SEM ASAS PARA VOAR – por Eva Cruz

SEM ASAS PARA VOAR

por Eva Cruz

 

Pintura de Adão Cruz

Diz o calendário que começou a Primavera. E começou bem. Pelo menos assim parece. Começou, como sempre, com o sol a brilhar, ainda que muito longe, não para todos… como sempre apenas para alguns, cada vez mais para menos, com uma leve aragem destemperada a avisar que o Inverno, o da chuva e do vento ainda não se havia despedido. Ou talvez a adivinhar que o outro inverno, o da desumanidade e da morte ainda estava longe de se ir embora, ameaçando fincar os pés no mundo e tornar-se dono de todas as estações. Aproveitei este ilusório momento para me sentar na pequena varanda onde me delicio com as tonalidades dos poentes e a confiança em mais um sopro de vitamina D. De imediato, ali poisou a meu lado, em cima da grade, uma pomba branca, com qualquer coisa no bico que me pareceu um pequenino graveto, semente e sonho de um futuro ninho, ou, quem sabe, um raminho de oliveira, mas o que a pomba branca trazia era uma minhoca, que engoliu sofregamente. Os sonhos não se engolem desta forma, vivem-se até se desfazerem com o tempo.  Hoje, infelizmente, a pomba branca já não traz no bico um raminho de oliveira.

É habitual as aves poisarem ali, ou porque de tão alto lhes parece o céu fora do mundo ou porque, ao fim de tantos anos, sempre acreditaram que gostei de pássaros e passarinhos. Pouco tempo ali se deteve, talvez pensando que o mundo mudara, e a confiança não é hoje um lugar natural e seguro. Abriu as asas sem se despedir, desconsideração que nenhuma ave até então me fizera e voou pelo céu fora.

Lembrei-me do poema “As minhas asas”, de Almeida Garrett, que sabia de cor desde criança e que recitava na escola primária:

“Eu tinha umas asas brancas

Asas que um anjo me deu

Que em me eu cansando da terra

Batia-as, voava ao céu”.

E fiquei a pensar como seria tão fácil livrarmo-nos tão poeticamente dos sofrimentos da terra, como fazem os anjos e os seres humanos a quem eles ofereceram asas como neste poema. Bater as asas e voar, voar pelos céus do sonho, para bem longe dos pesadelos da terra. Decidi abandonar a cadeira, até porque o sol já estava bem mais quente… ou seria mais uma mentira das que inundam o mundo, e recolhi ao meu cantinho da sala. Liguei a televisão, e por todo o céu voavam bandos de mísseis com milhares de crianças no bico. Foi então que senti que se acabaram os anjos no céu e na terra, e só havia diabos de asas negras que em me eu cansando da terra de nada me valiam, pois já não haveria céu para onde voar, mas apenas inferno para me devorar.

“E as minhas assas brancas

Asas que um anjo me deu

Pena a pena me caíram

Nunca mais voei ao céu”.

 

 

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