aliados, mas os seus parasitas’.
‘Para onde vais Europa’
Blog ‘Entre as brumas da memória’, 25.08.02
Voltando ainda a Manel Pérez, talvez haja mais uma ‘dica’ para justificar tanta aldrabice e jogadas com cartas marcadas, ‘No caso de Trump, a motivação principal é económica; no caso dos grupos europeus de extrema-direita, é o nacionalismo. É fácil imaginar o que aconteceria às regulamentações europeias, se esses poderes fossem transferidos para os estados individuais. Nada!!! A resistência dos estados individuais seria facilmente superada! E esse é o objectivo central das multinacionais americanas por trás da ofensiva trumpista!’
O comentarista político Adolfo Piñedo, escreveu há dias no ‘Nueva Tribuna’, um artigo subordinado ao título ‘A catástrofe que nos ameaça’, acrescentando como subtítulo, ‘É possível que a onda da extrema-direita nos engula em breve. Estamos cientes disso’. Mas Piñedo vai mais longe, mostrando estar bem consciente das variadas implicações deste problema, ‘A hostilidade à UE não se deve ao fato de estarmos destruindo a civilização europeia, mas sim por possuir um tipo diferente de capitalismo, caracterizado pela regulação de mercado e pelo bem-estar social. O objectivo é destruir isso tudo e, consequentemente, a democracia. Como afirmou já um dos tecno-oligarcas, existe uma crescente incompatibilidade entre o novo capitalismo emergente e a democracia’.
E o historiador holandês Rutger Bregman, convidado este ano para as ‘Palestras Reith’, uma série de palestras transmitidas pela BBC desde 1948, e que teve palestrantes que vão de Bertrand Russel a Stephen Hawking, garantiu ali ‘Hoje, a grande batalha é sobre a substituição do neoliberalismo. Estamos a caminho de algo verdadeiramente sombrio’.
Foi o tema base do conjunto das suas quatro palestras, com o título ‘A Revolução Moral’; a ideia que prevaleceu depois, pode também ser encarada, como validação das palavras de Piñedo, embora nada tenham a ver um com o outro, ‘A ameaça à democracia é muito séria neste momento. E assim como os estudiosos de genocídio conseguiram identificar claramente o que aconteceu em Gaza, os estudiosos do fascismo conseguem identificar claramente o que está acontecendo nos EUA. Já vimos isso antes na história, e está acontecendo agora’.
E a terminar como comecei, volto a Manel Pérez, ‘Para que isso aconteça, muita coisa precisa mudar na Europa, a começar pela afectação dos fundos públicos, desviando-os dos gastos sociais num estado de bem-estar social. E é aí que entram os amigos da extrema-direita, esses servos leais’, e isso poderá levantar uma mancheia de problemas que nem três trumpas conseguirão resolver!
António M. Oliveira
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