Amanhã é dia de eleições cá no pedaço e, se calhar até por isso, é a a segunda vez num curto espaço de tempo, que me socorro de Santiago Alba Rico, por este filósofo ter escrito num artigo publicado no final do passado ano, ‘Os democratas finalmente aceitaram que a História não só rima, como realmente se repete’. A brutalidade que estamos a verificar, e a temer em todos os recantos deste planeta, provocada pelas atitudes irresponsáveis de uns ‘senhores da guerra’, apoiados por mais alguns ‘memes’, que assim se tentam impor nas suas próprias paróquias– interprete-se este termo de acordo com as ‘crenças’ de cada qual– não passa de uma cópia do que outros ‘senhores’ de outras guerras, fizeram e explicaram a seu modo, para que todos os que viessem a seguir, o pudessem decorar e mais, esquecerem mesmo os dramas da História nossa e como os poderiam justificar e defender.
E, não por acaso, veio há dias ter-me às mãos, uma fotografia do que chegou até a ser nomeado sucessor de Hitler, antes de ter caído em desgraça, Herman Göring. Não quero falar mais de tal fulano, a não ser que veio a ser julgado em Nuremberga, por crimes de guerra e contra a Humanidade. Condenado à morte, suicidou-se no dia anterior a ser enforcado.
Mas não posso deixar de transcrever uns parágrafos do seu julgamento em Nuremberga, quando lhe perguntaram como tinha conseguido que o povo alemão aceitasse o regime nazi de Hitler. Göring respondeu assim:
“Foi fácil, não tem nada a ver com o nazismo, tem a ver com a natureza humana. Pode fazê-lo num regime nazi, socialista, comunista, numa monarquia e até numa democracia. A única coisa que precisa ser feita para escravizar as pessoas, é assustá-las. Se consegue descobrir uma maneira de assustar as pessoas, pode fazê-las fazer o que quiser”
O sociólogo Manuel Castells, ex-ministro das Universidades daqui ao lado, explica esta convicção de Göring, da seguinte maneira, ‘O medo quando não encontra uma saída, expressa-se extremando o antagonismo ao outro; temos de repetir mil vezes não ter tal antagonismo origem só na direita ou na esquerda; a oposição radical a valores e instituições democráticas, tem origem na extrema direita. Quando as elites dominantes têm medo de perder privilégios, alargam o medo e então há uma polarização baseada no ódio, o ódio ao outro ou ao emigrante, aliás o “bode expiatório” da História’.
Riki Blanco, ‘O tropeço’

‘El País’, 26.01.13
O escritor e jornalista Juan José Millás, explicou há uns dias como a intervenção na Venezuela vai contra a civilização, se entendermos tal termo como a capacidade de nos organizarmos para viver em paz, ‘Mas Trump é um presidente cujo limite é a sua própria moralidade interna, o que dá a impressão de poder fazer o que quiser’. E, referindo a morte da escritora e poeta Nicole Good, assassinada por um agente da ICE, ‘A brutalização está a crescer e pode atingir os extremos delirantes que testemunhamos ao longo da história, porque lhe falta a força correctiva da cultura, e porque o humanismo desapareceu completamente; vivemos num mundo dominado pela pulsão de morte, onde desapareceu a pulsão agressiva, temperada justamente por movimentos civilizadores’.
E no mesmo dia, a escritora norte-americana Siri Hustvedt, é muito mais dura, por, num ‘El País’ da semana passada, ter deixado este pedaço de prosa, ‘Um novo tipo de fascismo que afecta o mundo inteiro’. E depois de ter definido o fascismo como uma forma de comportamento político caracterizada pela obsessão com o declínio, a humilhação da comunidade e o culto da unidade de militantes devotos, ‘Como aqueles outros que abandonam as liberdades democráticas e perseguem, com violência redentora e sem restrições legais, objectivos de purificação interna e expansão externa’.
E se chamarmos à memória todas aquelas imagens– não as do Holocausto e de outras mais antigas, mas as de Gaza, da Ucrânia, do Capitólio, do Irão e tantos outras actuais– poderemos ver a quem Göring, Millás, Ustvedt e tantos outros mais se estão a referir ou a querer chamar a nossa atenção, por vezes distraída por imagens e textos como o ‘Le Monde’ trazia ‘escarrapachada’ na primeira página do dia 9, ‘A expressão brutal do poder de Trump é um choque violento a abrir os olhos dos aliados de Washington’.
Comecei citando o filósofo Santiago Alba Rico, e vou terminar com uma frase de Saramago, tirada do ‘Ensaio sobre a cegueira’, que pode exprimir melhor do que eu, ou do que eventualmente também eu poderia acrescentar, ‘Não sou pessimista. O mundo é que é péssimo’, que também já vi citada de outra forma, ‘Não é que eu seja pessimista, é que vivemos num mundo terrível’.
A primeira citação do escritor português era seguida de uma outra que também poderá ser outra forma de a verbalizar ‘Os únicos interessados em mudar o mundo são os pessimistas, porque os optimistas estão encantados com o que há…’
É tudo uma questão gosto, ou também de brutalidade, de humilhação, e de negação da humanidade e da civilização!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor


