OLHAR PERDIDO – por Eva Cruz

OLHAR PERDIDO

por Eva Cruz

 

Teria uns trinta anos. De pé, sozinho entre a terra e o mar, especado na orla da areia, um homem encasacado, com ar de imigrante do norte africano a avaliar pelo tom da pele que a barba permitia enxergar, talvez marroquino ou argelino, olhava fixamente o horizonte, persistentemente imobilizado numa espécie de nostalgia e saudade de qualquer vida ou qualquer mundo que estaria para lá do mar. Apenas no alto da cabeça um ou outro cabelo se mexia soprado pela suave brisa da beira-mar. Um olhar perdido na solidão, pensámos, à procura do seu país e da sua família, deixando adivinhar naquela fixação visual um êxtase de amor e apego ao que do outro lado do oceano teria deixado.

A manhã acordara cinzenta e chuvosa.  No segundo dia do novo ano resolvemos dar uma volta rumo ao norte, ladeando a costa. Parámos numa aldeia de pescadores, a bem conhecida Angeiras, a fim de esticar as pernas e fazer horas para o almoço. Foi nesse pequeno passeio rente aos barcos e às minúsculas casas dos pescadores que encontrámos o tal olhar perdido. Ali nos mantivemos absorvendo o mar que se estendia entre os nossos pés e o longínquo horizonte, nem manso nem bravo, olhando a areia de cor torrada pelas ondas mais finas, algumas gaivotas em dia de folga, encolhidas para se protegerem do frio, e ouvindo o silêncio acolhedor que nem o ruído do mar conseguia perturbar. Algumas ondas mais cheias erguiam-se  desenfreadas, fustigando os poucos rochedos negros daquela praia resguardada pelo longo e destemido molhe que se enfia pelo mar adentro. Percorremos calmamente a aldeia piscatória, muito pobre e muito limpa. As casinhas, rentes ao chão, umas desnudadas e descoradas do sol e do mau tempo, outras pintadas de cor garrida deixavam ver por trás dos vidros das pequenas janelas e postigos alguns rostos esquecidos da vida, também com o olhar perdido, com certeza não no outro lado do mar, mas no vazio. Cá fora, uma cadeira de encosto só com uma perna e o coto de outra assente numa pedra, outra apenas com os ferros laterais ao alto e um banco tripé só com duas pernas lembravam algumas instalações artísticas da dita arte contemporânea. Um nicho de beleza nua, pobre e feia, capaz de inspirar qualquer escritor, pintor ou cineasta com talento para a entender e expressar artisticamente.

Gostávamos de almoçar na Barraquinha do Rijo, mas há muito que se encontra fechada. Outros restaurantes, também encerrados nesses dias festivos obrigaram-nos a recorrer à Casa do Gordo onde comemos um pequeno rodovalho, por sinal muito bem assado. Voltámos ao pequeno cais e fizemos o caminho inverso até ao carro. O Olhar Perdido que tanto nos impressionou ainda lá estava, na mesma posição. Ainda não se havia encontrado.

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