Espuma dos dias — Não há Pretexto ou Plano para a Guerra de EUA e Israel contra o Irão. Por Arron Reza Merat

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

5 min de leitura

Não há Pretexto ou Plano para a Guerra de EUA e Israel contra o Irão

 Por Arron Reza Merat

Publicado por  em 28 de fevereiro de 2026 (original aqui)

 

Apresentados como ataques contra o “mal”, as ofensivas de Washington e Telavive deixam o Irão com poucas saídas diplomáticas. Os incentivos de Teerão agora apontam para a escalada como uma questão de sobrevivência.

Uma das principais promessas do Trumpismo era a de que a direita estaria a virar a página do neoconservadorismo da era Bush na política externa. O ataque de hoje ao Irão é mais uma prova do quanto essa afirmação sempre foi falsa (AFP via Getty Images)

 

Horas após Teerão ter concordado com a concessão sem precedentes de eliminar o seu arsenal nuclear, Donald Trump anunciou o lançamento de uma guerra aérea “massiva e contínua” entre os EUA e Israel para derrubar a República Islâmica.

Trump alegou ter lançado a Operação Epic Fury porque o Irão ter-se-ia recusado a negociar e “apenas queria praticar o mal”. As Forças de Defesa de Israel [Forças Armadas] anunciaram o início das hostilidades num tuit afirmando que “Israel tem o direito de se defender”.

Às 9h45, hora local em Teerão, Israel e os Estados Unidos utilizaram bombardeiros de alta altitude, aviões e mísseis de cruzeiro para atacar alvos militares e civis em todo o vasto país. Tanto o Líder Supremo Ali Khamenei como o Presidente Masoud Pezeshkian foram alvos dos ataques. Os media israelitas estão repletos de relatos de que Khamenei, que governa o Irão há quase trinta anos, está morto — uma afirmação rejeitada pelos media iranianos. (Fontes dentro do Irão relataram que o filho e a nora de Khamenei foram mortos.) Os ataques também visaram o general do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC), Mohammad Pakpour, bem como o ministro da defesa e o chefe de inteligência do Irão. Uma escola de raparigas em Minab, no sul do Irão, também foi atingida. O número de mortos agora chega a cinquenta, com um número semelhante de feridos. De acordo com os media nacionais, as vítimas têm a partir de sete anos de idade. As casas de Mahmoud Ahmadinejad, presidente de 2005 a 2013, e do ex-primeiro-ministro Mir Hossein Moussavi, que está sob prisão domiciliária há dezassete anos, também foram alvos, indicando que os Estados Unidos e Israel desejam, na melhor das hipóteses, remover quaisquer pretendentes ao poder fora do seu controle ou, na pior das hipóteses, criar um vácuo de poder no topo que poderia precipitar uma guerra civil.

Teerão respondeu lançando uma primeira onda de mísseis balísticos contra Israel e visando ativos militares dos EUA na região. O Irão está cercado por bases aéreas e navais americanas que abrigam cerca de quarenta mil soldados. Ataques foram relatados nas proximidades da Base Aérea americana de Ali Al-Salem, no Kuwait; da Quinta Frota da Marinha dos EUA, no Bahrein; da Base Aérea de Al Udeid, no Catar; e da Base Aérea americana de Al Dhafra, nos Emirados Árabes Unidos. Explosões também foram relatadas em Riade e arredores, a capital da Arábia Saudita, que abriga importantes ativos militares dos EUA. O Irão fechou o Estreito de Ormuz, o ponto de estrangulamento de um quinto do abastecimento global de petróleo.

Israel fez sua a “marca registada” de utilizar a perspetiva de paz como uma tática para prosseguir guerras contra os seus inimigos. Em junho, durante a última ronda de negociações entre os EUA e o Irão sobre a questão nuclear, Israel matou os principais negociadores de Teerão e tentou decapitar o governo civil no primeiro dia da sua guerra de doze dias contra o Irão, à qual os Estados Unidos se juntaram no último dia. Em setembro, quando a diplomacia sobre a guerra de Gaza se aproximava de um acordo de cessar-fogo, Israel atacou a ala política do Hamas em Doha.

Do ponto de vista dos EUA, as negociações com o Irão têm sido moldadas pelo desejo de Trump de conquistar um acordo mais vantajoso para os Estados Unidos do que o acordo “terrível” que Barack Obama finalmente negociou em 2016, após mais de uma década de diplomacia entre Teerão e as potências mundiais. Durante o seu primeiro mandato, Trump abandonou o acordo unilateralmente e, desde então, assumiu uma posição maximalista nas negociações com Teerão consistente com a antiga exigência israelita de que ao Irão deve ser negado o seu direito de enriquecer qualquer urânio.

Numa omissão reveladora em 21 de fevereiro, o principal negociador de Trump, Steve Witkoff, disse que o presidente ficou surpreendido pelo facto de Teerão não ter simplesmente “capitulado” às exigências dos EUA. Após essa declaração, ambos os lados pareceram estar próximos de um acordo; o Irão acedeu às exigências de Trump de dizer as “palavras secretas” de que “nunca teremos uma arma nuclear” e concordou em enriquecer urânio apenas até os requisitos necessários para produzir isótopos médicos e alimentar a sua única unidade industrial nuclear.

Trump, assim como os seus antecessores, tem sido cerceado em negociações porque a opção dos EUA de conceder um alívio significativo das sanções — a única coisa que o Irão deseja — requer a aprovação do Congresso. No entanto, o Congresso possui um forte apoio bipartidário a políticas de linha-dura contra o Irão, em grande parte devido à influência de longa data que o lobby de Israel, o AIPAC, exerce sobre o legislativo, apoiando financeiramente as campanhas de candidatos favoráveis desde que votem alinhados com Israel.

Durante décadas, Khamenei seguiu uma política da chamada paciência estratégica, projetada para dissuadir a violência dos EUA e de Israel, ou pelo menos mantê-la dentro da ‘zona cinzenta’ de operações secretas, sabotagem e assassinatos. Mas, desde 7 de outubro de 2023, Israel tem, com o apoio dos EUA, travado um genocídio implacável contra a Palestina e guerras regionais contra os aliados do Irão no Líbano, Síria, Iraque e Iémen, que forneciam os meios para Teerão manter a sua profundidade estratégica contra Israel e, consequentemente, contra os Estados Unidos. Agora que o Irão está a sofrer um segundo ataque não provocado, todos os incentivos apontam para uma escalada que, nas atuais circunstâncias, significa intensificar os contra-ataques, podendo chegar a uma guerra total.

O problema para os Estados Unidos e Israel é que, embora sejam capazes de matar muitas pessoas e semear o terror entre a população iraniana, é extremamente improvável que o seu objetivo de guerra — bombardear o Irão para provocar uma revolução ou, na melhor das hipóteses, um golpe de Estado — seja bem-sucedido. Historicamente, guerras aéreas por si só nunca foram eficazes em alcançar mudanças de regime. Na Alemanha e no Kosovo, as guerras aéreas foram travadas em conjunto com um exército de ocupação. Em 2025, os Estados Unidos desistiram da sua guerra aérea contra o governo de facto do Iémen. Teerão estará consciente do que aconteceu em 1983, quando apoiou milícias xiitas libanesas durante a guerra civil libanesa nos seus ataques contra tropas e navios dos EUA, o que resultou na retirada das tropas de Washington sob fogo.

Desde junho, o Irão também tem recebido apoio sem precedentes da Rússia e da China. Moscovo tem trabalhado com Teerão para reconstituir as suas defesas aéreas, e a China está a fornecer mísseis antinavio. Uma empresa privada chinesa próxima dos militares divulgou imagens de satélite sobre as posições de ativos navais dos EUA, o que observadores interpretaram como um sinal da China de que poderia apoiar o Irão com inteligência em tempo real para se poder defender.

A política interna atual dos EUA também tem pouca capacidade de sustentar uma perda significativa de vidas americanas. O Irão parece ter uma estratégia de curto prazo para absorver os ataques e tentar impor rapidamente o custo máximo aos Estados Unidos e a Israel, na esperança de que atores regionais, que temem uma desestabilização mais ampla, pressionem com sucesso os Estados Unidos por um cessar-fogo. No longo prazo, o Irão preparou-se para uma guerra sustentada e sangrenta. Khamenei nomeou o seu sucessor e instruiu a nomeação de quatro escalões de oficiais militares no caso de ataques de decapitação. Teerão terá como objetivo matar americanos em número suficiente para encerrar a guerra, desestabilizando Trump internamente.

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O autor: Arron Reza Merat foi correspondente em Teerão. É professor e jornalista e atualmente vive em Londres.

 

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