Homenagem a Eva Cruz – por Adão Cruz

Homenagem a Eva Cruz

por Adão Cruz

(O Rotaty Club de S. João da Madeira, teve a gentileza de prestar uma homenagem a Eva Cruz, no dia 20 deste mês, pela sua vida pedagógica, não só como professora de inglês e alemão durante gerações, mas também pela sua actividade cívica e cultural, nomeadamente literária. Nesse jantar de homenagem, pediram-me para ter uma pequena intervenção que aqui vos deixo)

EVA CRUZ

Não vou falar da vida profissional, cívica e cultural de minha irmã Eva, por já ter sido amplamente referida por quem tem mais competência do que eu. Vou lembrar apenas a sua faceta bucólica, o amor e a íntima ligação à natureza, da qual nunca conseguiu desprender-se durante a vida.

Pintura de Adão Cruz

A raiz prendeu-a à terra no Dia de Reis de 1942. Tinha na cabecita uma touca branca e estava deitada ao lado de minha mãe, sob os olhos curiosos e inseguros dos meus quatro anos. Esta, a primeira imagem da Eva que a minha memória guardou intacta até aos dias de hoje. A raiz rompeu a terra, nas faldas de uma serra dourada de sóis, verde dos montes, negra de breu e prateada de luas altas, entre vibrações de criança, conversas de brinquedos e saltinhos de pardal. Em breve se fez jovem arbusto, com todos os pássaros chilreando à sua volta ao romper da aurora, num bailado sedutor, convidando-a a voar. E ela voou. Abriu cautelosamente as asas, voou acima das árvores, viu o sol de muito perto e aprendeu o mundo. De menina se fez jovem, de jovem se fez mulher, de mulher se fez mãe e avó, professora de gerações, cuidadora de anciãos e exemplo de cidadã do mundo.

A Serra e o Vale ainda lá estão. Paisagem de memórias, semeada de espaços que foram tempos. Fluindo como um rio, os olhos da Eva ainda hoje penetram esses espaços e esses tempos, feitos de vento e de chuva, de sol e luar, de pássaros e flores e cheiros de terra molhada. A Eva cheira a terra molhada em início de Primavera. A Eva é uma canção de inverno que só a velha lareira sabe cantar. Irmã de piscos e libelinhas, a Eva é uma tarde de Verão entrelaçada de amoras e gavinhas. A Eva Sempre amou a sua Terra e as suas gentes, a sua freguesia e a sua aldeia, os que já partiram para o equilíbrio molecular do Universo e os que, felizmente, ainda vivem. Toda a bucólica vida da Eva é um poema que se declama por si só, em sons que se confundem com a água dos regatos. Os seus versos são sinais de um caminhar que foi sempre regresso. Como o sol. Por mais voltas que a vida tenha dado, por mais circunvoluções que a força emocional e sentimental da existência tenha percorrido, a sua poderosa afeição à natureza e ao riquíssimo imaginário da infância nunca mais se perderam. Romântica e sonhadora, soube recriar em todos os caminhos da sua vida a essência desses passos, decantando o amor e a paz da sua rusticidade no coração das gerações que teve o privilégio de educar e ensinar. Neste sonho de uma vida inteira, ao som da sinfonia de um novo mundo, semeou vida na vida dos outros, criando-lhes a consciência de que só o carácter seria o fio de prumo do seu viver. Sempre procurou transmitir que a essência cultural da vida é a única aprendizagem que permite anular a ignorância, a mediocridade e a desumanidade que invadem o mundo. Sempre soube transmitir que a grande arte da vida está na autenticidade consciente e verdadeira do próprio viver. Sempre procurou transmitir que a grande arte da vida está na necessidade inquestionável do entendimento do mundo e das coisas, na procura séria e indeclinável da verdade dos fenómenos que nos rodeiam, no exercício do pensamento, da razão e da humildade, as maiores riquezas do ser humano.

Bem hajas, Eva, pelo precioso bocadinho que deste ao mundo.

 

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