A Nova Configuração Geopolítica Global: Estados Unidos, China e Rússia na Disputa por Zonas de Influência Texto 3 – por Carlos Pereira Martins

A Nova Configuração Geopolítica Global: Estados Unidos, China e Rússia

na Disputa por Zonas de Influência

Texto 3

por Carlos Pereira Martins

 

Resumo

O presente texto propõe uma análise crítica da actual reconfiguração geopolítica global, centrando-se no papel das três grandes potências contemporâneas — os Estados Unidos da América, a República Popular da China e a Federação Russa — na disputa por zonas de influência estratégicas, tanto a nível económico como político, tecnológico e militar. Argumenta-se que a presente conjuntura internacional se caracteriza por um processo de fragmentação da ordem liberal internacional, dando lugar a uma nova competição estratégica entre blocos, com características próprias e riscos latentes.

1. Introdução

Ao longo da História, a ordem internacional foi moldada por sucessivas tentativas de hegemonia por parte de impérios, nações ou alianças. Após o colapso do sistema bipolar da Guerra Fria e o aparente triunfo da ordem liberal-democrática ocidental, assistimos hoje a uma clara contestação da supremacia dos valores e instituições internacionais dominadas pelos Estados Unidos e seus aliados. A emergência da China como potência económica e tecnológica, a reafirmação da Rússia como actor militar disruptivo e o relativo declínio da capacidade projectiva dos EUA sugerem um novo cenário multipolar.

Este ensaio tem por objectivo analisar, à luz de dados históricos e tendências contemporâneas, de que modo estas três potências tentam definir uma nova ordem global, numa espécie de “partilha de influência”, não formal, mas estrutural, baseada em interesses estratégicos, alianças e domínios tecnológicos.

2. A Hegemonia Americana em Reconfiguração

A hegemonia dos Estados Unidos consolidou-se após a Segunda Guerra Mundial, com a criação de um conjunto de instituições internacionais destinadas a garantir estabilidade, livre comércio e segurança colectiva — destacando-se a ONU, o FMI, o Banco Mundial e, no plano militar, a NATO. O dólar tornou-se a moeda de referência global, e os valores liberais foram promovidos como universais.

No entanto, desde o início do século XXI, os EUA enfrentam desafios de natureza interna e externa:

  • Internamente, a polarização ideológica, a erosão da confiança institucional e a crescente desigualdade socioeconómica enfraquecem a coesão nacional.
  • Externamente, as intervenções militares no Médio Oriente revelaram-se dispendiosas e ineficazes, criando instabilidade e deslegitimando a autoridade moral dos EUA.

O discurso isolacionista, expresso no slogan America First ou agora Make America Great Again, representa uma viragem estratégica e simbólica, que contribuiu para o enfraquecimento de alianças históricas, nomeadamente com Estados Membros europeus,  e abriu caminho a uma reorganização das esferas de influência à escala global.

3. A Ascensão da China: Poder Económico, Tecnológico e Civilizacional

A República Popular da China iniciou, em 1978, um processo de reformas económicas sob Deng Xiaoping, que permitiu uma transição gradual para uma economia de mercado sob controlo político autoritário. Em poucas décadas, o país passou de uma economia rural e planificada para a segunda maior economia mundial, com crescente capacidade de inovação e produção industrial.

As actuais ambições geopolíticas da China assentam em três pilares:

  • A Iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota” (Belt and Road Initiative), lançada em 2013, visa a construção de infra-estruturas e redes logísticas que consolidem a posição da China como centro do comércio eurasiático e africano.
  • A liderança tecnológica, sobretudo nas áreas das telecomunicações (Huawei), inteligência artificial, veículos eléctricos e energias renováveis, promove a autonomia estratégica do país face ao Ocidente.
  • A diplomacia cultural e política, através da disseminação de instituições como os Institutos Confúcio e da proposta de um “modelo chinês” de desenvolvimento, sem exigência de democratização, ganha adesão em vários países do Sul Global.

A China rejeita a lógica da hegemonia militar directa, preferindo uma estratégia de penetração económica e soft power, alicerçada na ideia de multipolaridade e no princípio de não-interferência nos assuntos internos de outros Estados.

4. A Rússia e a Reafirmação Imperial

A Federação Russa, sob a liderança de Vladimir Putin desde 2000, tem seguido uma política externa orientada para a recuperação da influência geopolítica perdida com o colapso da União Soviética. O expansionismo russo, manifestado na intervenção militar na Geórgia (2008), na anexação da Crimeia (2014) e na invasão da Ucrânia (2022), representa uma estratégia revisionista que contesta a expansão da NATO e da União Europeia.

A estratégia russa assenta em três dimensões fundamentais:

  • Capacidade militar: a modernização das forças armadas e a permanente dissuasão nuclear são os pilares da política externa do Kremlin.
  • Instrumentalização energética: durante décadas, o gás natural e o petróleo russos foram utilizados como ferramentas de pressão sobre a Europa. Apesar das sanções ocidentais, Moscovo estabeleceu novos acordos com países como a China e a Índia.
  • Guerra híbrida e desinformação: o ciberespaço tornou-se um campo de batalha privilegiado. A Rússia recorre a campanhas de manipulação mediática, interferência eleitoral e apoio a movimentos populistas para enfraquecer os adversários ocidentais.

A Rússia procura ser reconhecida como potência indispensável na definição da nova ordem global, mesmo que para tal adopte tácticas de desestabilização em vez de construção.

5. Uma Nova Partilha de Influência?

A actual configuração geopolítica caracteriza-se por uma tentativa de reorganização do globo em esferas de influência mais subtis e complexas do que as observadas no período colonial ou na Guerra Fria. A nova “partilha” assenta em domínios estratégicos:

  • Económico e tecnológico: disputa pelo controlo das cadeias de produção, da inteligência artificial, da microelectrónica e das plataformas digitais.
  • Informacional e cultural: narrativa contra-hegemónica promovida pela China e pela Rússia, que contestam a ideia de universalidade dos valores ocidentais.
  • Militar e securitário: reforço de alianças rivais da NATO (como a Organização de Cooperação de Xangai) e da crescente cooperação sino-russa.

Embora a globalização tenha gerado interdependência económica, assiste-se a um processo de decoupling(desacoplamento) entre o Ocidente e a China, particularmente nas áreas tecnológicas e industriais. Este fenómeno sugere um mundo em fragmentação, com diferentes centros de poder e normas em concorrência.

6. Conclusão

A tentativa de divisão do mundo entre Estados Unidos, China e Rússia não é formal nem institucional, como no passado. Todavia, ela é real, estruturada e progressiva, ocorrendo através de estratégias distintas e em domínios diversos. A presente ordem internacional é marcada por uma disputa por legitimidade, recursos e influência, num contexto em que a supremacia americana é desafiada, a ascensão chinesa é consolidada e a ambição russa é reactivada.

Neste cenário, a Europa e outros actores intermédios enfrentam o desafio de manter autonomia estratégica e valores democráticos, num mundo crescentemente competitivo e instável. A nova multipolaridade, se não for acompanhada de mecanismos de regulação eficazes, poderá resultar em maiores tensões, conflitos por procuração e instabilidade global.

Referências Bibliográficas Sugeridas

  • Fukuyama, F. (1989). The End of History? The National Interest, Summer.
  • Mearsheimer, J. (2014). The Tragedy of Great Power Politics. W. W. Norton & Company.
  • Nye, J. S. (2004). Soft Power: The Means to Success in World Politics. Public Affairs.
  • Allison, G. (2017). Destined for War: Can America and China Escape Thucydides’s Trap? Houghton Mifflin Harcourt.
  • Lukin, A. (2018). China and Russia: The New Rapprochement. Polity Press.
  • Waltz, K. (1979). Theory of International Politics. McGraw-Hill.

2 Comments

  1. Uma análise de alguém bem formado em Universidade de controlo ideológico atlantista para quem as noções de “democracia” e de “imperialismo” nem é necessário definir porque, ao que lhes parece, são “realidades” imanentes à História. Assim, são tão abstratas que se tornam transcendentes.

    1. Caríssimo, obrigado por reagir, é sinal que leu, o que nos tempos que correm é sempre de saudar. Agrade-me ou não, respeito sempre os comentários ao que escrevo, desde que não seja ofensa, e agradeço. Este texto escrevi-o em sequência de dois outros anteriores bem mais ao jeito do que penso e, neste último, como transparece das fontes consultadas, tentei colocar-me do lado dessas “referências” e escrever à laia de advogado do diabo, nalguns pontos. Para deixar expresso que há mais opiniões, mais certas ou mais erradas. Sou do Quelhas, Económicas, nos anos de lutas estudantis, fui da Direcção da AE e sempre procurei ter um pensamento crítico tanto quanto podemos estar fora das amarras que a escola, o ensino, os livros e as nossas raízes e educação de base nos permitam. Entendo bem o comentário e apenas posso dizer ” E como poderia ser tão mais diferente?” ABRAÇO RIJO E BEIRÃO! CPM

Leave a Reply to Carlos Pereira MartinsCancel reply

Discover more from A Viagem dos Argonautas

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading