Seleção e tradução de Francisco Tavares
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Trump, capitalismo e desordem
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em 20 de Janeiro de 2026 (original aqui), inserido no debate Tras el vendaval trumpista promovido pela fundação Espacio Público
A ficção pode ser, às vezes, a melhor maneira de nos aproximarmos à realidade-real. Trump e os seus constantes espasmos geoestratégicos podem ser considerados o resultado de um roteiro distópico e irreal, mas também a expressão da dura realidade que não queremos ver. Talvez o que ocorra seja que a sociedade atual esteja tão mediatizada, tão acostumada à “realidade ficcionada”, que não lhe cabe na cabeça que as posições de Trump são reais e formam parte de um plano meditado baseado em causas objetivas.
Seria de nos perguntarmos se uma certa “falsa consciência” se apoderou durante décadas do pensamento racional, que concebia o progresso como o resultado de um determinado nível civilizacional que não permitiria voltar a abordagens primitivas. Como se as classes subalternas do Ocidente, incluindo as elites e grupos empresariais da Europa, em vez de conceberem a realidade existente como fruto de um equilíbrio de forças sociais ou modos de poder transitórios, tivessem assumido uma ficção de estabilidade global e permanente, baseada em princípios que não eram tais e que agora desaparecem. Convém perguntarmo-nos se a multilateralidade, o Estado de Bem-Estar ou a democracia baseada no estado de direito eram o resultado de um nível civilizacional sem retorno.
A questão chave é se se acredita que o mundo de outrora será restaurado, se vivemos apenas um episódio passageiro ou se é o começo de um período brutal que precisa de chegar até ao fundo, no qual os interesses são apresentados diretamente sem se esconder em nenhum “relato” mais ou menos sofisticado.
Dinâmicas que se cruzam
O neoliberalismo e a globalização multilateral foram a opção de poder das grandes corporações e de uma especialização produtiva impulsionada pela indiscutível liderança norte-americana e pelo mundo anglo-saxão. Essa lógica deslocou a atividade e o emprego produtivo para a China e para a Ásia sem que desse desequilíbrio se vislumbrasse, em nenhum momento, um deslocamento do centro de gravidade do poder.
Projetar na Califórnia e fabricar em Shenzhen era a lógica da divisão do trabalho exportada para o mundo, assumida como um mantra que favoreceria a hegemonia do Ocidente e a liderança na inovação. Essa lógica tornou-se universal a todos os setores produtivos, da alimentação à saúde, do automóvel às tecnológicas.
Essa dinâmica ocultava outra disputa essencial sobre a lógica da criação de valor entre as economias da China e dos EUA. Por um lado, o capitalismo corporativo Ocidental baseou a criação de excedentes numa lógica financeira de espoliação de rendas baseada em práticas oligopolistas e na captação dos órgãos reguladores dos Estados nacionais ou entidades supranacionais, como a UE.
Os excedentes empresariais adotam uma lógica rentista e não apenas nas finanças.
Os benefícios das energéticas ou das farmacêuticas e de outros setores têm pouco a ver com a extração de mais-valias aos seus trabalhadores e muito com a captação de rendas aos seus clientes e usuários amparados em situações de privilégio. Se em algo se destacaram as tecnológicas é, precisamente, na sua capacidade de converter esse modo extrativo na essência de seu negócio global, baseado no controle e exploração de dados, à margem de qualquer controle estatal.
Essa dinâmica está interiorizada em todas as corporações multinacionais e passou a fazer parte do acervo comum. Se Trump se pode apresentar como um imperador “eficaz” na gestão de conflitos é porque os modos de governo das grandes corporações levam décadas educando-nos na figura do primeiro executivo como monarca absoluto que maneja a gestão das corporações, sem contrapeso algum, com o único fim de criar valor para o acionista.
Também, por baixo, se assumiu com naturalidade uma mística perversa. Se o trabalho era externalizado ou deslocalizado era porque era desprezado, porque era tratado como uma mercadoria, algo indispensável, mas indiferenciada e intercambiável, incapaz de gerar valor diferencial. Somente o trabalho intelectual de alto valor merecia ser retido porque era a fonte de inovação. O elitismo do capitalismo neoliberal leva justificando a desigualdade amparado na hierarquia vertical da tomada de decisões até formar parte de consensos académicos e sociais, enquanto se desvalorizava a participação.
É curioso que seja a administração Trump a primeira a verbalizar explicitamente essa estratégia como errada. O vice-presidente JD Vance apontou como um erro reter no território exclusivamente as fases criativas e de design, que eram entendidas como adequadas e suficientes para favorecer a inovação. “Nós estávamos errados. Acontece que as áreas geográficas que fabricam são muito boas em projetar coisas. Existem efeitos de rede, de modo que, à medida que melhoravam na extremidade inferior da cadeia de valor, eles também começaram a alcançar-nos na extremidade superior. Eles apertaram-nos em ambas as extremidades“.
O resultado é que produtividade, indústria e melhores salários são agora reconhecidos como desejáveis e convergentes. A questão é até que ponto eles podem alcançar essa convergência. A sua resposta é ideológica e irreal: para isso, deve-se bloquear a imigração, entendida como “droga” que vicia com custos baixos a lógica empresarial, um argumento “ad hoc” que dá valor económico à xenofobia.
Já antes na administração de Joe Biden se tentou abordar com o seu programa de incentivos para liderar o Green New Deal, que foi também expressão da preocupação crescente nas elites norte-americanas pela consolidação da China como uma alternativa real para o futuro.
Inovação e poder na China
Analisar os elementos-chave do desenvolvimento económico da China é uma questão central para entender o momento em que o mundo se encontra.
Parece evidente que o PC Chinês dirige a economia, define as suas pautas para a inovação tecnológica e disciplina as grandes corporações privadas. Pode-se discutir os limites e conflitos do seu modelo (para alguns, socialismo de mercado e para outros, capitalismo de Estado), e, em particular, o desinteresse pela implantação de modelos de gestão participativos próprios da democracia económica, mas não a sua determinação.
O Estado chinês estabelece marcos regulatórios claros e é representado por grandes empresas públicas com grande peso nos setores estratégicos (finanças, energia, infraestruturas, telecomunicações), mas tolera a gestão independente nas grandes corporações privadas, dando prioridade à criação de excedentes e que estes sejam reinvestidos internamente em programas de I+D+i [Investigação, Desenvolvimento e Inovação] seguindo as prioridades setoriais marcadas.
Paralelamente, a China está a implementar um programa de infraestruturas públicas que integram redes de alta velocidade com pontes, portos e canais, a fim de estruturar o território e revolucionar a logística. O resultado é que os tempos de resposta das transações e das trocas, variável fundamental da produtividade agregada, se reduzem, ano após ano.
O investimento produtivo e o crescimento estão no centro do seu modelo económico. O resultado é que, segundo dados do Banco Mundial, a capacidade de investimento chinesa, expressa em “Formação bruta de capital fixo” se mantém numa média de 40% do seu PIB (41,1% em 2023) enquanto os EUA se situam em torno de 22% do seu PIB, o que supõe que não só quase o duplica em termos relativos, mas também o supera em termos absolutos.
Os EUA e a China estão a enfrentar, além disso, dois conceitos de inovação. Nos EUA, associa-se a pequenas empresas emergentes, logo convertidas em líderes globais, destinadas a criar novas dinâmicas em serviços de interação cidadã… mas desconectada dos processos produtivos. Em vez disso, a inovação de processos, na qual a China se destaca, mostrou-se determinante para impulsionar e modernizar a sua ampla base manufatureira. As chamadas “três novas indústrias” – veículos elétricos, baterias e energia renovável – já contribuem com cerca de 40% para o crescimento do PIB da China.
O seu sucesso confirma que o progresso tecnológico depende, em última análise, da capacidade de sincronizar os esforços de uma nação ou comunidade territorial, para difundir e disseminar a inovação, a fim de escalar e impulsionar a produtividade agregada e o crescimento potencial. Os programas de subsídios do governo chinês afetam todas as fases dos processos produtivos. Na indústria de semicondutores, eles são concedidos a empresas nas fases iniciais da produção, fornecedores de produtos e componentes intermediários e compradores de produtos finais. Esse esquema busca “desenvolver um novo ecossistema tecnológico a partir do zero” a uma velocidade e escala sem precedentes que já estava testada nas suas experiências bem-sucedidas em produtos de fabricação de gama baixa e média.
Os EUA e o desafio de uma nova ordem internacional
O medo das elites americanas é compreensível. O dólar e o poder tecnológico e militar têm sido os três pilares da hegemonia dos EUA nas últimas décadas, suficientes enquanto a sua liderança foi indiscutível. A questão é vislumbrar se eles podem continuar a sê-lo quando a crescente importância económica e tecnológica da China a define como uma ameaça real e abre um período marcado pela disputa de liderança global em muitos campos.
Inclusive entre a ortodoxia económica se admite que os EUA vivem acima das suas possibilidades. Nas últimas décadas, a sua liderança foi acompanhada por desequilíbrios económicos estruturais, os chamados “défices gémeos”, expressos nas contas públicas e no balanço externo por conta corrente, que eram compensados pela sua capacidade de financiá-los captando capitais do resto do mundo.
O nível de consumo das suas empresas e famílias tem sido dopado com constantes programas de financiamento e de estímulo de dois tipos: por um lado, através de orçamentos expansivos, especialmente em gastos militares suporte de um complexo industrial que hoje diz respeito especialmente às próprias empresas tecnológicas. Por outro, reduzindo os impostos para facilitar a procura disponível. Em essência, a sua economia é uma grande maquinaria de consumo e inovação que é financiado pelo resto do mundo.
Desde há cinco anos, algo mudou. A crise do COVID-19 foi algo sobrenatural à lógica do capitalismo, mas natural para os mais atentos à crise ambiental em ascensão.
As rupturas das cadeias de abastecimento que haviam dado suporte à globalização neoliberal apontavam para uma profunda reestruturação dos mercados de capitais. Se cada potência tivesse que internalizar os seus suprimentos estratégicos, se a globalização se fragmentasse em blocos regionais, a disponibilidade de fluxos de capital globais excedentários que até agora haviam permitido financiar os défices estruturais da economia dos EUA poderia diminuir e sufocar a sua economia. A autonomia estratégica de cada bloco, que até agora tinham sido exportadoras de capital para os EUA, obrigava a atender às maiores necessidades de investimento nos seus territórios.
Os EUA deveriam mostrar-se decididos a impedi-lo, dando os passos necessários para disciplinar, pelo menos, o mundo desenvolvido e colocar limites à sua “autonomia estratégica”. Essa disciplina deveria ser dirigida aos seus principais parceiros: Japão, Reino Unido, Canadá ou Coreia. Mas sobretudo à UE como principal centro comercial do mundo.
Por um lado, deviam assegurar o seu apoio incondicional em conflitos bélicos que afetem a sua hegemonia; por outro, impor limites e restrições, pelo menos, nos espaços da energia, da defesa e da tecnologia. E também no comércio para garantir que o dólar continua a ser a moeda de troca.
Tudo o que afeta o dólar, principal ativo que garante a hegemonia norte-americana, é um potencial casus belli. Embora no curto prazo não haja moeda alternativa (nem o euro, nem o Iene, nem o yuan), o risco nasce da diversificação desejada dos bancos centrais e dos fundos e instituições de investimento. De facto, desde há anos que os países do grupo dos BRICS diversificam as suas reservas. E a China e o Japão, os principais detentores de ativos dos EUA, expressaram a sua vontade de diminuir dívida expressa em dólares. Parece evidente que, à medida que a China se consolida aos olhos do mundo como concorrente estratégico dos EUA, em algum momento aparecerão motivos para provocar um golpe de leme de um ou outro lado.
A instabilidade do equilíbrio atual gera razões suficientes para levantar os alarmes. Os EUA precisam de “uma nova ordem” que lhes assegure a hegemonia, e o golpe de timão devia ser visível para tornar evidente a sua determinação. E desta forma esse modo tinha todas as cédulas para assumir formas imperiais mais ou menos cruas.
Isso só pode ser possível se a política se impõe às lógicas económicas. Se, no exterior, se impõem as lógicas imperiais e a vassalagem mais extrema. E se, no interior, o aparelho coercivo é capaz de se impor com métodos autoritários às instituições e modelos profissionais que compartilham consensos do passado e se se introduz disciplina nos poderes estabelecidos até tornar inoperantes os contrapoderes democráticos. Estes são os traços imprescindíveis da nova ordem, necessariamente com modos neofascistas. Até agora estão a consegui-lo.
Mar-a-Lago: tarifas aduaneiras, industrialização e relações de subserviência
É conveniente fazer agora um rápido balanço do primeiro ano de Trump, comparando-o com as políticas programadas. No seu discurso de 7 de abril de 2025, Stephen Miran, presidente do Conselho de Assessores Económicos dos EUA do governo de Donald Trump defende que o seu país fornece dois chamados “bens públicos globais”: proteção militar através da sua rede mundial de bases militares e o papel do dólar como moeda de reserva mundial. Este papel não é sustentável porque, diz ele, “dizimou” a indústria manufatureira dos EUA e gerou défices comerciais “insustentáveis”. E postula que é possível manter a hegemonia do dólar e reformar o sistema ao mesmo tempo, desde que o resto do mundo assuma os custos que esse domínio acarreta.
- A primeira condição imposta aos seus aliados é aceitarem as tarifas de importação (sem tomarem contramedidas) se quiserem aceder ao maior mercado do mundo. Essa condição está a ser cumprida, embora demore para consolidar os seus efeitos. A UE, o Japão, a Coreia do Sul, o Canadá e os países do golfo aceitaram tarifas que mais do que triplicam as anteriores, cerca de 4,5%, sem contrapartidas.
- Em segundo lugar, os países parceiros deveriam abrir os seus mercados para as exportações dos EUA. O compromisso da UE de comprar produtos energéticos, principalmente gás de xisto, no valor de 750.000 milhões de dólares até 2028 são apenas um exemplo.
- Em terceiro lugar, as empresas estrangeiras devem transferir parte da sua produção para os EUA, para economizar tarifas e aceder ao seu mercado. Trump conseguiu impor o compromisso de volumes de investimento direto a todos os seus aliados: US.600.000 milhões de dólares da UE, 550.000 milhões do Japão e 350.000 milhões da Coreia do Sul que devem ser destinados à construção naval. Vamos ver como e quando eles serão realizados.
- Por último, eles devem aumentar o seu investimento em gastos com defesa, comprando armas e equipamentos de empresas americanas. O uso da NATO como instrumento de disciplina do Ocidente já faz parte do consenso das elites dos EUA. A UE comprometeu-se não só a mudar as suas prioridades de gastos, com o compromisso de destinar 5% a gastos militares, mas a importar armas e equipamentos às empresas americanas para custear a guerra da Ucrânia.
O Acordo de Mar-A-Lago que ultima esta estratégia exige que o dólar não se valorize, porque um dólar revalorizado compensaria parcialmente as políticas tarifárias que Trump defende e geraria inflação interna e descontentamento social. E isso supõe, induzir (ou melhor, obrigar) o resto do mundo a adquirir dívida norte-americana a longo prazo com rendimentos baixos, mais baixos inclusive que a inflação. O dólar desvalorizou-se em relação ao euro em 11,77% ao longo de 2025. A inflação acumulada em 2025 foi de 2,7% um pouco inferior à de 2024. A batalha imediata de Trump é conseguir que o Tesouro baixe as taxas de juros.
Algumas conclusões rápidas
A questão é induzir até que ponto estes “sucessos” são consistentes e estáveis ou se é previsível um retorno à ordem baseada em regras e um reequilíbrio que favoreça as forças democráticas que defendem fazer valer “a lei e a ordem” convertido agora em lema de resistência quando até agora foi o martelo utilizado pelas forças conservadoras.
A dimensão dos tempos de resposta é decisiva. Os EUA devem travar a curto prazo um desequilíbrio que, a médio prazo, favorece a China. A luta pela hegemonia global deixa a impressão de que enquanto Trump parece jogar xadrez, procurando permanentemente dar xeque-mate ao seu oponente, Xi Jinping joga Go, o tradicional jogo asiático, exaltado por Confúcio, onde o importante não é eliminar o rival, mas cercá-lo e ganhar a posição. O tabuleiro desloca-se para a América Latina, onde a disputa entre EUA e China se apresenta como fundamental.
Se os reequilíbrios militares precisam de décadas, a Europa nada poderá fazer a curto prazo se não fazer valer a sua potência comercial. Algum gesto em direção a acordos comerciais e de cooperação tecnológica com a China seria um passo decisivo. Outro, anunciar uma disposição para o uso progressivo de outras moedas no mercado internacional. A terceira, reconsiderar a sua posição perante a Rússia e fazer reviver a Carta de Paris de 1990 e a sua aposta por um sistema europeu de segurança, compartilhada de Lisboa a Moscovo, frustrada pela cúpula da NATO em Roma no ano seguinte. O caminho é esse, sem dúvida, a questão é se há coragem e vontade para o implementar.
Antes de tudo, é urgente travar o sentimento de incapacidade e desgoverno na UE, os aspectos que Trump e os seus ideólogos identificam como sendo a ineficácia da democracia e dos consensos. E isso supõe, travar a tendência, eleição após eleição, que faz melhorar as posições da extrema-direita desde o estuário de Lisboa até ao Rio Vístula.
Caso contrário, devemos assumir que o caos global e o risco de autodestruição batem à porta.
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O autor: Ignacio Muro Benayas [1952 ? – ] é licenciado em Ciências Económicas pela Universidade Complutense de Madrid, especialista em futuro do trabalho, democracia na empresa, transições digitais e novos modelos produtivos. É Professor honorário de comunicação na Universidade Carlos III, Diretor da Fundação Espaço Público, Vice-Presidente da Plataforma pela Democracia económica. É fundador do coletivo Economistas Frente à crise. Foi diretor-gerente da agência EFE (entre 1989-1993). Autor de vários livros e articulista habitual em vários jornais e revistas. Palestrante em fóruns e congressos sobre o futuro do trabalho. Participou também na fundação e impulso de outras associações sem animo de lucro: presidente do Fórum de Economia Progressista, vice-presidente do Instituto para a inovação jornalística, Presidente da Poli-TIC/ Associação informação e conhecimento.


