Seleção e tradução de Francisco Tavares
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A Europa caminha para a deflação e o BCE está mais uma vez no caminho errado
Publicado por
em 15 de janeiro de 2026 (original aqui)
Já está a começar: um dos maiores sindicatos da Alemanha, o sindicato da indústria química – IGBCE, está a entrar em negociações coletivas, que devem começar em Janeiro, sem exigências específicas. ‘Cada emprego conta, cada euro conta’, diz o sindicato, mas aqueles que claramente colocam os empregos antes dos euros não querem mais dinheiro, querem segurança no emprego. E a segurança no emprego, de acordo com a pseudo-lógica dos sindicatos e da gestão empresarial, significa sacrificar os salários. Os empregadores ofereceram um aumento zero, e já podemos prever o resultado com um elevado grau de certeza: um acordo de cerca de 1,5%.
Na VW, na Alemanha, os trabalhadores enfrentam até cortes dolorosos porque a empresa invoca todas as cláusulas acordadas na última convenção colectiva se a situação económica não melhorar significativamente. A IG Metall não terá outra escolha senão aceitar também perdas salariais reais noutros locais. Não é preciso ser um profeta para prever que os slogans políticos sobre ‘custos excessivos do trabalho’ na Alemanha farão afundar o coração de todos os sindicatos. O resultado serão acordos não superiores a dois por cento.
Mesmo depois de alguns dados de tendência ascendente relativos a novembro, a situação económica na Alemanha não melhorou (dados do Serviço Federal de Estatística). Sem grandes encomendas (do sector militar), a entrada total de encomendas na indústria alemã permanece em níveis de recessão. Os indicadores de opinião apontam mesmo para outro revés em dezembro.
Os custos da mão-de-obra na UEM estão a aumentar menos
Os custos da mão-de-obra em toda a Europa, que aumentaram 3,3% no terceiro trimestre de 2025 (dados do Eurostat), estão a aproximar-se rapidamente da marca dos dois por cento. É altamente duvidoso que o declínio das taxas de crescimento chegue ao fim. A França tem estado muito abaixo de dois por cento há algum tempo, a Espanha estava exactamente em dois por cento e a Itália apenas ligeiramente acima. Se a Alemanha, que ainda estava acima de três por cento no outono de 2025, cair para dois por cento ou mesmo abaixo, os salários em toda a zona do euro provavelmente aumentarão menos de dois por cento no futuro próximo.
Custos salariais nominais por hora, economia total
No entanto, o facto de um país como a Bulgária, que acaba de se tornar membro do Eurogrupo, ter registado um aumento dos custos da mão-de-obra de mais de 12% no terceiro trimestre de 2025 é mais uma prova de que este país foi aceite na União Monetária apenas por razões políticas. Mesmo os preços ao produtor estão a subir a taxas de dois dígitos no país. As consequências serão dramáticas, como aqui descrito recentemente.
Preços no produtor como indicador
Se quiser saber o que acontece quando os acordos salariais caem significativamente, basta olhar para os preços no produtor na indústria da zona euro. Estes permaneceram absolutamente constantes em novembro de 2025 (excluindo a energia), marcando quase três anos de estabilidade absoluta (valor do Eurostat). A pressão concorrencial neste sector deve ser extremamente elevada se as empresas não conseguirem aumentar os preços nem um milímetro, apesar dos aumentos salariais significativos (de quatro a cinco por cento ao ano) nos últimos três anos.
Preços no produtor na indústria, no mercado interno
Os políticos esperam aumentos salariais mais baixos para melhorar a competitividade internacional e, assim, criar novos empregos – à custa de outros países. Mas este cálculo não vai funcionar. A única coisa que acontecerá quando os aumentos salariais na Europa se aproximarem da marca dos dois por cento é que haverá uma pressão ainda maior sobre os preços no produtor e, portanto, sobre os preços no consumidor de todos os produtos fabricados com insumos industriais. Os preços no produtor cairão em termos absolutos e os preços no consumidor cairão abaixo do objectivo de dois por cento.
Tal não terá qualquer impacto na competitividade internacional da Europa e da UEM, uma vez que o euro, que já se valorizou significativamente face ao dólar norte-americano em particular desde 2025, se reforçará ainda mais. Em termos nominais, a Zona Euro valorizou cerca de cinco por cento face a um grande grupo de parceiros comerciais desde o início de 2025 (valor do BIS).
Se este ano se verificar outra valorização semelhante, nenhuma restrição salarial poderá compensar estas perdas de competitividade. Mesmo que não haja mais apreciações, as ameaças do maior parceiro comercial de aumentar ainda mais as barreiras pautais deveriam ser motivo suficiente para abandonar todas as esperanças de melhorar a competitividade através de cortes salariais relativos.
O que é ainda mais grave é que, porque a liderança do BCE está no caminho errado e está a considerar aumentos das taxas de juro em vez de cortes, pequenos aumentos salariais e de preços ou mesmo reduções em ambos significariam uma deterioração massiva das condições de investimento. A taxa de juro real, que é decisiva para os investidores, aumenta quando os preços deixam de poder ser mantidos e, ao mesmo tempo, a taxa de juro nominal não cai nem sequer sobe.
O BCE perdeu o rumo
É fácil mostrar até que ponto o BCE perdeu o rumo. Para Isabel Schnabel, membro da Comissão Executiva, a economia do euro está no bom caminho, porque o crescimento actual excede o chamado crescimento potencial. No entanto, o que muitos economistas chamam de crescimento potencial é o resultado directo do fraco crescimento dos últimos anos, o que significa que ela espera que a economia europeia cresça muito ligeiramente mais do que muito fracamente. Com previsões de crescimento de cerca de 1% para toda a zona euro, nenhuma pessoa séria pode falar de uma ‘economia no bom caminho’. A economia dos EUA, por outro lado, crescerá cerca de 2%, apesar de vários anos de pleno emprego.
Para Schnabel, o principal motor do crescimento é o mercado de trabalho ‘robusto’, com baixo desemprego e forte crescimento salarial. A razão pela qual o mercado de trabalho na Europa é ‘robusto’, com uma taxa de desemprego superior a 6% e um desemprego juvenil de quase 15%, continua a ser o segredo da senhora Schnabel. A sua memória, aparentemente, remonta apenas a 1999; ela simplesmente não quer saber que a Europa já teve pleno emprego com taxas de cerca de três por cento. Infelizmente, ela não observou que os aumentos salariais nos grandes países da UEM estão actualmente a paralisar-se.
O mais notável é que ela acredita que o risco com a inflação é a aceleração, não a desaceleração. Uma das razões que ela explica é que a ‘inflação’ dos bens industriais se estabilizou a níveis pré-pandémicos. Trata-se de uma afirmação descaradamente falsa; não foi a ‘inflação’ que se estabilizou, mas os preços estão, como acima se mostra, absolutamente estáveis. Se tivesse falado correctamente sobre os preços e não sobre a inflação, nunca teria podido fazer a sua declaração sobre os riscos de inflação “inclinados para cima”.
No geral, este é um ponto de partida muito fraco para as economias alemã e europeia. A política orçamental que gasta em equipamento militar, mas que, por outro lado, poupa como um louco, a política monetária que não compreende fundamentalmente a situação e a ameaça dos políticos na Alemanha de seguirem um curso de cortes salariais são uma combinação que faz tremer qualquer pessoa razoável.
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O autor: Heiner Flassbeck [1950 – ], economista alemão (1976 pela Universidade de Saarland), foi assistente do Professor Wolfgang Stützel em questões monetárias. Doutorado em Economia pela Universidade Livre de Berlim em julho de 1987. Em 2005 foi nomeado professor honorário na Universidade de Hamburgo. Foi secretário de estado (vice-ministro) do Ministério Federal de Finanças de outubro de 1998 a abril de 1999 sendo Ministro das Finanças Oskar Lafontaine (primeiro governo Schröeder), e era responsável pelos assuntos internacionais, a UE e o FMI.
Trabalhou na UNCTAD- Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento desde 2000, onde foi Diretor da Divisão de Globalização e Estratégias de Desenvolvimento de 2003 a dezembro de 2012. Desde janeiro de 2013 é Diretor de Flassbeck-Economics, uma consultora de assuntos de macroeconomia mundial (www.flassbeck-economics.com). Colaborador de Makroskop. Autor de numerosas obras e publicações, é co-autor do manifesto mundial sobre política económica ACT NOW! publicado em 2013 na Alemanha, e são conhecidas as suas posições sobre a crise da eurozona e as suas avaliações críticas sobre as políticas prosseguidas pela UE/Troika, nomeadamente defendendo que o fraco crescimento e o desemprego massivo não são resultado do progresso tecnológico, da globalização ou de elevados salários, mas sim da falta de uma política dirigida à procura (vd. The End of Mass Unemployment, 2007, em co-autoria com Frederike Spiecker).






