CARTA DE BRAGA – “da maquilhagem e da Cultura” por António Oliveira

Começo esta Carta com uma frase da nova estratégia de segurança nacional dos EUA, divulgada em Dezembro passado, e hoje, dia 4 de Jnaeiro, publicada ‘Le Monde’, como explicação do que aconteceu ontem na Venezuela– A influência desproporcional de nações maiores, mais ricas e mais poderosas é uma verdade atemporal das relações internacionais.

Pensa o diário francês, e acredito eu, que tal ‘influência desproporcional’ é a explicação por que o trumpa se decidiu por aquele golpe, claramente contrário a todos os princípios do direito internacional.

John Lee Anderson, o conhecido colunista de publicações internacionais a começar pelo ‘New York Times’, afirmou ontem, sábado, à ‘Cadena Ser’, ‘Trump e Putin querem o Ocidente e o Oriente só para eles. Depois de activar a Doutrina Monroe, esperava-se qualquer coisa como isto, porque a Venezuela tem o maior ‘depósito’ de petróleo do mundo. É só isto que lhe interessa, embora nestas coisas nunca se saber o que vem depois, normalmente bem diferente do que pensaram os que fizeram tudo; mas há ali gente eleita democraticamente e não sabemos como tudo se irá desenrolar’.

E à mesma emissora, a vice-presidente Delcy Rodriguez, afirma também ‘A Venezuela não será ‘colónia’ de ninguém, o povo está indignado com o sequestro ilegal do presidente e da esposa, e todo o país está mobilizado’. Mas não deixa de salientar a seguir, ‘A Venezuela está muito consciente de seus hidrocarbonetos e da importância de seus recursos energéticos’ e tem o cuidado de avisar ainda ‘O que fizeram à Venezuela hoje, poderiam fazer a qualquer um’.

Talvez seja bom recordar a Doutrina Monroe, recorrentemente chamada a estes temas, aquela que o presidente James Monroe, anunciou ao Congresso em 1823, onde resumidamente, se dizia ‘Não haverá novas colónias na América, não haverá intervenção nos assuntos internos dos países americanos, nem intervenção dos EUA nos assuntos entre os países europeus e as suas colónias’.

Só que agora, escreve Leonídio Ferreira no DN de ontem, dia 3, ‘Estamos perante o ‘Corolário Trump’, cujo impacto promete ser grande, e sentir-se além das fronteiras da Venezuela, basta pensar na preocupação na Colômbia. Portugal está também preocupado, pois há centenas de milhares de portugueses e luso-descendentes na Venezuela, a pensar como será o pós-Maduro’.

São muitas e variadas as opiniões e também os temores que se notam na imprensa mundial, mas permito-me salientar a de Pedro Barragán, economista e consultor da Fundação Cátedra da China, saída ainda ontem, dia 3, no diário ‘Pulico.es’, não só pelos conhecimentos, mas também pelas suas ligações; e Barragán salienta, ‘Os Estados Unidos decidiram agir como juiz, júri e executor, arrogando-se o direito de derrubar, capturar ou punir governos que não se submetem à sua agenda. Esse comportamento mina o direito internacional e o torna sem sentido; o economista diz ainda ‘O que ocorreu foi um ataque criminoso, perpetrado pela maior potência militar do mundo contra um país enfraquecido por anos de sanções, cerco económico e isolamento diplomático. Um ataque que coloca em risco milhões de civis e confirma, mais uma vez, que o discurso dos Estados Unidos sobre o respeito ao direito internacional, não passa de retórica vazia’.

Uma preocupação que ontem e hoje tive oportunidade de ler, ver e ouvir em sites diversos, e que me deixa a impressão destas políticas de predador poderem ser adoptadas por outros agentes e noutros lugares porque, escreveu Isaac Asimov há já algumas dezenas de anos, ‘A violência é o último refúgio dos incompetentes; aqui houve gente dessa, espaço e tempo para isso, mas tudo leva a crer que poderá haver ainda muita e muitos mais, mas é desmoralizador ver o trumpa a actuar como se fosse o xerife do oeste cá do planeta, a mobilizar uma caterva de voluntários para pôr ordem no condado, capaz de fazer o que bem entender ao mobilizar as suas tropas. No passado, tais acções exigiam como agora, um concerto de tiros e uma cavalgada a condizer; não houve cavalos, mas houve aviões e tanques, porque os tempos são outros e até o xerife fala mais grosso.

Reportando-me às palavras do jornalista e ensaísta norte-americano Robert D. Kaplan no DN do dia último do ano, sobre possíveis enfrentamentos, ‘Os Estados Unidos, a China e o Japão são as maiores economias. Teríamos uma guerra sobre as redes de abastecimento, as redes de abastecimento mais importantes. Teríamos uma guerra sobre as principais rotas marítimas de comércio. No Mar do Sul da China e Taiwan’.

Não quero desenvolver mais as suas reflexões, mas não deixo de acrescentar uma outra, por a todos nos dizer respeito directamente, ‘Na Europa é tudo conversa. É tudo conversa, palmadinhas nas costas, e promessas de fazer mais. Mas quando olhamos o que estão a gastar e o que estão a construir, os europeus não tiveram, de forma nenhuma, uma resposta ao desafio da Rússia. Isto acontece numa altura em que a Guerra da Ucrânia vai quase em quatro anos’.

E ontem, dia 3, o bem conhecido escritor Javier Cercas, ateu e anticlerical, que viajou com o Papa Francisco até à Mongólia e que ganhou o Prémio do Livro Europeu 2025, com o livro ‘O Louco de Deus no Fim do Mundo’, escreveu no ‘El País’, ‘Não sabíamos, mas agora tudo indica que um dos próximos alvos da Rússia será a EU, ou seja, seremos nós. O que eu não vejo, simplesmente não quero ver: uma guerra entre democracia e autocracia sendo travada no mundo (especialmente no Ocidente, especialmente na Europa)’.

Nesta Europa que Eduardo Lourenço tão bem define em ‘Montaigne ou a vida escrita’. Ali escreve e salienta o que a pode distinguir de tantos lugares onde vivem os ‘senhores’ do mundo atrás referidos, ‘O que distinguiu a Europa foi, não apenas a maneira particular de ser cultura, mas a invenção mesma da atitude e da realidade da Cultura, como domínio autónomo. Na história da humanidade, os europeus podem não ter sido os mais sábios, nem os mais fortes, nem os mais ricos. Mas foram e creio que o são ainda, certamente os mais loucos, os mais loucos, precisamente, de Cultura’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

1 Comment

  1. É VERDADE QUE O ESTADO DE PORTUGAL APOIA ESTA BARBARIE ESTADUNIDENSE?

    Há aloprados entrando pelo jardim. Os aloprados se aproximam de nossa casa.
    Quando há aloprados na casa do vizinho, no jardim, grande chance de tentarem entrar em nossa casa!
    Que merda virou esta dita humanidade cúmplice, conivente, complacente, condescendente.

    Muito bom dia, por enquanto.

    https://gustavohorta.wordpress.com/2026/01/08/eua-estado-terrorista/

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