A Guerra, o Clima e a Nova Ordem Internacional em perspectiva – TEXTO 1
por Carlos Pereira Martins
Comecei a escrever sobre o tema actualHoje, fiz um texto genérico sobre a Nova Ordem Internacional que se desenha.– Depois, farei um segundo texto mais virado para as implicações e alterações económicas dessa tencial Nova Ordem– Por fim, farei um terceiro sobre as implicações de tudo isso que se desenha para Portugal.Três textos para abarcar muitos aspectos e não ser um único demasiado longo.Um sistema internacional em transição
Desde o fim da Guerra Fria que a ordem mundial tem sido marcada pela predominância dos Estados Unidos como superpotência única. Esse modelo unipolar, baseado em instituições multilaterais e na liderança americana, sustentou décadas de estabilidade relativa. Contudo, essa configuração está a perder força, com a ordem liberal internacional a entrar num interregno e a dar lugar progressivamente a um sistema mais fragmentado e multipolar.
Alguns especialistas até descrevem o mundo actual como um possível cenário de “G0” — uma ordem sem liderança dominante e com Estados priorizando interesses domésticos sobre governança global.
Estados Unidos: hegemonia contestada
Os EUA continuam a ser um pilar central da geopolítica global — com capacidades militares, tecnológicas e económicas que continuam a influenciar alianças e instituições, como a OTAN e mecanismos financeiros. Porém:
A política externa mais assertiva ou unilateral de Washington tem causado inquietação entre aliados tradicionais e incentivado muitos países, até Estados Membros da UE, a procurarem alternativas de alinhamento.
A competição com a China, especialmente na área tecnológica e das cadeias de abastecimento estratégicas (ex.: matérias-primas para tecnologia militar), é um foco importante de rivalidade.
Essa nova estratégia americana tende a reforçar alianças regionais e bilaterais, mas também a polarizar blocos, como os esforços para conter a influência chinesa no Indo-Pacífico.
China: rival geoeconómico e geopolítico
A China tem afirmado um papel cada vez mais proeminente na economia global, com ambições que vão muito além do crescimento económico:
- Pequim propõe um modelo de cooperação que questiona a liderança americana, incluindo iniciativas próprias para infra-estrutura, comércio e tecnologia.
- A influência da China nas instituições financeiras alternativas e nas cadeias de valor globais tem aumentado, mesmo com tensões comerciais persistentes.
A política externa chinesa combina a expansão económica (ex.: comércio, investimentos) com diplomacia e alianças estratégicas, fomentando uma imagem de actor global que desafia o velho centro de poder ocidental.
Rússia: poder militar e limitação estrutural
A Rússia, apesar de graves desafios económicos e demográficos, mantém uma forte presença militar — como evidenciado pela persistência do conflito na Ucrânia. Um recente relatório assinala que Moscovo tem capacidade para continuar a sua campanha ao longo de 2026, reflectindo a importância que dá ao seu poder militar como instrumento de influência.
Ao mesmo tempo, a economia russa enfrenta limitações profundas, com sustentabilidade a longo prazo ainda questionada e dependência significativa de recursos energéticos e apoio tecnológico externo.
Importa notar que, no plano estratégico, a Rússia procura solidificar alianças com a China e outros Estados contrários à hegemonia ocidental, contribuindo para um bloco informal de “contra-hegemonia”.
Multipolaridade e blocos de poder
A tendência dominante no actual sistema internacional é a multipolaridade — isto é, a presença de várias potências influentes (EUA, China, Rússia, União Europeia, Índia, etc.) com interesses divergentes e frequentemente concorrentes.
Algumas características desse novo sistema:
- Redes de alianças mais complexas e flexíveis, que não seguem estritamente uma lógica bipolar.
- Fragmentação económica e financeira, com países a explorarem alternativas aos sistemas dominados pelo Ocidente.
- Pressões regionais — por exemplo, conflitos no Médio Oriente ou tensões no Indo-Pacífico — que moldam alianças e prioridades geopolíticas.
Esta configuração difere significativamente da competição clara entre dois blocos característicos da Guerra Fria tradicional.
Desafios e riscos a curto/médio prazo
A transição para uma nova ordem mundial não é linear e implica riscos reais:
- Instabilidade e competição por recursos estratégicos, rotas comerciais e domínios tecnológicos.
- Maior fragmentação institucional, com organismos multilaterais tradicionais a perderem influência relativa.
- Potencial para conflitos indiretos ou por procuração, como no caso da Europa Oriental, ou desacordos em zonas geográficas sensíveis.
Os próximos anos provavelmente serão marcados por uma concorrência acirrada entre potências — tanto nos planos militar como económico — em vez de uma ordem global estável e uniforme.
Conclusão: que tipo de ordem mundial?
A análise actual sugere que estamos numa fase de reconfiguração geopolítica:
A ordem unipolar liderada pelos EUA está a perder monopólio de influência.
A China emerge como actor económico e político global e essencial.
A Rússia mantém um poder militar significativo, mas com limitações estruturais.
O sistema tende para uma multipolaridade complexa em que diferentes centros de poder se equilibram e rivalizam.Esta nova ordem mundial — não totalmente definida nem institucionalizada — será provavelmente moldada por uma combinação de rivalidade geopolítica, competição tecnológica e redes económicas regionais e transregionais, exigindo maior adaptação por parte dos Estados e instituições globais.

