As lições do eclipse — e o nosso lugar no Universo por Carlos Pereira Martins

As lições do eclipse — e o nosso lugar no Universo

por Carlos Pereira Martins

 

Há fenómenos celestes que, além de nos maravilharem, parecem ter sido inventados para nos obrigar a pensar. Um eclipse solar é um deles. Durante alguns minutos, a Lua passa exactamente — ou quase exactamente — entre a Terra e o Sol e, para quem observa da faixa certa do nosso planeta, o disco lunar parece cobrir o disco solar. É uma coincidência geométrica extraordinária, mas não é um milagre nem uma disposição especialmente destinada à humanidade. É o resultado de relações de escala e distância que, vistas em conjunto, nos oferecem uma das mais belas lições sobre a nossa posição no Cosmos.

A Lua tem um diâmetro de cerca de 3 475 quilómetros, enquanto a Terra mede aproximadamente 12 742 quilómetrosde diâmetro. Portanto, a Lua não é 400 vezes menor do que a Terra: é cerca de 3,7 vezes menor em diâmetro. A afirmação das «400 vezes» aplica-se a outra comparação, igualmente fascinante.

O Sol possui um diâmetro de aproximadamente 1,39 milhões de quilómetros, ou seja, é cerca de 109 vezes maior do que a Terra em diâmetro e aproximadamente 333 mil vezes mais massivo. A Lua, por sua vez, encontra-se, em média, a cerca de 384 400 quilómetros da Terra, enquanto o Sol está a aproximadamente 149,6 milhões de quilómetros.

E aqui surge a extraordinária coincidência.

O Sol é cerca de 400 vezes maior do que a Lua em diâmetro, mas está também aproximadamente 400 vezes mais distante da Terra. Consequentemente, quando observamos ambos a partir da Terra, os seus diâmetros angulares aparentes são semelhantes.

É isto que torna possível um eclipse solar total.

A Lua, apesar de ser muitíssimo mais pequena do que o Sol, consegue, quando as condições geométricas são favoráveis, esconder completamente a sua luz. Não porque seja grande, mas porque está muito mais perto de nós.

É uma verdadeira demonstração cósmica de perspectiva.

Uma coincidência que nos faz pensar

Há, porém, uma subtileza que torna o fenómeno ainda mais interessante.

A órbita da Lua em torno da Terra não é perfeitamente circular; é uma elipse. A distância entre a Terra e a Lua varia. Também a distância entre a Terra e o Sol varia ao longo da órbita terrestre.

Por isso, o tamanho aparente da Lua e o tamanho aparente do Sol não são sempre exactamente iguais.

Quando a Lua parece ligeiramente maior, pode produzir um eclipse solar total. Quando parece ligeiramente menor, deixa à volta do seu disco uma espécie de anel luminoso: ocorre um eclipse anular.

A famosa «coroa de fogo» não é, portanto, uma característica permanente da relação entre os três corpos. É uma consequência da geometria instantânea do sistema Sol–Terra–Lua.

E há aqui uma primeira lição importante: o Universo não foi feito à escala das nossas percepções. Nós é que, situados num determinado ponto do espaço e num determinado momento da história cósmica, observamos uma configuração particular.

A Terra não está no centro

Durante muitos séculos, o ser humano imaginou-se no centro da criação.

A Terra parecia imóvel, enquanto o Sol, a Lua, os planetas e as estrelas pareciam girar à nossa volta. Foi necessário um longo processo intelectual — de Copérnico a Galileu, de Kepler a Newton e, mais tarde, Einstein — para percebermos que a nossa posição no Universo é muito menos privilegiada do que a nossa experiência quotidiana nos fazia supor.

A Terra gira em torno do Sol.

O Sol é apenas uma estrela entre centenas de milhares de milhões na Via Láctea.

E a Via Láctea é apenas uma galáxia entre centenas de milhares de milhões — talvez até mais — de galáxias observáveis no Universo.

Quando olhamos para o céu nocturno, julgamos estar perante uma enorme quantidade de estrelas. Em termos cósmicos, estamos apenas a contemplar uma pequena vizinhança.

O nosso Sol não é o centro do Universo.

A nossa galáxia também não.

E nós, evidentemente, muito menos.

Então somos insignificantes?

Aqui começa a parte verdadeiramente interessante.

Do ponto de vista físico, somos extraordinariamente pequenos.

Um ser humano tem cerca de dois metros. A Terra tem 12 742 quilómetros de diâmetro. O Sol é cerca de 109 vezes maior em diâmetro do que a Terra. E algumas estrelas são tão gigantescas que, colocadas no lugar do Sol, engoliriam as órbitas dos planetas interiores.

A nossa escala é quase ridícula perante a escala cósmica.

Mas há uma diferença extraordinária entre tamanho e importância.

O Universo não parece possuir uma régua moral com a qual classifique as coisas por importância. Uma galáxia não é «mais importante» do que uma árvore. Uma estrela não é «mais valiosa» do que uma pessoa. São categorias que nós próprios criámos.

E, no entanto, existe algo profundamente singular na humanidade: somos matéria do Universo capaz de conhecer o Universo.

Os átomos de carbono do nosso corpo foram fabricados no interior de estrelas. O oxigénio que respiramos, o cálcio dos nossos ossos, o ferro do nosso sangue e muitos dos elementos químicos que constituem a matéria de que somos feitos foram produzidos por processos nucleares em estrelas anteriores ao nascimento do Sol.

Nós não estamos simplesmente no Universo.

Somos, literalmente, parte dele.

Somos matéria cósmica que adquiriu consciência suficiente para olhar para as estrelas e perguntar de onde veio.

O eclipse como metáfora científica

É precisamente isto que torna um eclipse tão sugestivo.

Durante um eclipse total, uma pequena Lua, insignificante perante o tamanho do Sol, consegue ocultar completamente a estrela que domina o nosso sistema planetário.

É uma excelente advertência contra a nossa tendência para julgar o mundo apenas pela dimensão das coisas.

O pequeno pode, em determinadas circunstâncias, ocultar o enorme.

A proximidade pode compensar a dimensão.

A perspectiva pode alterar completamente aquilo que julgamos estar a ver.

E uma coincidência geométrica pode produzir um espectáculo capaz de provocar, durante milhares de anos, mitologia, religião, ciência e espanto.

Mas haverá um «papel» humano no Universo?

A ciência não encontrou qualquer evidência de que o Universo tenha sido criado com um propósito humano.

Não conhecemos nenhuma finalidade cósmica que determine que a humanidade deveria existir.

E é importante não transformar uma questão filosófica numa conclusão científica.

A ciência pode dizer-nos como nasceu o Universo observável, como se formaram as estrelas, como surgiram os planetas e como evoluiu a vida na Terra. Pode investigar a origem da consciência e procurar vida noutros mundos.

Mas a pergunta «para quê existimos?» pertence a outro domínio.

Talvez seja precisamente aí que reside a nossa responsabilidade.

Se não existe um papel cósmico previamente atribuído, temos de decidir que papel queremos desempenhar.

Podemos destruir o nosso planeta, guerrear por fronteiras, riquezas e poder e passar pela história cósmica como uma espécie que conseguiu dominar a tecnologia antes de aprender a dominar a própria violência.

Ou podemos fazer algo mais extraordinário: conhecer, preservar e transmitir.

Preservar a pequena esfera azul onde surgiu a vida.

Conhecer o Universo que nos produziu.

E transmitir às gerações futuras o conhecimento que fomos capazes de adquirir.

Somos pequenos — mas não somos nada

Talvez esta seja a grande lição de um eclipse.

Quando a Lua tapa o Sol, percebemos simultaneamente a nossa pequenez e a nossa grandeza.

Pequenez porque somos habitantes de um planeta minúsculo, orbitando uma estrela vulgar, numa galáxia entre incontáveis galáxias.

Grandeza porque conseguimos compreender as proporções que tornam possível o eclipse, calcular as órbitas, prever a sua ocorrência com enorme precisão e compreender que aquela sombra que atravessa a Terra é apenas a consequência de três corpos obedecerem às leis da gravitação.

O Universo não precisa de nós para existir.

Mas nós precisamos do Universo para compreender quem somos.

E talvez haja uma maneira particularmente bela de resumir a nossa situação:

somos pequenos demais para sermos o centro do Universo, mas suficientemente conscientes para perceber que não somos o centro dele.

Essa descoberta, que poderia parecer humilhante, é na realidade uma das maiores conquistas intelectuais da humanidade.

Porque talvez o nosso verdadeiro papel não seja ocupar o centro do Cosmos.

Talvez seja termos consciência de que não estamos no centro — e, ainda assim, continuarmos a olhar para o céu.

É isso que fazemos desde que o primeiro ser humano levantou os olhos para as estrelas.

E talvez seja essa a nossa mais extraordinária condição: sermos uma pequena parcela de matéria cósmica que, por um breve instante da eternidade, ganhou a capacidade de perguntar ao próprio Universo de onde veio.

 

 

1 Comment

  1. O texto de Carlos Pereira Martins é um texto fascinante. A solidão com que estamos no universo é uma ilusão de óptica que nos faz esquecer a imensa companhia de que somos parte. Os indígenas da América latina ensinam-nos que a natureza não nos pertence; nós é que pertencemos á natureza. Um dia no Outono de 1988 ouvi da boca do grande físico Carl von Weizacker, quando fazia um estágio no Max Planck Institute que ele dirigia com o Jurgen Habermas, a pergunta que CPM tão bem formula: “Mas a pergunta «para quê existimos?» pertence a outro domínio” Pois é, a ciência é uma forma de conhecimento válido mas não a única forma de conhecimento válido.
    Anton Pannekoek (1873-1960), que muitos conhecerão apenas como o marxista, comunista, conselhista, era um astrónomo holandês famoso no seu tempo. AP tinha uma visão do universo muito semelhante da do CPM sobre Via Láctea. O astrónomo não tem o privilégio de ter o seu “objecto” perto de si e por isso tudo que diz sobre o universo parte de uma “equação pessoal” em que sua experiência de vida conta muito para a perspectiva de análise que privilegia, para além dos instrumentos e dos cálculos. O texto CPM fez-me lembrar do AP.

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