Depois dos montes negros chegam-nos as pistas de aterragem submersas
por José de Almeida Serra
Ontem – 20 de Fevereiro – vimos por várias vezes os terrenos de previsão para as pistas de aterragem em Alcochete completamente submersas. Mas isso não será problema, logo um sábio-inteligente, orçando a divindade, arranjou uma solução: deslocam-se as ditas em cinco quilómetros (confesso ignorância: não percebi em que sentido). Estarão certamente em causa uns tostões tirados da boca de um qualquer desesperado com fome. Mas que importa isso?
Confesso ter consciência de estar isolado na matéria e estou à espera que todo o mundo grite: mas se todos os aeroportos importantes da Europa estão a 40-50 minutos das respectivas capitais!
Eu sei e até sei que em comboio rápido hoje pode ir-se de Heathrow ao centro de Londres em 20 minutos, embora trivialmente se gastem cerda de 30-40. Repito: hoje. Porque quando o aeroporto foi inaugurado nunca se fazia a viagem em menos de uma hora.
Tomemos exemplos nossos: uma viagem rápida (perdão, rapidíssima se não ultra-sónica Lisboa-Porto) demora hoje, depois de milhões e milhões gastos, entre 11 e 12 quartos de hora (cerca de três horas), como já acontecia há muitos, muitos anos e depois dos muitos milhões que saíram dos bolsos dos contribuintes (e muitos terão entrado em bolsos supraprivilegiados). O dito comboio voa em vários troços a mais de 200 Km/hora e em longuíssimos outros a 70 Km/hora. Duas décadas perdidas, muitos milhões atirados para o lixo, muita fome induzida e muita riqueza (não ousemos chamar-lhe roubo) absorvida por uns quantos.
Exames exaustivos e independentes ao que se passou, como e quando se passou, com quem se passou, comparar o realizado – qualidade, tempo e dinheiro – com o provisionado, quem foram os chamados gestores/decisores/governantes, etc., etc. Só atrasados mentais se preocupariam com tais matérias.
E porque não fazer o mesmo tipo de exigência – e com independência pública – com todos os grandes projectos de investimento, com a gestão de hospitais (será muito difícil saber por que valores compram hospitais a preços muito diferentes os mesmos produtos, podendo acontecer que entre dois santos ditos, um deles compra determinado produto X ao preço de A1, já que Y oferecera um preço superior A2; coerentemente, o outro santíssimo compra esse mesmo produto a Y por A1 já que o outro solicitara A2)? Simples distracções, ambas santíssimas, que aliviarão algumas almas penantes.
Porque não há no Santa Maria (que nada tem a ver com o exemplo anterior) uma gestão clara por equipas e não por indivíduos em que uma falta menor pode pura e simplesmente anular o trabalho de toda a equipa? Como é possível que neste mesmo hospital uma doente de cerca de 80 anos, caída na via pública, entre às 8 da manhã nas urgências para andar daqui para ali e depois para acolá e etc. etc. para sair às 17 horas sem lhe terem feito uma simples radiografia que teria determinado fractura de vértebra e determinado, dois meses após e muito tendo sofrido no entrementes, uma intervenção cirúrgica no hospital da CUF-Alcântara?
Meus senhores: não precisamos de génios sobretudo de médicos que até podem meter indevidamente nos bolsos as verbas que temos conhecido pelos jornais. Mandem uma equipa de jovens, sérios e capazes de aprender, fazer um estágio de seis meses ao hospital de Lovaina (só refiro este porque tive a necessidade de o conhecer bem) e que vejam como deve ser gerido um hospital a bem do povo e de quem precisa.
Mas dirão: para quê tanta conversa, qual a solução para um novo aeroporto?
Meus senhores: Portugal tinha nos anos de 1960 a melhor pista de todo o continente europeu, em Beja, construída pelos alemães: Já depois do 25 de Abril fez obras complementares para o transformar num verdadeiro aeroporto (certamente hoje insuficientes). Mas não houve alagamento de pistas e queiramos ou não vamos ter de construir uma Linha TGV, ligando Faro, Évora, Beja, Lisboa, Coimbra, Porto e certamente outras cidades ainda.
Distância Beja – Lisboa: 176 Km (cerca de 40 minutos), Beja – Faro (147 Km, menos de 30).
Próximo argumento: a essas distâncias não temos nenhum aeroporto de apoio a qualquer capital europeia. Verdade: hoje não temos.
Mas permitam-me que antecipe, para daqui a vinte anos, quando vários se tiverem espalhado pelo Continente Europeu. Dirão os nossos netos:
MAS PORQUE NÃO FIZERAM O MESMO AS BESTAS DOS NOSSOS AVÓS, SE ATÉ JÁ TINHAM UM AEROPORTO FEITO, E À BORLA?
Claro e direto.