O CANCELAMENTO E OS TRIBUNAIS DA OPINIÃO PÚBLICA:
O fascismo que se traveste de progressismo
por Salvio Kotter
Minha correspondência com Boaventura de Sousa Santos
Recebi, nas últimas semanas, duas mensagens de Boaventura de Sousa Santos. Não eram textos acadêmicos, tampouco manifestos públicos. Eram palavras de um homem de oitenta e cinco anos que, depois de meio século dedicado à construção de um pensamento emancipatório, se vê confinado aos blogues e aos livros que ainda consegue publicar. Indignado com tudo o que se passou, demitiu-se do Centro de Estudos Sociais, que fundou. A imprensa que antes o celebrava o converteu em réu sem julgamento. Os espaços que o acolhiam durante décadas fecharam as portas. Resta-lhe, diz ele, a escrita. E a escrita, como sabemos, é ao mesmo tempo o primeiro e o último reduto de quem pensa.
Boaventura me escreveu porque o fascismo, tema que ocupa lugar central em sua obra, voltou a ser objeto de reflexão urgente. Vladimir Safatle acabara de publicar A Ameaça Interna: Psicanálise dos Novos Fascismos Globais, pela Ubu Editora, um livro que Boaventura considera importante. Safatle argumenta ali que o fascismo contemporâneo não constitui uma aberração ou um desvio. É, antes, possibilidade estrutural da própria sociedade liberal, uma resposta coerente às contradições da subjetividade neoliberal. A partir de leituras de Freud, Lacan e Adorno, o filósofo sustenta que a centralidade da identidade individual cria condições propícias à dessensibilização e à indiferença, afetos que ele identifica como a matéria-prima do fascismo de nosso tempo. Para Boaventura, que há anos trabalha o tema sob outro ângulo, o livro de Safatle confirma, pela via psicanalítico-filosófica, o que suas epistemologias do Sul já vinham denunciando pela via sociológica. O fascismo nunca saiu de cena. Apenas mudou de linguagem.
Mas as mensagens de Boaventura não tratavam apenas de teoria. Tratavam, sobretudo, de Silvio Almeida.
O vídeo de Silvio e a solidariedade entre cancelados
Silvio Almeida, ex-ministro dos Direitos Humanos do governo Lula, publicou no último dia 31 de março um vídeo em que, pela primeira vez desde a denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República por importunação sexual, se pronunciou publicamente. No vídeo, Almeida declarou ser inocente. Disse que permanecera em silêncio por respeito à família, à lei e ao sigilo das investigações. Afirmou que, durante o inquérito, não pôde se defender. Agora, com a denúncia formalizada e o processo em tramitação sob sigilo no Supremo Tribunal Federal, sob relatoria do ministro André Mendonça, Almeida diz que pretende demonstrar a falsidade das acusações no único lugar onde isso é possível: diante de um juiz, com advogados, com provas.
Boaventura assistiu ao vídeo e mandou uma sensível mensagem de solidariedade a Silvio. A mensagem, que ele me transcreveu, é de uma candura reveladora. Nela, o sociólogo português felicita Almeida pelo pronunciamento, reitera solidariedade e, em seguida, faz algo inesperado: aconselha. O conselho não vem da tribuna acadêmica, vem da experiência de quem já percorreu o mesmo calvário e perdeu. Boaventura adverte Silvio de que os tribunais são uma solução condicionada. Em Portugal, diz ele, são condicionados pela opinião pública. E quando a opinião pública já está formada, a justiça se torna um mecanismo lento demais para restituir o que foi destruído.
Aqui, Boaventura recorreu à sua própria história para ilustrar a advertência. Ele conta que, ao tentar defender seu bom nome nos tribunais portugueses, interpôs uma ação cível de tutela da personalidade, um processo especial rápido. Acontece que, misteriosamente, o sistema de gravação dos depoimentos das suas testemunhas avariou. O processo ficou parado durante um ano, enquanto se tentava recuperar os depoimentos. O efeito útil da defesa se perdeu. Diante disso, Boaventura desistiu da ação cível e interpôs queixa criminal por difamação. Para espanto de seus advogados, o Ministério Público entendeu que, ao desistir da ação cível, ele perdera a legitimidade para prosseguir na ação criminal, e mandou arquivar a queixa. Boaventura recorreu ao superior hierárquico. Este confirmou a decisão do colega
O relato é kafkiano, e Boaventura sabe disso. No entanto, encerra a mensagem a Silvio com um conselho. Boaventura sugere que Silvio lute no campo da justiça e na opinião pública, escrevendo sobre temas de sua especialidade, talvez numa coluna regular, e certamente num livro sobre a difamação. Ou seja: a trincheira já não é o tribunal. É a palavra.
O padrão: Alysson, Silvio, Boaventura
Quando os casos de Alysson Mascaro e de Silvio Almeida estouraram, amigos brasileiros de Boaventura o aconselharam a não deixar cristalizar na opinião pública a ideia de que os três casos eram iguais. Ele acatou, embora, em suas mensagens a mim, deixem claro que enxerga neles um padrão comum. Não nos detalhes factuais, que são distintos, mas na mecânica do cancelamento: acusações que ganham vida própria na imprensa e nas redes sociais, sem que o acusado disponha de foro onde possa se defender, condenação sumária pela opinião pública, que precede qualquer julgamento, destruição de carreiras e reputações antes que qualquer tribunal se pronuncie, e, quando o tribunal finalmente fala, a fala chega tarde demais, ou sequer chega.
Alysson Mascaro, jurista e filósofo marxista da Universidade de São Paulo, foi alvo de denúncias anônimas publicadas pelo The Intercept em dezembro de 2024. A Congregação da Faculdade de Direito decidiu por sua demissão em dezembro de 2025, confirmada pelo reitor em fevereiro de 2026. Mascaro sempre negou as acusações, classificou o processo administrativo como viciado e publicou, em resposta, o livro Crítica do Cancelamento, no qual interpreta o fenômeno como forma de controle social própria do capitalismo contemporâneo. Para Mascaro, sob o verniz da justiça, o cancelamento converte lutas emancipatórias de gênero, raça e orientação sexual em instrumentos de reprodução da sociabilidade capitalista, esvaziando seu potencial transformador. No lançamento da obra, lotando a livraria Leonardo da Vinci no Rio de Janeiro, declarou: “Esperavam que eu desabasse e morresse. Não esperavam que o morto voltasse.”
Silvio Almeida foi exonerado do Ministério dos Direitos Humanos em setembro de 2024, dois dias após o surgimento das denúncias. Indiciado pela Polícia Federal em novembro de 2025, foi denunciado pela PGR em março de 2026. Alega não ter tido possibilidade de defesa durante o inquérito. No vídeo recente, associou a forma como foi tratado ao racismo estrutural que pesa sobre homens negros na sociedade brasileira. Sobre eles, disse, é mais fácil projetar o mal que se quer expurgar.
Por outro lado, o mesmo Ministério Público arquivou em janeiro de 2026 as queixas por difamação que ele apresentara, alegando, no caso da injúria, que o prazo de queixa havia expirado, e, no caso da difamação, que não havia provas de falso depoimento. Ou seja: o Estado não encontrou provas para condenar nenhuma das partes, mas as consequências recaíram integralmente sobre o acusado. Um manifesto assinado por mais de duzentas personalidades de trinta e dois países, entre elas o Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, a escritora Lídia Jorge, a filósofa Marilena Chaui e o teólogo Leonardo Boff, denunciou a violação do direito de defesa e da presunção de inocência do sociólogo.
Boaventura me diz, na segunda mensagem, que no seu caso foi clara a intenção de silenciá-lo, dadas suas posições contra o imperialismo norte-americano. Atribui a rápida internacionalização das denúncias a financiamento da Fundação Ford, que, segundo ele, também financia a Agência Pública, veículo que publicou as primeiras reportagens sobre o caso no Brasil. É uma acusação grave, e Boaventura a faz sem meias palavras. “É uma trama horrível”, escreve. Menciona nominalmente duas acusadoras que ocupam cargos públicos: Isabella Gonçalves, deputada estadual pelo PSOL em Minas Gerais e Élida Lauris, Secretária Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos. Afirma que elas mentiram, prosseguindo impunes em sua carreira política. As mentiras estão documentadas e podem ser consultadas em: <https://www.supportboaventuradesousa.com/pt/s-pruebas-falsedad-denuncias>.
Não me cabe aqui, como editor ou como narrador autorizado destas correspondências, decidir sobre a verdade factual de cada acusação e de cada defesa. O que me cabe é registrar, com a precisão de quem lida com palavras por ofício, aquilo que estas mensagens revelam sobre o tempo em que vivemos. Se a palavra é ofício a exegese é consequência e, ao examinar estes casos, vejo elos inquebráveis que os ligam, o principal deles é que os três são pensadores que incomodaram por demais as elites.
O cancelamento como morte civil
José Genoino, ao participar do lançamento do livro de Mascaro, comparou o cancelamento a uma morte civil. Boaventura, em entrevista à TV 247, usara a mesma expressão: “O cancelamento é uma morte civil.” As editoras deixam de publicar os livros. Os jornais deixam de publicar os artigos. Estudantes deixam de citar a obra. É uma condenação que prescinde de juiz, de provas, de contraditório. Opera pela velocidade da indignação e pela inércia do medo.
A convergência entre os três casos não está nos fatos. Está na estrutura. Em todos eles, a acusação pública precedeu qualquer investigação formal. Em todos, o acusado foi punido antes de ser ouvido. Em todos, a defesa se tornou, por definição, suspeita: quem se defende é porque tem o que esconder, quem se cala é porque admite a culpa. A armadilha é perfeita, e não é nova. Walter Benjamin já a descrevera, ainda que sob outra forma, ao falar do estado de exceção que se torna regra.
O que é novo é o veículo. O tribunal da opinião pública sempre existiu. Mas nunca operou com a velocidade, o alcance e a irreversibilidade que as redes sociais lhe conferem. Uma acusação publicada de manhã já é sentença à tarde. A retratação, se vier, virá semanas depois, sepultada em nota de rodapé que ninguém lê. O dano é feito. E o dano, como Boaventura constata com amargura, é permanente. O advento das IAs multiplicou exponencialmente esse poder destrutivo.
Fascismo restrito, fascismo generalizado
Vladimir Safatle propõe, em A Ameaça Interna, o conceito de fascismo restrito para designar as sociedades que aplicam lógica fascista a segmentos de sua própria população, ao mesmo tempo em que se apresentam como democracias. O fascismo generalizado seria a extensão dessa lógica a toda a sociedade. Boaventura, por outros caminhos, chega a conclusão semelhante: o cancelamento, tal como ele o experimenta, é uma forma de fascismo que se traveste de progressismo. Usa a linguagem dos direitos humanos para aniquilar sujeitos. Invoca a proteção das mulheres para destruir homens que não foram julgados. Converte a presunção de culpa em virtude cívica.
Isso não significa, é preciso dizer com todas as letras, que denúncias de assédio sejam ilegítimas. Significa que o modo como essas denúncias são processadas, quando contornam o devido processo legal e se convertem em execução sumária pela opinião pública, reproduz precisamente a violência que alega combater. A luta das mulheres contra a violência é, como disse o próprio Silvio Almeida em seu vídeo, uma das causas mais importantes de nosso tempo. E é exatamente por isso que sua instrumentalização é tão grave.
O que resta
Boaventura me diz que está escrevendo uma autobiografia. Que o livro incluirá os três anos de difamação. Promete também me enviar suas elegias, para que eu as publique aqui e em Portugal. Silvio Almeida diz que vai se defender na Justiça. Mascaro publicou Crítica do Cancelamento e enche auditórios. Os três, cada um a seu modo, escolheram a mesma arma: a palavra.
Há algo de tocante e de terrível nessa escolha. Tocante, porque revela a confiança obstinada de que a verdade, articulada com rigor e coragem, ainda pode prevalecer. Terrível, porque pressupõe que as instituições que deveriam garantir essa prevalência, os tribunais, as universidades, a imprensa, falharam ou foram capturadas.
Boaventura encerra sua segunda mensagem com palavras que transcrevo aqui por sua economia e sua gravidade: “Vamos continuar na luta. O seu papel como editor é fundamental.”
Aceito a incumbência. É para isso que existem editores, para que as palavras dos que foram silenciados encontrem quem as publique, quem as organize, quem as faça circular. Se o cancelamento é uma morte civil, a edição pode mesmo ajudar na ressurreição. Não por heroísmo, claro. Por ofício.
— X —
Salvio Kotter é editor, escritor e publisher da Kotter Editorial [que publica a partir de Curitiba e de Lisboa], da Kotter Press [que publica, em parceria com a Doutora Luciana Bauer, a partir de Orlando] e da brasileiríssima Goyazes Editora, tocada a quatro mãos com o escritor e editor Marcos Pamplona.


Excelente texto para uma triste e injusta realidade! Fui orientando do Professor Boabentura, um intelectul brilhante, humano e sensível! Tem meu carinho e solidariedade ante a violência prática por vingança, poder e inveja!
Leitura imprescindível. O cancelamento, “uma forma de fascismo que se traveste de progressismo”.
Por solicitação posterior do autor do Comentário, em e-mail enviado ao Professor Boaventura de Sousa Santos, aqui o divulgamos:
Manel Pinto escreveu (terça, 7/04/2026 à(s) 17:06):
Exmo Senhor Professor Boaventura Sousa Santos
Tive o prazer de ler o seu artigo e exposição sobre a “justiça” e como se pratica um novo tipo de perseguição contra a qual o cidadão vulgar é incapaz de lutar.
Fui militar da Armada estando na 3º comissão de serviço á data do 25de Abril, estive ligado ao Movimento do Capitães e desde novembro de 73 fazia de contacto entre os “conspiradores” do Exercito e alguns oficiais da Armada que acompanhavam a evolução. Fiz depois parte da comissão de oficiais que trabalhou com o General Fabião enquanto Governador da Guiné entre Maio e Outubro de 74, tendo saído de Bissau em 14 de Outubro, no dia posterior á entrega do Governo da Guiné ao PAIGC.
Fui preso no dia 26 de Nov de 75 no Palácio de Belem e mantido em reclusão em Custoias e Caxias até 13 de Abril de 76. Fui chamado a depor em pelo menos 7 ou 8 inquéritos e processos na Policia Judiciária Militar alem de ter sido presente ao Conselho Superior de Disciplina da Armada – tendo tido a honrosa companhia do Almirante Rosa Coutinho e do Comandante Almada Contreiras, entre outros – fui ilibado de todas as acusações, com o consequente regresso ao serviço activo, contudo a minha carreira militar durante os 6 anos seguintes foram passadas numa secretária, apesar de manter as minhas qualificações de especialidade como mergulhador sapador/mergulhador de combate.
Fui chamado cerca de oito ou nove vezes a outros tantos processos forjados sobre as mais diversas acusações na Policia Judiciária Militar. Pedi em Abril de 1983 a passagem á Reserva, o que me foi concedido em menos de 48 horas com a condição escrita no despacho de que não poderia desempenhar qualquer função das várias que os Oficiais Superiores na Reserva vulgarmente desempenham.
Curiosamente, há cerca de 3 anos e aproveitando um conhecimento da Chefia da PJM pedi para ter acesso aos despachos sobre os ditos processos e para meu espanto
o meu nome não constava sequer dos ficheiros nem nenhum dos processos a que tinha sido chamado EXISTIA em arquivo nem nenhuma ficha ou registo na dita organização mencionava o meu nome pelo que não poderia nunca indagar ou pedir e/ou apresentar qualquer reclamação/indmenização por não haver despacho ou indicio escrito de ter sido levantado um qualquer processo, apesar de ter estado preso alguns meses.
Esta é a situação numa entidade de investigação judicial no nosso País depois de alguns anos da Revolução de Abril, que tentaram “enterrar” em Novembro.
Peço desculpa do tempo que lhe ocupei, mas penso que será mais uma achega á situação da justiça(?) neste País