QUANDO AS MÁQUINAS TRABALHAREM POR NÓS
por Carlos Pereira Martins
Há perguntas que parecem pertencer ao futuro, mas que, quando finalmente chegam, descobrimos que já deveriam ter sido feitas há muito tempo. Eu, fi-la há cerca de três anos e insisto.
Uma delas é esta: o que acontecerá à sociedade quando as máquinas forem capazes de produzir uma parte crescente daquilo que hoje produzimos através do trabalho humano?
Não se trata já de imaginar robots a fazer tarefas repetitivas numa fábrica. Isso já acontece há décadas. A questão é muito mais profunda. A inteligência artificial, a automatização e a robotização começam a atingir actividades que, até há pouco tempo, julgávamos exclusivamente humanas: analisar, calcular, traduzir, diagnosticar, escrever, programar, conduzir, controlar processos e até criar.
A força humana poderá deixar, progressivamente, de ser a principal base de muitas actividades produtivas.
E isso é, simultaneamente, uma extraordinária promessa e um enorme desafio.
Durante séculos, organizámos a sociedade em torno de uma ideia aparentemente simples: quem trabalha recebe um rendimento; quem recebe um rendimento consome; quem consome alimenta a produção.
Era um círculo imperfeito, naturalmente. O trabalhador nunca recebeu necessariamente uma parte justa da riqueza que produzia. A repartição entre capital e trabalho foi sempre desigual e esteve na origem de inúmeras lutas sociais. Mas existia uma relação económica fundamental: o trabalho constituía uma das principais fontes do rendimento das famílias e, através desse rendimento, também uma das principais fontes da procura.
Ora, imaginemos agora que uma fábrica consegue produzir o dobro com metade dos trabalhadores.
A produtividade aumenta. Os custos podem diminuir. A empresa pode obter maiores lucros. Os consumidores podem beneficiar de preços mais baixos.
Tudo parece excelente.
Mas surge imediatamente uma pergunta incómoda:
e os trabalhadores que deixaram de ser necessários?
Mais importante ainda:
quem comprará aquilo que as máquinas produzem se uma parte significativa da população deixar de receber um salário?
Aqui começa o verdadeiro problema.
A economia pode tornar-se extraordinariamente produtiva e, simultaneamente, socialmente desequilibrada.
Não porque haja menos riqueza. Pelo contrário: poderá haver muito mais riqueza.
O problema será saber quem fica com ela.
Na sociedade industrial, a repartição do valor produzido estabeleceu-se, de forma simplificada, entre capital e trabalho. Os proprietários do capital recebiam lucros, juros ou rendas; os trabalhadores recebiam salários.
Mas o que acontece quando uma máquina, alimentada por energia, software, dados e inteligência artificial, consegue realizar o trabalho que anteriormente exigia centenas ou milhares de pessoas?
Para onde vai a riqueza adicional?
Se a resposta for simplesmente «para o capital», estaremos perante uma transformação económica de consequências profundas.
A produtividade poderá aumentar enormemente enquanto os rendimentos do trabalho diminuem em termos relativos.
E aqui está o paradoxo:
quanto mais capazes formos de produzir sem pessoas, mais importante se torna encontrar formas de distribuir rendimento para que as pessoas possam continuar a consumir.
Não é apenas uma questão de justiça social.
É também uma questão de funcionamento da própria economia.
Uma economia não vive apenas de produzir. Precisa de vender aquilo que produz.
Não basta ter fábricas capazes de produzir milhões de automóveis se milhões de pessoas não tiverem rendimento para comprar um.
Não basta produzir alimentos em abundância se uma parte da população não dispuser de poder de compra para os adquirir.
Não basta a inteligência artificial conseguir produzir uma quantidade quase ilimitada de informação, serviços e conteúdos se o cidadão comum perder capacidade económica para participar na sociedade.
Produção sem distribuição cria abundância; distribuição sem produção cria escassez. Uma sociedade equilibrada precisa das duas.
É por isso que a discussão sobre robotização não pode ser deixada exclusivamente aos engenheiros, aos informáticos ou aos empresários.
É uma questão económica, social, política e, em última análise, civilizacional.
O trabalho deixará de existir?
Não necessariamente.
Seria precipitado anunciar o fim do trabalho.
Ao longo da História, inúmeras profissões desapareceram e outras surgiram. O tractor destruiu milhões de postos de trabalho agrícola, mas também criou novas actividades. A máquina de escrever desapareceu, mas surgiram outras profissões. A informática eliminou determinadas tarefas e criou muitas outras.
O problema actual é diferente pela velocidade e pela amplitude da transformação.
Desta vez, não estamos apenas a substituir força muscular.
Estamos a começar a substituir determinadas formas de trabalho intelectual.
E isso pode alterar profundamente a relação entre conhecimento, emprego e rendimento.
É possível que o futuro não seja uma sociedade sem trabalho, mas uma sociedade em que o trabalho necessário para produzir tudo aquilo de que precisamos seja muito menor.
E, nesse caso, talvez tenhamos de fazer uma pergunta que durante séculos quase nunca foi feita:
para que serve a vida quando já não precisamos de passar a maior parte dela a trabalhar para sobreviver?
Esta pergunta é muito mais revolucionária do que parece.
Durante séculos, o trabalho foi não apenas uma necessidade económica, mas também uma fonte de identidade, estatuto, disciplina e reconhecimento social.
Dizia-se de alguém:
«É médico.»
«É professor.»
«É agricultor.»
«É operário.»
«É engenheiro.»
«É funcionário.»
A profissão ajudava a definir a pessoa.
Se o emprego deixar de ocupar uma parte tão grande da vida, teremos de descobrir outras formas de reconhecimento e participação.
E aqui discordaria de uma ideia frequentemente apresentada de maneira demasiado ligeira: a de que, quando as máquinas trabalharem por nós, teremos simplesmente de inventar actividades lúdicas para ocupar o tempo livre.
Não.
O ser humano não precisa apenas de ser entretido. Precisa de sentir que a sua existência tem significado.
Precisará de educação, cultura, ciência, arte, desporto, participação cívica, relações humanas, cuidados aos outros, criação, investigação, convivência e tempo para a família.
Talvez uma sociedade tecnologicamente avançada venha finalmente a perceber que cuidar de um filho, acompanhar um idoso, ensinar uma criança, cultivar uma horta, escrever um livro, tocar música, participar numa associação ou ajudar um vizinho não são actividades de segunda categoria só porque não aparecem convenientemente contabilizadas no PIB.
E quem deve ficar com os ganhos da automação?
Aqui entramos no verdadeiro centro da questão.
Se a robotização produzir ganhos extraordinários de produtividade, uma parte desses ganhos terá de beneficiar a sociedade no seu conjunto.
Isso não significa demonizar o empresário ou o proprietário do capital.
Pelo contrário.
Uma sociedade precisa de investimento, inovação, risco, empreendedorismo e acumulação de capital. Sem isso, não haverá máquinas, inteligência artificial nem progresso tecnológico.
Mas também não podemos esquecer uma evidência elementar: nenhuma empresa tecnológica existe isoladamente da sociedade que a tornou possível.
As empresas beneficiam de universidades, investigação científica, estradas, energia, telecomunicações, tribunais, sistemas financeiros, educação pública, estabilidade institucional e consumidores.
Muito do conhecimento que está na origem das grandes transformações tecnológicas resulta, directa ou indirectamente, de décadas de investigação financiada pela sociedade.
Por isso, não é absurdo defender que uma parte dos ganhos extraordinários proporcionados pela automação deve regressar à comunidade.
A questão não é simplesmente «taxar os robots».
Isso seria uma simplificação.
A questão é criar um sistema fiscal que consiga captar uma parte adequada dos ganhos extraordinários do capital e da produtividade e transformá-los em educação, saúde, habitação, ciência, cultura, segurança social e poder de compra.
Talvez seja necessário discutir também novas formas de propriedade.
Por que razão uma parte dos activos criados pela revolução tecnológica não poderá ser colectivamente apropriada?
Por que razão os trabalhadores não poderão participar nos lucros das empresas altamente automatizadas?
Por que razão os Estados não poderão constituir fundos públicos ou soberanos alimentados por uma parcela dos ganhos extraordinários do capital tecnológico?
São questões que merecem ser discutidas sem dogmas.
E chegamos a Spartacus
Há alguns anos, numa discussão na Associação 25 de Abril, coloquei esta questão de forma mais provocatória: se o trabalho deixar de ser a principal fonte de rendimento para a maioria das pessoas e se a riqueza continuar concentrada, não estaremos a criar condições para uma nova revolta dos escravos?
A comparação com Roma é, naturalmente, uma metáfora.
Não sabemos se aparecerá um novo Spartacus.
Mas sabemos uma coisa: as sociedades tornam-se instáveis quando uma maioria sente que produz ou participa na criação da riqueza, enquanto uma minoria se apropria de uma parcela desproporcionada dos seus benefícios.
Não são os robots que provocam revoltas.
São as relações sociais que se constroem em torno deles.
É por isso que aquilo que hoje observamos em diferentes partes do mundo — conflitos relacionados com desigualdade, imigração, precariedade, perda de estatuto social e medo do futuro — merece atenção.
Não devemos transformar acontecimentos distintos numa única explicação. A imigração, a desigualdade, a automação e os conflitos políticos têm causas próprias e complexas.
Mas há um denominador comum que não devemos ignorar:
a insegurança económica transforma-se facilmente em insegurança social e política.
Quando as pessoas deixam de acreditar que os seus filhos terão uma vida melhor do que a sua, alguma coisa começa a quebrar-se.
Quando o cidadão sente que a economia cresce mas a sua vida não melhora, instala-se a desconfiança.
Quando vê empresas a enriquecer extraordinariamente enquanto o seu próprio rendimento permanece estagnado, a palavra «progresso» começa a perder significado.
E quando uma sociedade oferece tecnologia cada vez mais sofisticada, mas não oferece às pessoas uma perspectiva de futuro, a tecnologia deixa de ser vista como libertação e passa a ser vista como ameaça.
Talvez o verdadeiro desafio seja libertar o Homem do trabalho necessário
É aqui que poderemos encontrar uma interpretação diferente da revolução tecnológica.
Durante milhares de anos, a humanidade procurou máquinas que fizessem o trabalho que os seres humanos eram obrigados a fazer.
O moinho substituiu braços.
O tractor substituiu milhares de homens e animais.
A máquina industrial multiplicou a força humana.
O computador multiplicou a capacidade de cálculo.
A inteligência artificial começa agora a multiplicar determinadas capacidades cognitivas.
Talvez estejamos, finalmente, a aproximar-nos de uma situação em que o ser humano possa trabalhar menos para produzir mais.
Isso deveria ser uma extraordinária conquista da civilização.
Mas só será uma conquista se a riqueza criada for suficientemente distribuída.
Caso contrário, teremos a situação absurda de uma humanidade tecnologicamente capaz de produzir abundância, mas socialmente incapaz de a repartir.
E então a pergunta deixará de ser:
«Como vamos arranjar emprego para todos?»
Talvez tenhamos de começar a perguntar:
«Como vamos garantir a todos os meios materiais, a dignidade, a participação e o sentido de pertença numa sociedade em que já não será necessário que todos tenham um emprego a tempo inteiro?»
Esta é uma mudança de paradigma.
Durante séculos, lutámos para conquistar o direito ao trabalho.
Talvez o século XXI nos obrigue a lutar por outra coisa:
o direito a viver dignamente quando o trabalho já não for suficiente para distribuir a riqueza.
E há aqui uma enorme responsabilidade política.
Não cabe às máquinas decidir o futuro.
Não cabe aos algoritmos decidir quem deve ser rico e quem deve ser pobre.
Não cabe à inteligência artificial determinar a distribuição do poder.
Cabe-nos a nós.
A tecnologia pode produzir uma sociedade de abundância ou uma sociedade de concentração.
Pode libertar tempo ou produzir desemprego.
Pode democratizar o conhecimento ou concentrar ainda mais o poder.
Pode diminuir o esforço necessário à sobrevivência ou aumentar brutalmente as desigualdades.
A máquina não escolhe.
A sociedade escolhe por ela.
E talvez seja esta a verdadeira questão que deveríamos discutir hoje, antes que a realidade nos obrigue a discuti-la amanhã:
se as máquinas vierem a trabalhar cada vez mais por nós, estaremos nós preparados para construir uma sociedade em que a riqueza produzida pelas máquinas pertença, de algum modo, a todos aqueles que tornaram possível a sua existência?
Porque, se não formos capazes de responder a esta pergunta, poderemos descobrir uma ironia terrível:
a humanidade terá conseguido libertar-se da necessidade de trabalhar tanto e, no entanto, não terá conseguido libertar-se da necessidade de lutar pela riqueza.
E talvez seja aí que, metaforicamente, Spartacus volte a bater à porta.

