Espuma dos dias — Estranhamente comovido pela matemática e pela ciência – Dedicatória à minha mulher, Margarida Mota . Por Júlio Marques Mota

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Estranhamente comovido pela matemática e pela ciência

Dedicatória à minha mulher, Margarida Mota

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, em 12 de Maio de 2026

 

Em torno de um artigo, de uma dedicatória: algumas considerações.

Hoje celebro a conclusão do meu trabalho sobre a série Crises de civilização e de ensino, num mundo em profunda policrise, que me tem ocupado desde há dois meses, sobre os mecanismos de aprendizagem com que se fizeram as nossas cabeças, sobre os mecanismos de aprendizagem que têm sido desprezados ou desvalorizados nesta época de produção de cretinice digital. E porque digo que celebro a conclusão do meu trabalho? Porque fiquei fascinado com a leitura de um texto sobre a maravilha que é o sentimento de “conhecer”. Trata-se de um texto de Adam Kotsko, um dos autores utilizados na nossa série, texto intitulado Estranhamente comovido pela matemática e pela ciência e que conclui assim:

Aqui, [no ganho de conhecimento] há sempre uma beleza [1] e uma força na compreensão, há sempre um enorme sentimento de recompensa emocional pelo esforço intelectual feito. Todo e qualquer estudante merece viver esse sentimento — receber uma educação que seja tocante e bela, uma educação que lhe permita finalmente compreender os factos mais familiares de uma forma que o faça perceber que nunca os entenderam de verdade antes. É algo de valioso, de poderoso, de profundamente humano. É a vida”. Fim de citação.

Dedico este meu trabalho de publicação à minha mulher, Margarida Mota, pelo seu dedicado trabalho de longos anos de docência, até que a barbaridade da política educativa de Sócrates a levou a abandonar o ensino. Fê-lo como o fizeram milhares de outros docentes quando se quis, com Maria de Lurdes Rodrigues, transformar a escola num quartel para professores e adolescentes.

Desses tempos, ela lembra-se de ter utilizado poemas de António Gedeão que declamava nas aulas de física e química, poemas esses que ainda mantém anotados a lápis no livro de Gedeã0 editado pela Portugália e que ainda gosta de reler em voz alta. Nesses tempos, e também agora, fala-me do encanto que foi para si, como aluna, aprender a tabela periódica de Dmitri Mendeleev, fala-me do seu encanto como professora em ensiná-la.

E desses tempos há para ela uma experiência que é inesquecível: teve uma aluna que sofria de uma doença degenerativa gravíssima que lhe dava uma esperança de vida de pouco mais de 2 anos. Nessa altura estava já completamente cega, mas assistia a todas as aulas, mesmo às de laboratório. Numa dessas aulas  “assistiu-se a um milagre”. Faziam-se três experiências em que se combinavam, em cada uma delas, dois agentes químicos que na sua associação geravam uma chama. A minha mulher ia-lhe descrevendo o que se estava a passar e, de repente, a invisual bate palmas e um salto de alegria e diz em voz alta: professora, professora, estou a ver, estou a ver!!!

A cega via na sua alma a chama que o prazer do conhecimento lhe fornecia e que a sua vista não lhe permita sequer vislumbrar. E esta jovem morreu no ano seguinte.

 

Retomemos a citação anterior e decomponhamo-la em duas partes, a primeira relativa à beleza que implica o conhecimento e a segunda relativa à falta dele ou ao desinteresse por ele:

  1. “Aqui, [no ganho de conhecimento] há sempre uma beleza e uma força na compreensão, há sempre um enorme sentimento de recompensa emocional pelo esforço intelectual feito”.
  2. “Todo e qualquer estudante merece viver esse sentimento — receber uma educação que seja tocante e bela, uma educação que lhes permita finalmente compreender os factos mais familiares de uma forma que os faça perceber que nunca os entenderam de verdade antes. É algo de valioso, de poderoso, de profundamente humano. É a vida”. Fim de citação

No que diz respeito à força que o conhecimento nos dá diremos que há sempre uma força interior em quem adquire o conhecimento, muitas vezes a ultrapassar os limites do que é fisicamente pensável, como é o caso relatado da aluna acima referida e há sempre o ganho de uma força interior em quem esse conhecimento transmite. Ainda hoje, comovidamente se fala no tema da aluna cega que via a chama da experiência, ainda hoje vejo a minha mulher comovidamente a sentir os poemas de Gedeão. E o sentido da dedicatória resulta do sentimento havido quanto à transmissão do conhecimento que fez para várias gerações, que direi paralelo à alegria do conhecimento que nos é transmitido, linha a linha pelo texto de Kotsko.

Quanto à segunda parte da citação, quando pensamos que quem tem direitos também tem deveres, quando pensamos que nas sociedades modernas a maioria dos estudantes deixa de conseguir alcançar o direito desse sentimento, quando nos debruçamos sobre a razão de ser desse fiasco educacional, percebemos que isso é assim porque aos jovens de hoje ninguém lhes ensinou os deveres a que deveriam estar obrigados.

Não os ensinámos, não os ensinamos, e este é o tema geral de uma série de textos que iremos publicar em breve. Não os ensinámos nem sequer naquilo que é, no mínimo, obrigatório saber: saber escrever à mão. Deixo-vos apenas algumas citações:

  1. “Escrever é apenas ler de dentro para fora.” — John Updike
  1. “Escrever à mão e ler são atividades recíprocas. Ambos são necessários para que as crianças se tornem leitores e escritores fluentes. Como consultora que trabalhou com professores e escolas por todo os Estados Unidos, tive a oportunidade de observar centenas de salas de aula. Ao fazê-lo, percebi que muitas coisas parecem ser semelhantes em todos os lugares. Uma delas é a escassez do ensino de escrita à mão que parece ocorrer nas salas de aula. Este é um enigma sobre o qual tenho refletido muito ao longo dos anos”.
  1. “…Numa tarde de abril, na sua aula de literatura do programa A.P., a professora Binney leu em voz alta “XIV”, um poema do laureado com o Nobel de São Lúcia, Derek Walcott. O poema descreve o poeta e o seu irmão em criança, aventurando-se pela floresta caribenha para irem ouvir, sentados aos seus pés, uma contadora de histórias tradicionais.

A linguagem de Walcott é exuberante e desafiante. Os alunos anotaram cópias impressas do texto em papel, sublinhando e rabiscando nas margens. Em seguida, pegaram nos cadernos e começaram a redigir ensaios a analisar recursos literários.

Quero que escrevam um rascunho muito tosco e imperfeito nos vossos cadernos de escritores”, disse-lhes Binney. “E depois quero que o risquem e que a seguir o reescrevam.”

  1. Investigadores documentam há muito tempo como a escrita é uma atividade cognitiva — algo que as pessoas usam para comunicar entre si, e também para compreender a experiência humana. Como muitos no campo dos estudos da escrita reconhecem, escrever é uma forma de pensar — uma prática que as pessoas nunca param de aprender. Com isso, a escrita à mão tem o potencial de continuamente reformular a mente. A escrita não apenas expressa, mas cria ativamente a identidade”.
  2. “A escrita à mão desempenha um papel essencial no desenvolvimento da literacia, servindo tanto como base para o sucesso académico quanto como ferramenta para a aprendizagem ao longo da vida. Compreender como a escrita funciona, isso exige reconhecer que ela engloba dois componentes distintos, mas interligados.

    a) O primeiro componente consiste nas capacidades de transcrição — as capacidades fundamentais que permitem aos alunos produzir fisicamente a linguagem escrita.

    b) Segundo componente: as competências de composição. “Isto reflete o que acontece no desenvolvimento da leitura”, afirmou Gemzik. “Quando os alunos se tornam descodificadores proficientes e automáticos, conseguem dedicar mais recursos mentais à compreensão e aos processos de pensamento de ordem superior”.

  3. “Podemos assim estar a sacrificar um processo fundamental que é crucial para os tipos de experiências cognitivas imersivas que nos permitem aprender e pensar com todo o nosso potencial.
  1. Para acompanhar essa tendência, muitas escolas estão já a introduzir computadores na pré-escola, o que significa que algumas crianças podem aprender o básico da digitação antes de aprenderem sequer a escrever à mão. (o sublinhado é nosso)

Mas abandonar essa forma mais lenta e tátil de nos expressar pode ter um custo significativo, de acordo com um conjunto crescente de investigações que está a revelar os surpreendentes benefícios cognitivos de pegar na caneta e no papel — ou mesmo na caneta stylus e no iPad — tanto para crianças quanto para adultos.

Em crianças, estudos mostram que traçar o ABC à mão, em vez de digitá-lo, leva a um reconhecimento melhor e mais duradouro e a uma maior compreensão das letras. Escrever à mão também melhora a memória e a retenção de palavras, lançando as bases da literacia  e da aprendizagem.. Em adultos, fazer anotações à mão durante uma aula, em vez de digitá-las, pode levar a uma melhor compreensão conceptual do conteúdo.

  1. “Em suma: “Os estudantes estão a utilizar IA generativa para escrever antes de aprenderem a escrever. Estão a ler resumos do ChatGPT de um livro antes de terem alguma vez lido um livro”, disse ele. “O resultado é uma população intelectualmente diminuída.”

 

Não se ensinam os jovens a escrever, não os ensinam a ler, não os ensinam a pensar, mas os jovens deveriam ter o direito a que se refere Kotsko ( e o dever de o ter) e que ele muito deseja, mas a sociedade tirou aos jovens, por essa via, o direito à cultura que tudo isto pressupõe e é por isso que a nossa série começa com artigos selecionados sobre o tema: “Morte da cultura e o regresso à barbárie e ao pensamento mágico”. Não deixamos de ter presente as consequências do ensino que se está a fazer e que está nos antípodas do que a minha mulher fez ao longo de décadas ou o que nos descreve Kotsko no artigo que agora partilho, ou seja, o sentimento do prazer pelo conhecimento alcançado e o desejo que os jovens possam vir a partilhar esse mesmo sentimento. Não são capazes de o fazer agora e a responsabilidade é, sobretudo, nossa.

 

Aqui, e em jeito de despedida, relembro Herman Hesse:

“Sem a palavra, sem a escrita dos livros, não há história, não há conceito de humanidade”

E é tudo.

 

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[1] Para perceber o sentimento de beleza no que se refere ao conhecimento veja-se a sua referência a Euclides e depois veja-se a demonstração do teorema de Pitágoras através de Euclides, aqui. Vale a pena o exercício.

 

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