O pobre que se esquece de que é pobre
por Carlos Pereira Martins
«O pior inimigo de um pobre é outro pobre que se acha importante e defende aqueles que o empurram para a pobreza.» — José Mujica
Escola da Avenida, Viseu, onde ricos e pobres construiam Amizades!
Há frases que, pela sua simplicidade, parecem quase evidentes; mas, quando nelas demoramos um pouco o pensamento, descobrimos que escondem uma verdade incómoda. Esta frase de José Mujica é uma dessas frases. Não é uma acusação contra os pobres, mas uma crítica àquela estranha capacidade humana de, por vezes, nos afastarmos daqueles que connosco partilham a mesma condição, apenas porque conseguimos subir um ou dois degraus na escada social.
O problema começa quando a pequena ascensão é confundida com uma verdadeira mudança de condição. Há quem, depois de alcançar um pouco mais de conforto, um emprego melhor, uma casa mais digna, um automóvel mais caro ou simplesmente alguma respeitabilidade social, passe a olhar para os que ficaram para trás como se já não pertencesse ao mesmo mundo.
É como se tivesse adquirido, juntamente com o aumento do ordenado ou do património, um certificado de superioridade.
E então acontece uma coisa curiosa: aquele que ontem reclamava dos impostos, dos salários baixos, das dificuldades em chegar ao fim do mês e da injustiça das oportunidades começa, hoje, a considerar exageradas as reivindicações de quem continua a viver exactamente essas dificuldades. O que antes lhe parecia injustiça passa a chamar-se «vida». O que ontem era exploração transforma-se, por uma espécie de milagre semântico, em «competitividade». E o trabalhador que pede melhores condições deixa de ser alguém que luta pelos seus direitos para passar a ser, na linguagem dos novos convertidos, «um privilegiado».
É aqui que a frase de Mujica ganha toda a sua força.
Porque a pobreza não é apenas uma questão de dinheiro. Há uma pobreza material, evidentemente, feita de salários insuficientes, desemprego, precariedade, habitação inacessível, reformas pequenas e oportunidades desiguais. Mas pode existir também uma espécie de pobreza de consciência: a incapacidade de compreender que aquilo que conseguimos individualmente não apaga as condições sociais que continuam a determinar a vida de milhões de pessoas.
Ter deixado de ser pobre não deveria significar ter deixado de compreender os pobres.
Pelo contrário. Quem conheceu dificuldades deveria possuir uma memória particularmente exigente da injustiça. Deveria lembrar-se das portas que encontrou fechadas, das oportunidades que não teve, das contas que custava pagar, das humilhações silenciosas, das vezes em que teve de escolher entre aquilo que precisava e aquilo que gostaria de ter.
Mas a memória humana é selectiva. Há pessoas que, logo que conseguem sair um pouco da dificuldade, fecham cuidadosamente a porta atrás de si. E, pior ainda, chegam a defender que essa porta permaneça fechada para os outros.
Talvez porque exista em muitos de nós uma necessidade quase instintiva de acreditar que aquilo que alcançámos foi exclusivamente fruto do nosso mérito. É reconfortante pensar: «Eu consegui porque trabalhei; quem não conseguiu é porque não trabalhou.»
A frase parece simples e até moralmente satisfatória. Só que a vida é bastante mais complexa.
O mérito existe, evidentemente. O trabalho, o esforço, a inteligência, a disciplina e a perseverança contam. Mas ninguém começa a corrida do mesmo lugar. Uns nascem com património; outros, com dívidas. Uns têm pais que podem pagar estudos, oferecer uma casa ou abrir uma porta; outros começam a vida precisamente a tentar descobrir onde fica essa porta. Uns crescem rodeados de livros, contactos e oportunidades; outros crescem apenas com a esperança — muitas vezes extraordinária — de que o esforço venha a compensar aquilo que lhes faltou à partida.
Reconhecer isto não é negar o mérito individual. É simplesmente reconhecer que o mérito nunca trabalha sozinho.
Há, depois, uma forma particularmente curiosa de pobreza: a pobreza de quem deseja desesperadamente parecer rico.
É o homem que não possui grande coisa, mas precisa de se convencer — e convencer os outros — de que está acima daqueles que possuem ainda menos. Não pode competir com os verdadeiramente ricos, naturalmente; mas pode sempre encontrar alguém mais pobre para desprezar. E assim constrói uma pequena hierarquia privada em que, pelo menos durante alguns minutos, consegue ocupar um lugar acima de alguém.
É uma das mais antigas ilusões sociais: se não posso chegar ao topo, procuro alguém que esteja abaixo de mim.
E isto ajuda a explicar por que razão sociedades profundamente desiguais conseguem, por vezes, manter durante tanto tempo a sua desigualdade. Não basta que existam os que estão no topo e os que estão na base. É necessário, muitas vezes, que uma parte significativa dos que estão no meio acredite que o seu verdadeiro perigo vem de quem está ainda mais abaixo.
O pobre passa então a olhar para o imigrante; o trabalhador precário para o desempregado; o reformado com uma pensão modesta para aquele que recebe uma prestação social; quem tem pouco para quem tem ainda menos.
E, enquanto todos discutem entre si, quase ninguém olha para cima.
É uma velha e eficaz forma de dividir. Quando os que têm pouco são convencidos de que o seu inimigo é aquele que tem menos, os que têm muito podem continuar tranquilamente a discutir entre si como distribuir aquilo que têm.
Mujica, com a sua linguagem simples, aponta precisamente para essa perversão.
Não significa isto que devamos transformar a sociedade numa batalha permanente entre pobres e ricos. Seria demasiado fácil e, sobretudo, demasiado simplista. Uma sociedade não se constrói alimentando ressentimentos, mas procurando justiça. O problema não está em alguém enriquecer através do trabalho, da criatividade, do risco ou do empreendedorismo. O problema surge quando a riqueza se transforma em poder sem responsabilidade, quando a desigualdade se torna estrutural e quando aqueles que beneficiam de um sistema injusto conseguem convencer os próprios prejudicados de que a injustiça é inevitável.
Uma sociedade livre não precisa de odiar os ricos.
Precisa, isso sim, de não permitir que a riqueza compre a dignidade, a justiça, a influência política ou o direito de determinar sozinha o destino dos outros.
E talvez aqui esteja uma das grandes lições da frase de Mujica: a solidariedade não exige que todos sejamos iguais. Exige que compreendamos que a dignidade humana não pode depender do lugar que cada um ocupa na escala económica.
O que nos deve unir não é a pobreza. É a consciência de que ninguém deveria ser condenado a ela.
Da mesma maneira, não há qualquer virtude em permanecer pobre apenas para conservar uma suposta pureza ideológica. A ascensão social é uma coisa boa quando significa que uma pessoa conseguiu melhorar a sua vida. O que é triste é que, ao melhorar a sua condição, perca a capacidade de reconhecer quem continua a lutar para alcançar aquilo que ela própria um dia desejou.
Há qualquer coisa de profundamente humano em querer subir.
Mas há qualquer coisa de profundamente indigno em subir puxando para baixo quem ficou atrás.
E existe ainda uma outra questão, talvez a mais importante: a liberdade individual não deve ser confundida com indiferença perante a sorte dos outros. Podemos ser liberais, socialistas, conservadores, social-democratas, ou simplesmente pessoas que não gostam de etiquetas políticas. Podemos discordar sobre impostos, salários, Estado, mercado, propriedade, imigração ou políticas sociais. A democracia vive precisamente dessa divergência.
Mas há um ponto anterior a todas essas discussões: que tipo de sociedade queremos ser?
Uma sociedade em que cada um cuide apenas de si, considerando o sofrimento dos outros um problema alheio?
Ou uma sociedade em que, sem negar o esforço individual e a responsabilidade pessoal, reconheçamos que a dignidade, a educação, a saúde, a habitação e a possibilidade de uma vida decente não podem ser privilégios reservados aos que tiveram a sorte de nascer no lado certo da porta?
É por isso que a frase de Mujica permanece actual.
O verdadeiro inimigo não é o pobre que está ao nosso lado. É a pobreza que pode atingir qualquer pessoa quando as circunstâncias mudam, quando uma doença aparece, quando o emprego desaparece, quando a família se desfaz, quando a idade chega ou quando simplesmente a vida decide não cumprir os planos que fizemos para ela.
E talvez devêssemos desconfiar um pouco mais daqueles que, tendo conhecido a dificuldade, passam a considerar que todos os outros devem atravessá-la como eles atravessaram.
A experiência da pobreza deveria produzir memória, não arrogância.
Quem conseguiu sair dela deveria poder olhar para trás e dizer: «Tive sorte, tive ajuda, trabalhei, encontrei oportunidades e consegui.» Não deveria olhar para trás e dizer: «Eu consegui; os outros que façam o mesmo.»
Porque ninguém se faz inteiramente sozinho.
Por detrás de cada pessoa que triunfa há quase sempre uma família, um professor, um amigo, uma oportunidade, uma instituição, uma sociedade, uma estrada construída por outros. Até o mais obstinado dos self-made men nasceu numa sociedade que já tinha escolas, hospitais, estradas, universidades, tribunais, empresas, conhecimentos e gerações inteiras de trabalho acumulado antes de ele chegar.
Somos, em grande medida, herdeiros de coisas que não construímos.
Talvez por isso a verdadeira grandeza não esteja em subir suficientemente alto para deixar de ver os que estão em baixo.
Está em subir e continuar a olhar para eles.
E, se pudermos, estender-lhes a mão.
Porque uma sociedade verdadeiramente civilizada não é aquela em que alguns conseguem chegar muito alto. É aquela em que ninguém precisa de ficar demasiado baixo para que outro se sinta importante.
No fundo, talvez seja esta a ironia maior da frase de Mujica: o pobre que despreza o pobre para se sentir importante pode até conseguir uma pequena vitória social. Mas continua dependente da mesma escada. Apenas se esqueceu de que, numa escada, subir um degrau não transforma ninguém em dono do edifício.
E a dignidade — essa — não se mede pelo número de degraus que conseguimos subir.
Mede-se pela forma como tratamos aqueles que ainda estão a subir.


