GIRO DO HORIZONTE – PROVA DOS NOVE – por PEDRO DE PEZARAT CORREIA

 

O texto que segue foi editado no jornal diário “Público” de 4 de abril de 2026, p. 8. O acolhimento suscitado em muitos camaradas, amigas e amigos, incentivou-me a multiplicar a sua divulgação. Daí a sua inclusão no GIRO DO HORIZONTE de hoje.

 

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Vasco Lourenço (VL) publicou, recentemente, o livro Memórias de um Capitão de Abril, o 25 de Novembro (Âncora, Lisboa, 2025).

Alguém, sócio da A25A, afirmando-se “espantado”, alertou-nos, por escrito, para uma passagem do livro, entre muitas outras não menos controversas. Dizia:

Na pág. 236 das suas Memórias, o VL escreve o seguinte (…): “Na passagem dos 45 anos do 25 de Novembro de 1975 (…) dou por mim a recordar o posicionamento que o Grupo dos militares de Abril onde me integrei então assumiu (…) tendo falhado as várias tentativas (…) de encontrar uma solução comum aos militares de Abril; juntou forças (mesmo sabendo que algumas delas ambicionavam a destruição do próprio 25 de Abril) para enfrentar os que, minoritários, queriam impor a sua solução (…)”

E interrogava-nos o remetente:

Os elementos do Grupo dos Nove entenderam que poderiam garantir a consumação do 25 de Abril juntando forças com grupos (ou forças) que ambicionavam a destruição do próprio 25 de Abril? A verdade é que não conheço nenhuma declaração neste sentido feita por qualquer outro membro do Grupo dos Nove.

Isto é: VL afirma que o Grupo dos militares de Abril em que se integrou assumiu juntar forças que sabia ambicionarem a destruição do próprio 25 de Abril, para enfrentar outros camaradas do 25 de Abril. Mais à frente confirma que é ao Grupo dos Nove que se refere.

Dado desconhecer-se o paradeiro de Canto e Castro, admito que os signatários, José Manuel da Costa Neves e Rodrigo Sousa e Castro, sejam, para além de VL, os sobreviventes dos membros do então Conselho da Revolução que constituíram o Grupo dos Nove. Enquanto tal e, apesar de a caminho dos 94 anos, me considerar em plena posse das minhas faculdades mentais, não surpreendido, mas indignado, faço questão de afirmar:

  1. Durante o “verão quente de 1975”, em que se confrontaram distintos alinhamentos no seio do MFA, o Grupo dos Nove manteve-se sempre fiel ao espírito do Documento que os uniu: “Lutam por um projeto político de esquerda (…) uma sociedade socialista (…) inseparável da democracia política (…) com os partidos capazes de aderir a este projeto nacional (…) inseparável (…) das liberdades, direitos e garantias fundamentais (…) Só assim (…) poderá esperar que um grande bloco social de apoio, englobando proletariado urbano e rural, pequena burguesia e largos extratos da média burguesia (incluindo técnicos e intelectuais progressistas) possa ainda formar-se (…)”

  2. Nunca o Grupo dos Nove juntou quaisquer forças, ou a elas se juntou, sabendo que ambicionavam a destruição do próprio 25 de Abril. Se algum membro do Grupo dos Nove o fez, agiu por conta própria e não em representação do coletivo, carecendo de legitimidade para, em seu nome ou, à sua sombra, se acobertar.

  3. Daí que o signatário faça questão de se demarcar da afirmação de VL que, sem o consultar, o envolve numa calúnia que repudia. E fá-lo, também, solidário com a memória dos seus camaradas já desaparecidos que consigo constituíram o núcleo fundador dos Grupo dos Nove, assim igual e gravemente ofendida.

Estou em condições de afirmar que os meus camaradas Costa Neves e Sousa e Castro igualmente recusam que, enquanto membros do Grupo dos Nove, tenham participado em alguma decisão, ou tido conhecimento de alguma sua decisão, no sentido de juntar forças que soubessem ambicionar a destruição do próprio 25 de Abril.

 

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Dado ser pública a tomada de posição de VL, vejo-me obrigado a tornar, igualmente público, este meu esclarecimento.

6 de abril de 2026

 

 

 

 

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