Do banditismo sanguinário de Trump e Netanyahu ao servilismo da Europa — Texto 2. Irão: as sancões económicas e as suas consequências (1979-2025). Por Gérard Funffrock

Nota prévia:

Vale a pena perceber a história de um pais martirizado por tudo, pelo  seu próprio sistema, pelo vandalismo que se gera com a política externa americana de décadas e pelo ..  sionismo . Goste-se ou não, fala-se apenas de coisas passadas, de factos que é preciso ligar e ligar ao presente  que tão violentamente nos atormenta.

 Júlio Mota


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

14 min de leitura

Texto 2. IRÃO: As sanções económicas e as suas consequências (1979-2025)

Quais são as origens das dificuldades económicas encontradas pelo regime iraniano.

Publicado por Regis de Castelnau em 2 de Março de 2026 (original aqui)

 

(…)

O artigo que publicamos hoje, com a assinatura de Gérard Funffrock, engenheiro e doutor em história contemporânea (Paris 1 Panthéon-Sorbonne), faz parte dos artigos de fundo, mas tendo em conta a actualidade e a necessária clarificação da situação iraniana e das suas origens, pareceu-nos evidente que deveria ser um texto de leitura não paga.

Aproveitamos, no entanto, a ocasião para recordar que o uso destes novos meios de comunicação para lutar contra uma propaganda desenfreada e, sobretudo, contra a censura instaurada a marcha forçada pelo sistema, é algo de essencial. Sabemo-lo pelos retornos e pelas mensagens que recebemos. É por essa razão que lanço este pequeno apelo às assinaturas pagas, sabendo que os recursos que estas proporcionam são exclusivamente reservados aos meios materiais de que necessitamos.

Fielmente vosso

Régis de Castelnau

 

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IRÃO: AS SANÇÕES ECONÓMICAS E AS SUAS CONSEQUÊNCIAS (1979-2025)

Por Gérard Funffrock, engenheiro, doutor em história contemporânea (Paris 1 Panthéon-Sorbonne)

 

Os EUA são, entre as potências que sancionam os países pequenos, pequenas nações, pequenos Estados ou considerados como tais, mas que não se submetem à hegemonia, aquela que mais sanciona. Esses países e os seus governos são considerados hostis à segurança dos Estados Unidos. A obra de Richard Nephew teoriza a prática dessas sanções (The Art of Sanctions), cujo objetivo declarado é provocar o colapso económico do país visado. Com que finalidade? Incitar as populações subjugadas a revoltar-se contra os dirigentes do país punido, incluindo através de intervenções de agentes infiltrados encarregados de armar e incitar a população a lutar com o objetivo confessado de derrubar o regime em vigor e de desmembrar o país visado para se apropriar indevidamente das suas riquezas (a caverna de Ali Babá: gás, petróleo, minérios). Este objetivo, do ponto de vista americano, foi “bem-sucedido” a partir de 2003 no Iraque, na Síria, na Líbia, por exemplo, mas as consequências foram devastadoras para a estabilidade do Médio Oriente e para a descida ao inferno das populações (fomes, deslocamentos populacionais, vítimas dos bombardeamentos). Mais recentemente, no Irão, em ligação com os opositores — nomeadamente os do antigo regime do Xá e da sua ditadura terrorista através da Savak —, os EUA e Israel coordenaram as intervenções regulares da CIA e do Mossad há vários anos, com o objetivo de mudar o regime, de o fazer capitular e depois de o desmembrar e destruir. Tentativas que, por enquanto, falharam. O Irão é uma grande nação que não é o Iraque, nem a Síria, nem a Venezuela. Irania delenda est, tal é o slogan que visa a destruição da unidade da nação iraniana com vista ao seu desmembramento e fragmentação. Em contrapartida, esta estratégia de sanções aplicada à Rússia desde 2014 não produziu verdadeiramente o efeito esperado — antes pelo contrário. Compaixão pelo povo iraniano, independentemente da natureza do seu regime político, nascido em 1979 do colapso económico do Irão do Xá, submetido às companhias anglo-americanas desde o golpe de Estado de 1953 que derrubou o infeliz Mossadegh, democrata e muito pouco comunista.

Segundo Joris Cuynet, na sua obra L’Iran sous sanctions. Une société sous pression, publicada em 2022, o autor indica que as sanções foram particularmente severas. Desde a chegada ao poder dos xiitas em 1979, no momento da vitória da revolução islamista, os EUA sancionaram os iranianos após a tomada de reféns na embaixada americana: congelamento dos ativos iranianos nos EUA. Em 1980, os EUA utilizaram Saddam Hussein para que o Iraque atacasse o Irão (1 milhão de mortos no conjunto dos dois lados, empobrecimento do Irão). Em 1995, foi imposto um embargo económico ao Irão; em 2013, sanções sobre o setor automóvel. Contra o programa nuclear revelado em 2005, a UE, após sanções relacionadas com os Direitos Humanos, impôs, em 2010 e 2012, um embargo sobre o setor petrolífero e financeiro; em 2018 (Trump 1), os EUA impuseram ainda sanções aos países que comercializassem com o Irão em dólares. A ONU sancionou no domínio das armas e do nuclear. Em 2019, Trump 1 denunciou unilateralmente o tratado celebrado com o Irão sobre o enriquecimento de urânio. As sanções endureceram. A vida quotidiana do povo iraniano foi mergulhando progressivamente na pobreza e, por vezes, na miséria, como em 2020, aquando do Covid, enquanto o país dispõe de uma riqueza petrolífera e gasífera que não pode explorar livremente. É compreensível o ódio do povo iraniano em relação aos EUA e a Israel, ódio instrumentalizado — mas pode-se censurá-lo por isso? — pelo governo para consolidar a unidade nacional.

 

A – Consequências económicas. (os elementos estatísticos são frequentemente extraídos do livro de Joris Cuynet, L’Iran sous sanctions. Une société sous pression)

A maldição do petróleo:

Depois de terem sido privados, sob o Xá, da exploração do petróleo e dos seus recursos financeiros — nas mãos das companhias anglo-americanas, de 1953 a 1979 (40% para a Grã-Bretanha com a Anglo-Iranian Oil Company, 40% para a Standard Oil e 20% para comprar o Xá, sua corte e a SAAK) —, o povo iraniano, tornando-se novamente proprietário das suas riquezas petrolíferas, não pode, logo a partir de 1980, vender o seu petróleo para reerguer a economia do país, deixada exangue em 1979.

As exportações caíram, o que provocou uma queda na produção: esta passou de 6 milhões de barris/dia em 1979 para 3,6 milhões em 2010; as exportações passaram de 5,5 milhões em 1978 para 2 milhões em 2010. A população duplicou entre 1975 e 2010, passando de cerca de 33 milhões para cerca de 74 milhões, segundo Joris Cuynet (92 milhões em 2025). Isso representava 60% das receitas do orçamento do Estado. Porém, o embargo de 2012 agravou ainda mais esta deterioração. Os bancos internacionais deixaram de processar transações entre o Irão e os outros países, que já não pode exportar petróleo, peças sobressalentes para automóveis, frutos secos e tapetes — tantas empresas que acabam por falir. Até mesmo as exportações de produtos da pesca foram afetadas. As exportações caíram de 2012 a 2020 de 106 mil milhões de dólares para 53 mil milhões, enquanto as importações passaram de 65 mil milhões em 2010 para cerca de 42 mil milhões. Em valor, as exportações de petróleo passaram de mais de 114 mil milhões de dólares em 2011 para 7,7 mil milhões em 2020, sendo que em 1978, sob a ditadura do Xá, eram apenas de 21 mil milhões. Os iranianos estão desprovidos de meios para fazer face a estas sanções. As tentativas de investimento estrangeiro no setor para melhorar a rentabilidade e a produtividade foram varridas pelas sanções americanas. A partir de 2018, com o regresso das sanções, qualquer empresa comercial ou banco que comercialize (venda ou compra) é imediatamente penalizado pelos EUA. Em 2018, o petróleo representa 65% das receitas do Estado (receitas essas em queda) e mais de 20% do PIB.

 

A moeda e o sistema bancário

O colapso das receitas petrolíferas e a proibição do comércio provocaram a queda da moeda nacional e, consequentemente, uma inflação galopante, gerando para a população grandes dificuldades em obter o estritamente necessário para se alimentar, receber cuidados de saúde, deslocar-se e instruir-se. A penúria de divisas (fluxos financeiros de entrada) para comprar no exterior (nomeadamente medicamentos) agrava-se com a diminuição do turismo e a forte redução da presença da Total e da Peugeot. Os capitais fogem do Irão e a moeda, que já não é procurada, desvaloriza-se. De 2002 a 2021, o rial perdeu 97% do seu valor face ao dólar (em 2002, 1 400 riais por 1 d+olar; em 2021, 42 000 riais por 1 dólar), tendo perdido 73% entre 2011 e 2021 devido às novas sanções americanas. Estabelece-se uma dupla taxa de câmbio: uma oficial e outra no mercado negro, sobretudo para a compra de dólares, o que gera corrupção e desvia do comércio lícito.

Em dezembro de 2025, os EUA (Trump 2) produziram uma manipulação da moeda iraniana, que entrou em colapso, manipulação esta para provocar pânico e a revolta dos iranianos, a fim de que se insurgissem contra o governo.

O sistema bancário encontra-se preso na armadilha das desvalorizações oficiais e das depreciações (fuga de investidores e de capitais). O banco central não consegue implementar uma política monetária para estabilizar a sua moeda, pois, com falta de divisas estrangeiras (exporta cada vez menos), não pode recomprar a sua própria moeda para evitar o seu afundamento. Em paralelo, os Guardiães da Revolução criaram instituições financeiras sem autorização, portanto ilegais, induzindo tráfico e desvio de fundos. Ao aderir aos BRICS, o Irão pode beneficiar da substituição do SWIFT (o efeito não será imediato) para os pagamentos interbancários.

 

Inflação e nível de vida

Os EUA incentivaram o Iraque (Saddam Hussein) a fazer guerra contra o Irão para enfraquecê-lo, de 1980 a 1988 (500 000 mortos de cada lado), o que gerou escassez e inflação no Irão (20%/ano).

A queda da moeda e a impossibilidade de importar mercadorias essenciais provocaram uma inflação descontrolada (escassez de oferta e especulação). Ela passou de 21% em 2011 para 35% em 2013, depois 10% em 2017. Em 2018, Trump rompeu unilateralmente o acordo nuclear de 2015, retomando as sanções, e a inflação voltou a crescer a partir de 2018 com 30%, chegando a 40% em 2021. Em 2025, passou de 31% em janeiro para 48% em setembro, provavelmente mais desde dezembro. (fonte: aqui) . Alimentar-se e ter acesso a cuidados de saúde tornou-se muito difícil após 46 anos de sanções. O governo tentou controlar os preços das mercadorias, mas sem sucesso, pois as empresas foram à falência devido à perda de receitas.

Os rendimentos dos iranianos não acompanharam a inflação; o seu nível de vida e poder de compra caíram acentuadamente.

 

Queda dos rendimentos e escassez de bens de primeira necessidade.

A queda das exportações, da moeda e, consequentemente, das divisas impede o governo de se abastecer no estrangeiro com os bens necessários, provocando uma inflação por especulação. Por exemplo, em 2010, o Irão importava 65,5 mil milhões de dólares, mas em 2019 apenas 41,8 mil milhões de dólares (- 36%). Os medicamentos são caros (+ 20% a + 100% consoante a origem), quando estão disponíveis. A mendicidade e o contrabando aumentam para obter a maioria dos artigos necessários. A classe média colapsa economicamente; os mais abastados conseguem safar-se bem. As classes populares estão ausentes e invisibilizadas, apesar de serem maioritárias, e parecem já não estar representadas na prática.

 

B- Queda do PIB, aumento do desemprego.

População e produção.

De 2011 a 2019, o PIB caiu 3%, mas a população aumentou 10% entre 2010 e 2018. O ano da Covid (2020) não melhorou a situação, tanto mais que durante esse período a China e a Rússia não se apressaram a fazer comércio  com o Irão, assim como muitos outros países.

A economia e a produção estão divididas em 3 sectores:

  • um sector público constituído pelas grandes indústrias essenciais para o Estado: comércio internacional, banca, seguros, minas, energia, água, meios de comunicação (rádio e televisão), comunicações em rede (internet, etc.)
  • um sector de cooperação: produção e distribuição urbana e rural segundo as regras islâmicas (xiitas)
  • Um setor privado: agricultura, pecuária, comércio, serviços.

 

O peso do Estado na economia foi multiplicado por 4 e o número de empresas por 33. O setor cooperativo manteve-se sólido apesar da queda do PIB e das dificuldades desde a guerra contra o Iraque. O setor privado, produtivo, de estrutura familiar, foi o mais afetado pelas sanções. Sendo a população do Irão muito conectada à internet (78% contra 72% para o Médio Oriente e o Magrebe), foram criadas empresas emergentes num ambiente sem concorrência estrangeira (proibida no Irão); empresas do tipo Uber e Amazon.

Quanto às empresas privadas estrangeiras em solo iraniano, as sanções levaram-nas à saída: a Peugeot e a Renault, primeiro empregador industrial do Irão em 2010.

 

O Desemprego

Os jovens (15-24 anos) representam a categoria da população mais afetada pelo desemprego: de 2005 a 2009, a taxa variou de 22,3% a 24,7%, mas com o endurecimento das sanções, de 2010 a 2018, passou de 25,2% para 29,2%. Para a população ativa desde 2011, situa-se entre 10,4% e 12,6%. Os empregos públicos aumentaram de 2011 a 2016 em cerca de 290 000 (excluindo defesa e serviços secretos).  Para aqueles que têm emprego, o trabalho a tempo parcial aumentou, passando de 25,1% em 2015 para 32,2% em 2018. O desemprego é, portanto, muito superior à média da grande região (Magrebe-Médio Oriente). Paradoxalmente, as sanções e a estrutura do desemprego empurraram as mulheres e os seniores a procurar trabalho por todos os meios e para todos os estatutos possíveis.

 

Pobreza e desigualdades.

O novo regime instaurado pela revolução de 1979, a República Islâmica, prometeu eliminar a pobreza deixada por 26 anos de ditadura do Xá e pela captação das riquezas petrolíferas pelos EUA e pela Grã-Bretanha após o golpe de Estado de 1953.

Infelizmente, em 1980, os EUA empurraram o Iraque a fazer a guerra contra o Irão com o objetivo de eliminar o novo poder. Ela durou até 1988 e causou 1 000 000 de mortos (500 000 de cada lado). Apesar de esforços direcionados para a agricultura, a economia não permitiu eliminar a pobreza. A partir de 2000, a subida do preço do petróleo permitiu melhorar a situação. Em 2011, ajudas diretas (28 % do rendimento mediano) foram atribuídas aos mais pobres, mas a inflação, as sanções e a diminuição das receitas do petróleo reduziram os efeitos das ajudas sociais. As desigualdades sociais agravaram-se nos últimos anos (desde 2017).

 

C- A redistribuição das riquezas e o colapso das receitas petrolíferas.

Ajudas diretas às famílias, subsídios e pensões de reforma.

De 1997 a 2013 (presidência Khatami, presidência Ahmadinejad), foi implementado um sistema de ajudas diretas para combater a pobreza e as desigualdades; este sistema representava, consoante o tamanho da família, entre 10% e 40% do rendimento de um trabalhador não qualificado; 2/3 das famílias puderam beneficiar dele. Estas ajudas foram possíveis graças ao endividamento do Estado e às receitas das exportações petrolíferas. Mas as sanções e a inflação (o cabaz de compras médio multiplicado por 6) destruíram este sistema de ajudas, que se tornou ineficaz (poder de compra dividido por 10 entre 2010 e 2021, com subsídios não reavaliados desde o início).

Em 2017, parlamentares alertam sobre os riscos do sistema iraniano de pensões de reforma: das 12 caixas de previdência, 5 estão em falência e as demais em equilíbrio precário, enquanto a população envelhece e o número de contribuintes diminui com o elevado desemprego. Investimentos financeiros em ativos faliram e desenvolveu-se a corrupção, denunciada pelas autoridades políticas. Em 2017, o número de aposentados acima da idade legal de reforma que recebem uma pensão não passa de 17%. Profissionais de saúde enfrentam salários atrasados desde há 1 ou 2 anos; da mesma forma, apenas 6,7% dos desempregados recebem subsídio de desemprego. O Estado não pode nem tomar empréstimos nem imprimir papel-moeda por causa de uma inflação descontrolada. Manifestações de indignação surgem contra os gastos em operações externas (Síria, Líbano) em vez de se favorecerem as despesas sociais. A redistribuição das riquezas está paralisada.

 

D – O sistema sanitário e o Covid

Em 2014, a justiça dos Estados Unidos sancionou o banco francês BNP Paribas com uma multa de quase 9 mil milhões de dólares por ter comercializado com o Irão, Cuba e o Sudão, em violação das sanções americanas (extraterritorialidade da lei do poder hegemónico americano). Esta retaliação não incentivou as empresas, bancos e industriais a comercializar com o Irão. Além disso, o colapso da moeda iraniana, o rial, não permitiu ao governo adquirir bens de primeira necessidade no mercado mundial. Resultado: a capacidade do Irão de importar medicamentos e material médico entrou em colapso, tal como a produção, a distribuição e a disponibilidade de medicamentos no país.

As empresas francesas, alemãs, suecas e italianas cessaram, a partir de 2018, o fornecimento de matérias-primas farmacêuticas ou de medicamentos ao Irão, que se voltou então para a Índia e a China em busca de substitutos de qualidade inferior, com repercussões negativas na cirurgia, na medicina e na ginecologia-obstetrícia. As vacinas e os produtos biológicos deixaram de estar acessíveis, assim como o material para ambulâncias. Desde 2019, as entregas humanitárias encontram-se condicionadas. Aquando das grandes inundações de 2019, os socorros humanitários internacionais não puderam chegar a tempo. O governo não consegue divulgar dados sobre a sobremortalidade devida às sanções — o que coloca sérias questões quanto à legitimidade e à legalidade dessas medidas em termos de direito internacional.

O governo instrumentaliza o colapso sanitário — que é real e dramático — para obter o levantamento das sanções. O governo iraniano apoia-se no direito internacional da ONU e em tratados internacionais para denunciar as ações dos Estados Unidos. Por exemplo, no que diz respeito às escassez, investigadores iranianos que publicam no mundo ocidental constatam que, de 26 medicamentos essenciais para a asma, o cancro e a diabetes, metade sofreu uma redução na disponibilidade desde 2008 — até 42% no caso de certos medicamentos (OMS). Os suíços e os franceses reduziram em 2017-2018 a entrega de medicamentos em 30% e 25%, respetivamente. Os soldados intoxicados por gás durante a guerra Irão-Iraque de 1980-1988 já não encontram os medicamentos adequados. No total, segundo a OMS, faltam 244 medicamentos dos 433 classificados como essenciais (Human Rights Watch).

Em fevereiro de 2020, a epidemia tem início, mas o governo minimiza o número de mortos para não alarmar a população antes das eleições legislativas de 21 de fevereiro. A 1 de novembro de 2021, registam-se 6 milhões de casos e cerca de 127 000 mortes. Os hospitais carecem de tudo, nomeadamente de máscaras, luvas e fatos de proteção. O governo confronta-se com o dilema de se permanecer em casa sem trabalhar, sem produzir, ou de regressar ao trabalho com os riscos de contágio, no contexto de uma economia em colapso. Os EUA recusam-se a ajudar (Trump 1, M. Pompeo), enquanto alemães, britânicos e franceses prestam alguma assistência. Contudo, os iranianos não têm meios para comprar (empréstimo do FMI). Quanto às vacinas, recusam as do mundo ocidental e voltam-se para a Rússia, a China, a Coreia do Sul e a OMS. No verão de 2021, os iranianos desenvolvem a sua própria vacina, não reconhecida pela OMS, e a vacinação tem início pouco depois. O atraso do governo em gerir a crise sanitária e em revelar a gravidade do problema tornou a população desconfiada, tal como aconteceu em numerosos países, incluindo em França (escassez de máscaras, utilidade ou não das máscaras, ausência de vacina francesa).

 

E- O acesso à água e a rede hídrica.

Esta questão é um problema crucial para os iranianos há muito tempo, agravado por uma gestão caótica da água e pelas sanções americanas.

A média de precipitação é de 250 mm/ano (na França, situa-se entre 650 e 900 mm conforme as regiões), mas muito desigualmente distribuída; assim, 70% das precipitações estão concentradas nas margens do mar Cáspio e no norte da fronteira iraquiano-iraniana; nas outras regiões, 70% das precipitações evaporam-se e 97% da superfície do país enfrenta secas periódicas. As reservas de água entraram em colapso em 2/3 do território. Os lagos estão a secar, assim como alguns rios, devido às barragens a montante destinadas à indústria e à agricultura. O consumo de água não é controlado e é desperdiçado pela população, pela agricultura (90% do consumo) e por uma rede defeituosa que provoca perdas desnecessárias. A população também dobrou desde 1979 (revolução islâmica), passando de cerca de 40 milhões para 90 milhões em 2025, o que agrava o problema (produção agrícola fortemente aumentada). As técnicas agrícolas permanecem artesanais e pouco económicas em água; além disso, para exportação e obtenção de divisas, o Irão produz intensivamente arroz, pepinos e melancias, culturas que necessitam de grandes quantidades de água.

O governo, depois de ter encorajado, de forma não controlada, a construção de barragens e poços (para a agricultura), recua a partir dos anos 2000. Não existe uma direção única para o problema da água; cada instituição ou facção islâmica faz o que quer para servir interesses particulares. O preço da água é demasiado baixo para permitir investimentos em infraestruturas modernas de economia de água. Nos últimos anos (2017, 2018), o preço foi fortemente aumentado, provocando manifestações com confrontos contra os Guardas da Revolução; os poços ilegais foram proibidos, em vão.

As sanções americanas desde 1979 obrigaram os sucessivos governos iranianos (integristas ou moderados) a privilegiar a produção industrial e agrícola, a fim de escapar aos embargos e de poder alimentar a população em condições muito degradadas. O problema dos recursos hídricos e dos desperdícios não foi verdadeiramente tratado, por obrigação de cultivar plantas exigentes em água (o arroz, por exemplo) para exportação.

O colapso dos recursos, a diminuição ou mesmo o cancelamento dos investimentos e empréstimos estrangeiros ou do FMI impediram qualquer investimento ou melhoria em todos os sistemas de economia de água. O Estado, sob sanções, já não dispõe de nenhum meio financeiro para remediar qualquer problema que seja (rede, técnicas agrícolas e drenagem, distribuição de água em meio urbano); não pode solicitar ao estrangeiro que invista em novas tecnologias. As novas importações, provenientes da China, são mais caras e de menor qualidade. O Irão, apesar das dificuldades, deve importar parcialmente o que já não consegue produzir internamente na agricultura: arroz, oleaginosas, milho, farelo e farinhas.

 

F- Conclusão

Os efeitos das sanções tiveram como consequência o colapso económico e social do país, o que era o objetivo que procuravam os Estados Unidos a fim de provocar revoltas para mudar o regime e instalar governos favoráveis aos americanos e às suas companhias de petróleo e gás, ao mesmo tempo que mantinham uma presença de poder no Oriente Médio. O objetivo dessas guerras económicas por meio de sanções é o desmembramento da nação iraniana. Os iranianos desenvolveram a sua defesa da nação e o seu ódio pelos americanos e israelitas, que assassinam in loco os seus líderes, os seus engenheiros etc., e bombardeiam o país sem motivo ou declaração de guerra conforme a Carta da ONU (bombardeamentos gratuitos de junho de 2025 pela aviação israelita e depois pela americana, sob o pretexto de uma guerra preventiva). Ao mesmo tempo, a sua hostilidade à forma como o governo resolve certos problemas foi crescendo, juntamente com o sentimento de desclassificação do Irão em relação aos países árabes vizinhos.

À exceção de uma agressão americana, o desfecho permanece incerto, pois o único “salvador” promovido pelos média ocidentais continua a ser o filho do Xá deposto em 1979 por falência económica e por uma política de terror pró-americana (com a SAVAK, polícia política do Xá); as oposições são heterogéneas: as que sofrem com as sanções e que podem atribuir os seus males ao governo islamista — o qual reprime toda a oposição, legítima ou não — são uma realidade e as que sonham com um regresso ao antigo regime e que são financiadas por vários países ocidentais através dos seus serviços secretos (CIA, Mossad, MI6). Provavelmente, uma grande parte da população poderá unir-se em torno do governo.

Ao escolher entre dois males, escolhe-se o menor e o menos desconhecido.

 

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