Ucranianos e ucranianas, quem são os vossos defensores? – por Boaventura de Sousa Santos

Ucranianos e ucranianas, quem são os vossos defensores?

por Boaventura de Sousa Santos

Em 11 de Março de 2022, o jornalista Manuel Carvalho, então director do Público publicava no seu jornal um artigo de opinião intitulado “A miséria moral da esquerda iliberal”. Era uma resposta a um artigo meu publicado pouco antes (25 de Fevereiro) no mesmo jornal, intitulado, “Como Chegámos aqui?”,¹ em que eu criticava a invasão da Ucrânia pela Rússia, mas acrescentava que os EUA tinham provocado a Rússia a intervir desta forma em nome da sua segurança nacional. O artigo de MC merece uma longa citação:

“O festim do relativismo que tende a dizer que Putin é culpado mas… perturbou o Bloco de Esquerda, agravou a obsolescência doutrinária do PCP e chegou a um patamar digno de monumento com a recomendação de Boaventura Sousa Santos (B.S.S.) para que a Europa faça a sua autocrítica perante o que acontece em Mariupol, em Kharkiv ou em Kiev. Não surpreende que o que resta da esquerda maniqueísta continue a olhar o mundo na perspectiva saudosista da Guerra Fria. A rigidez conceptual do seu mundo luta ainda por essa memória do confronto entre dois blocos…Porque não é o conhecimento da história política ou das ideias que justifica a forma como essa esquerda fossilizada relativiza a violência da Rússia sobre a Ucrânia. É, pelo contrário, a mentira e a manipulação. Quando Boaventura Sousa Santos diz que a Europa deve envergonhar-se por não ter sabido evitar a guerra, está a usar a narrativa contrafactual para salvar Putin e culpar a Europa pelo seu imperialismo militarista. Da mesma forma, quando culpa os Estados Unidos pelo golpe no Brasil em 2016 que elegeu Bolsonaro, não baseia em coisa alguma esta teoria da conspiração nem diz que o Presidente mais cavernícola da democracia brasileira simpatiza com Trump e Putin e odeia Joe Biden e a democracia americana. Esta manipulação cheia de ranço soviético e antiamericanismo primário não se fica pela acusação à Europa, afinal a culpada por não ter salvado o mundo das garras de um ditador, ou mera extensão dos desígnios da dominação mundial da América. Mais grave ainda é considerar que os Tratados de Minsk foram violados pela Ucrânia, quando se sabe que as repúblicas populares de Donetsk e Lugansk trataram de marcar eleições logo em Novembro de 2014…Um intelectual de esquerda com os pergaminhos e o prestígio de B.S.S. certamente interpretaria a intensa e corajosa luta popular na Praça Maidan, que durou mais de 100 dias e causou mais de 100 mortos, como uma façanha digna da Primavera dos Povos ou da Comuna de Paris se na origem da rebelião não estivesse o cumprimento de acordos com a União Europeia. A traição à vontade popular, ou expressões ainda mais eloquentes consagradas na terminologia revolucionária, seria sem dúvida um bom argumento para explicar e justificar a queda de Viktor Ianukovich…..Na mesma linha delirante está a tese de que há linhas de fundo da política externa de Washington que “provocaram a Rússia” para se “expandir”, de modo a que quando se expandisse pudesse ser “criticada por fazê-lo”….Lê-se e custa a acreditar que um relatório da Rand Corporation citado por B.S.S. seja suficiente para corroborar tão delirante visão. Quer isso dizer que os EUA e a UE estimularam o ataque à Ucrânia apenas para poderem hoje dizer que a Rússia é um perigo para a segurança mundial e a atacar com sanções? Acreditar nisto não difere muito da crença de que os comunistas comiam criancinhas. Afinal, Putin ataca a Ucrânia não por recusar o seu direito a ser uma entidade histórica, ou por a querer desmilitarizar ou “desnazificar”. Não: responde apenas a uma provocação…Numa democracia (e num jornal europeu, democrático e pluralista como o PÚBLICO) cabem todos estes devaneios, mesmo que ancorados em visões distorcidas ou manipuladas da História — ao contrário do que acontece na ditadura de Putin que B.S.S. tão ardilosamente protege, a divergência é um tempero indispensável das sociedades livres. Mas há nesta forma de explorar o relativismo uma hipocrisia que começa a ser intolerável. Que B.S.S., ou o PCP, ou quem quer que seja, defendam Putin, a Rússia e a agressão à Ucrânia de forma aberta, corajosa e frontal, estão no seu direito. Mas que digam então de forma livre e consciente que a Rússia e a autocracia de Putin (ou a China) lhes fazem falta, para que a democracia liberal do Ocidente, que atrai os jovens ucranianos ou bielorrussos, tenha opositor à altura.”

Quem ler a minha crónica (abaixo) e a comparar com o destempero do insulto que ela suscitou facilmente se aperceberá que o ódio contra mim tinha raízes e razões muito outras, como um ano depois se veio a confirmar com o soez e massivo linchamento a que fui sujeito e de que o Público foi um dos promotores. Que a minha posição era intolerável veio a confirmar-se pouco depois com as ameaças que recebi. Mas o que é ainda mais intolerável, ao ponto de não poder ser sequer mencionado é que tudo o que eu escrevi nessa altura veio a ser confirmado por fontes que certa imprensa ocidental não pode pôr em causa, sob pena de se extinguir. Refiro-me ao New York Times, ao Washington Post, a Angela Merkel, e muitos outros. Confirmou-se que a maioria da população ucraniana era a favor da neutralidade e que a resposta dos promotores da NATO foi intensificar a propaganda pro-NATO; que a unificação da Alemanha foi aprovada por Gorbachov com base na promessa de que a NATO não se expandia para leste, uma promessa descaradamente incumprida; que a “corajosa luta popular em Maidan” teve a colaboração decisiva da CIA para deslegitimar a eleição de um presidente democraticamente eleito que era a favor da neutralidade da Ucrânia; que as potências ocidentais nunca tiveram a intenção de apoiar o cumprimento dos acordos de Minsk (Angela Merkel dixit); que foram os EUA e o Reino Unido (pessoalmente, Boris Johnson) quem convenceu Zelenski a não assinar o tratado de paz que pouco antes (três meses depois da invasão) tinha negociado com Putin sob mediação do Presidente Erdogan da Turquia.

Tragicamente, tudo isto são águas passadas para os ucranianos. A razão por que volto ao assunto é apenas para dar voz a Iuliia Mendel, secretária de imprensa de Zelensky entre 2019 e 2021 e hoje fortemente crítica de Zelenski que, em resposta, lhe aplicou severas sanções. Iuliia Mendel foi convidada a dirigir-se aos parlamentares europeus. Foi impedida de o fazer presencialmente e apenas o fez por via remota. A pluralista imprensa ocidental silenciou a sua voz. Se “é evidente que a Ucrânia está a ponto de ganhar a guerra” e que “a vitória é certa se os EUA e os europeus se decidirem a contribuir com mais armas e mais dinheiro” como pode ser verdade o que Iuliia Mendel disse aos parlamentares?

O que ela disse foi, e cito:

Iuliia Mendel

 

“17 de Setembro de 2026

Ontem, o Parlamento Europeu proibiu-me de entrar — sem qualquer explicação. Isto aconteceu apenas algumas horas antes do meu discurso e depois de Volodymyr Zelenskyy me ter sancionado no domingo, dia 13. Há quem diga que Zelensky lhes pediu pessoalmente para cancelarem o meu discurso.

Tentaram então bloquear a transmissão de vídeo. No último momento, encontrámos uma solução técnica alternativa e eu proferi o discurso na mesma.

Estou a partilhá-lo para que possais avaliar por vós próprios o «perigo» — e tirar as vossas próprias conclusões sobre o motivo pelo qual Zelensky tem tanto medo de que os ucranianos falem de paz.

Senhores Deputados do Parlamento Europeu,

É uma grande honra e um privilégio falar aqui — no Parlamento da União Europeia, no local onde nascem as ideias centrais da civilização europeia.

Para alguns de vós, o que estou prestes a dizer pode ser incómodo. Pode suscitar críticas, ou mesmo ira. E, no entanto, estou aqui cheia de esperança. Pois está escrito: «Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á.»

Durante dois anos, desempenhei as funções de assessora de imprensa de Volodymyr Zelenskyy, depois de ter trabalhado como freelancer para o New York Times, consultora do Banco Mundial e escritora publicada em meios de comunicação generalistas — trabalho do qual me orgulhava. Hoje, alguns no Ocidente e nos meios de comunicação estatais da Ucrânia chamam-me de “pró-russa” assim que exponho um facto simples sobre a guerra ou discordo da política de escalada interminável de Zelensky. As pessoas no confortável Ocidente acreditam, por vezes, que compreendem a Ucrânia e esta guerra melhor do que eu — eu, que tenho vindo a cobrir o conflito desde 2014, viajei para o Donbas muitas vezes com o próprio Zelensky, participei nas negociações, ajudei a elaborar as comunicações do Presidente e permaneci no local quando a invasão em grande escala começou em 2022. Fui alvo de bombardeamentos e sobrevivi por pouco. Atravessei o país a ajudar civis e fiz reportagens sem descanso. Ninguém pode, a sério, chamar-me pró-russa, a menos que aceite narrativas primitivas e maniqueístas sobre a guerra.

Não vim aqui para jogar jogos políticos. Vim com um único objetivo: defender o povo da Ucrânia — o meu povo. Vou contar-vos uma verdade que está a ser cuidadosamente escondida do mundo. Sou filha da Ucrânia e, hoje, sou a sua voz.

Diferencio-me de muitas das vozes que já ouvistes, porque não lucro com esta guerra. Não estou a construir uma carreira com base nela. Não recebo quaisquer subsídios nem obtenho qualquer vantagem com ela. Tal como a maioria dos ucranianos — tal como a maioria dos europeus, americanos e russos —, só tenho a perder com esta crueldade. E compreendo que, se esta guerra continuar, trará perdas e mudanças que nunca poderão ser desfeitas.

O povo e as forças armadas ucranianas têm demonstrado uma resiliência extraordinária; não temos nada de que nos envergonharmos. Mas a guerra mudou-nos a todos e, hoje, resiliência significa dizer a verdade e defender a paz.

Estou aqui porque a Ucrânia e a Europa continuam a escolher uma guerra má em vez de uma paz má — a escalada em vez da diplomacia, vezes sem conta. No entanto, um dia esta guerra terminará, e cada um de nós será lembrado pelos frutos que hoje colhemos.

Vós sois as mentes mais brilhantes da Europa. Não tenho dúvidas de que sabeis muito sobre a guerra russo-ucraniana. Conheceis os números e as estatísticas. Vistes as fotografias. Lestes os livros e os artigos, as posições políticas e as estratégias. E, no entanto, estou aqui para vos dizer: não sabeis nada sobre esta guerra.

A minha afilhada Maria fará quatro anos dentro de algumas semanas. Ela nunca conheceu uma vida sem guerra. Nascida em Kiev, é uma menina inteligente e cheia de vida que fala um ucraniano maravilhoso, intercalando, de vez em quando, alguma palavra em inglês. Recentemente, começou a fazer xixi na fralda na creche. Depois de mais um ataque com mísseis russos, ficou aterrorizada com a possibilidade de um foguete atingir a sua escola. A minha amiga passou muito tempo a consolá-la e acabou por conseguir, da forma mais terrível que se pode imaginar: a criança adormece agora ao som dos ataques às refinarias de petróleo russas. “Bons ataques”, chamam-lhes em casa. Ela tem quatro anos e mal consegue compreender as nuances da guerra. “Estou horrorizada”, disse-me a mãe dela.

A minha sobrinha Anna tem dez anos e nunca pisou uma escola. Não sabe como é uma sala de aula cheia de crianças. Mudou-se tantas vezes que não tem amigos em lado nenhum. Os pais ocidentais ficaram preocupados quando os seus filhos passaram um ano e meio a estudar online durante a pandemia. A minha sobrinha não conhece outro tipo de educação. Todos os dias fica sozinha no apartamento enquanto os pais trabalham. Entra nas aulas online, faz os trabalhos de casa, depois limpa, cozinha e espera por eles. Não pode passear por uma cidade sob ataque constante. Não conhece o que é a comunidade nem a amizade infantil. No inverno, os seus dias são curtos e frios: no inverno passado não houve aquecimento nem eletricidade.

Uma em cada três crianças ucranianas não tem atualmente acesso a uma educação adequada. A Ucrânia já foi famosa pelos seus cientistas. Foi sob o comando de um ucraniano que o primeiro ser humano voou para o espaço. Construímos aviões e helicópteros; os nossos físicos e biólogos continuam a contribuir para a ciência mundial. No entanto, na linha da frente, há alunos do 4.º ano que não sabem ler. Escutai bem: há crianças de dez anos que não sabem ler. A degradação da educação e das competências sociais nas futuras gerações deve assustar-nos a todos.

Os ucranianos não são inferiores a nenhum outro povo. Nós também queremos educação e cuidados de saúde. Nós também queremos criar, crescer, competir e cooperar. Daqui a cinco ou dez anos, isso será impossível se a guerra continuar. Sob os mísseis, os drones e as bombas, estamos a perder capital humano — não só por causa das mortes e dos ferimentos, mas também pela simples ausência de qualquer possibilidade de viver. Anos de mera sobrevivência degradam tanto a mente como o corpo.

A minha mãe e o meu pai são médicos na linha da frente, em Kherson. Passaram mais de oito meses sob ocupação russa e continuam a recusar-se a abandonar uma cidade sob bombardeamentos constantes. Os médicos lá são extremamente escassos. “Se todos partirem”, perguntam eles, “será que isto ainda é a Ucrânia?” Possuem um luxo raro e terrível — a capacidade de permanecer quando poderiam partir, movidos pelo sentido de responsabilidade para com a comunidade e a história.

Dezenas de milhares de outras pessoas não podem sair de todo, presas pela pobreza e pela ausência total de ajuda. O Estado oferece às pessoas deslocadas menos de cem dólares por mês, e apenas por um período limitado — uma quantia com a qual não se consegue alugar uma casa nem alimentar uma família. Nas aldeias da linha da frente, as pessoas vivem sem qualquer colchão de segurança; mil dólares são uma fortuna inimaginável. Poderia ter sido diferente. As estratégias que escolhemos hoje conduzem a Ucrânia por um caminho de pobreza e guerra constantes, o que significa degradação social.

Numa aldeia na região de Kherson — uma aldeia por onde passei muitas vezes a caminho da casa da minha avó —, uma família foi destruída. O pai e a mãe morreram, assim como a filha, que tinha vinte e três dias de vida. A minha própria mãe tinha dado alta a esse bebé no hospital. O filho ficou ferido. Numa única explosão, num único instante, uma família foi varrida.

Já ouvistes falar de tragédias como esta. O que ainda não ouvistes é o que significa, na verdade, sobreviver na linha da frente: que as avultadas somas de dinheiro dos contribuintes citadas nos meios de comunicação social muitas vezes pouco contribuem para ajudar os ucranianos que estão simplesmente a tentar manter-se vivos; que existe uma escassez catastrófica de médicos; que as escolas estão, em grande parte, incapazes de funcionar; e que, para muitas pessoas, o cálculo que fazem todos os dias resume-se simplesmente a como chegar ao trabalho e regressar a casa sem serem apanhados pelos bombardeamentos.

Ali, na linha da frente, as pessoas vivem uma realidade diferente. As suas vidas tornaram-se uma luta diária pela sobrevivência. Cidadãos comuns doam dinheiro do seu próprio bolso para apoiar o esforço de guerra. As mulheres cozinham para os soldados, recolhem roupa quente e outros bens de primeira necessidade e enviam-nos para a frente de batalha através de voluntários. Porque ali, na linha da frente, estão os seus filhos e maridos. As comunidades locais apoiam o exército, ao mesmo tempo que tentam manter-se a si próprias, às suas famílias e aos seus vizinhos vivos.

Esta é a guerra tal como é realmente vivida pelas pessoas no terreno. Elas suportam-na, contribuem para ela e lutam contra as forças invasoras, apesar da corrupção e da eficácia limitada do governo ucraniano.

Um terço da Ucrânia foi transformado num inferno. Quase vinte por cento do nosso território está ocupado; outros dez por cento tornaram-se uma frente de batalha em chamas. Pensai bem: por quanto tempo os restantes 70% conseguirão aguentar com uma ferida tão aberta e por tratar?

E que estratégia apoiamos hoje? Uma estratégia em que este sofrimento diário se torna invisível, sem peso, contrariado por uma grande ideia — a destruição da RÚSSIA. Sejamos honestos: muitas pessoas querem destruir a Rússia mais do que querem salvar a Ucrânia. Com entusiasmo crescente, lemos, várias vezes por mês, os artigos fervorosos nos meios de comunicação dominantes que anunciam que a Rússia está prestes a entrar em colapso. Há quase um quarto de século que os lemos. O preço desse colapso em câmara lenta é a minha nação, o meu país, o meu Estado — a Ucrânia.

Nenhum desses especialistas, professores ou jornalistas ocidentais que escrevem estes artigos aceitaria jamais viver num país assim, nem permitir que a sua própria pátria passasse por tais horrores em nome de uma grande ideia. Pensava que já tínhamos aprendido a lição de sacrificar povos inteiros em nome de grandes ideias.

Mas compreendo-vos. Se o líder do meu próprio país, Volodymyr Zelensky, aceita o statu quo, por que razão haveríeis de o contestar?

Primeiro, vieram os acordos de Istambul, depois a Fórmula da Paz, depois o Plano da Vitória, depois a Coligação dos Dispostos. O que a maioria das pessoas não sabe é que também houve inúmeros mediadores a facilitar os contactos, bem como múltiplas interpretações jurídicas do que agora é simplisticamente reduzido à fórmula de “ceder território ou não” — interpretações que poderiam ter ajudado a Ucrânia a manter o controlo com o tempo.

Houve acordos de que nunca se ouviu falar, mencionados apenas brevemente em público. Esses entendimentos não ficarão nos livros de história, mas apenas na memória daqueles que tentaram ajudar.

Todos estes acordos foram rejeitados por Volodymyr Zelensky — mesmo aqueles em que ele próprio tinha dado a sua palavra e feito a sua promessa. Ele promove a via mais maximalista e inatingível para a vitória como a única via para a paz — e isto diz-me que ele não está de todo interessado em alcançá-la.

Há algum tempo, JD Vance, agora vice-presidente dos Estados Unidos, na altura senador, escreveu um ensaio notável no The New York Times, salientando que as contas na Ucrânia não batem certo. Esse ensaio deu a muitos de nós a esperança de que alguém via o mundo através dos nossos olhos e compreendia o que estávamos a viver. Passaram-se mais de dois anos desde que o escreveu — e as contas continuam a não bater certo. Comecemos pela questão mais elementar de todas: como é que se espera que vinte e cinco milhões de ucranianos, metade dos quais reformados possam defender quinhentos milhões de europeus contra cento e quarenta milhões de russos? Não há vergonha?

Desde que conquistou a independência em 1991, a Ucrânia perdeu mais de metade da sua população. Na altura, viviam lá 52 milhões de pessoas. Hoje, mesmo segundo as estimativas mais otimistas, esse número ronda os 25 milhões — e o declínio está a acelerar. Quase metade da população é composta por reformados, a taxa de natalidade é catastroficamente baixa e a guerra continua a ceifar vidas e a afugentar aqueles que simplesmente querem viver. Só no ano passado, morreram quase três vezes mais pessoas do que as que nasceram e, no primeiro semestre de 2026, a situação agravou-se: morreram quatro vezes mais pessoas do que as que nasceram. Acrescente-se a isso cerca de trezentos mil emigrantes oficiais — e o número real é certamente muito superior — e, segundo estimativas conservadoras, a Ucrânia está a perder mais de seiscentas mil pessoas por ano. A este ritmo, dentro de dez anos a população poderá cair para muito abaixo dos vinte milhões.

Estes são números catastróficos. A guerra transformou a Ucrânia num lugar onde a vida e um futuro promissor parecem cada vez mais impossíveis. Trata-se de aritmética simples — aritmética que mostra o meu país a desaparecer diante dos vossos olhos, ao som dos aplausos calorosos dirigidos a um homem num tapete vermelho, um homem que já está no seu oitavo ano no poder e que encontra sempre uma nova razão pela qual a guerra ainda não pode ser travada.

Esta guerra destruiu a economia ucraniana e a democracia ucraniana. Deixai-que vos dê mais alguns exemplos desta aritmética cínica e cruel. A UE concede-nos empréstimo após empréstimo; a nossa dívida externa já atingiu mais de 110 por cento do PIB; dependemos inteiramente das transferências ocidentais, no que tem sido chamado de “donornomics”. Como o próprio antigo parceiro de Zelensky — agora foragido por acusações de corrupção — foi gravado a dizer em escutas anticorrupção: “A economia pode esperar.” Quase não criamos valor acrescentado; as nossas exportações estão asfixiadas pela guerra, pelo atrito com os Estados-Membros da UE e por quotas que são demasiado reduzidas.

Vós próprios sabeis disso perfeitamente. Por isso pergunto-vos: de que vitória é que estamos sequer a falar? A Europa está agora a financiar a produção de drones de Volodymyr Zelensky à custa da economia de toda uma nação. No nosso país já não há ciência, nem inovação para além do domínio militar; as pequenas empresas estão a morrer, as grandes estão a transferir o seu dinheiro para fora e as médias já partiram. Repito: somos iguais a vós. Quando descrevo isto, imaginai o vosso próprio país nesta situação.

Vejo vozes ucranianas incómodas a serem ignoradas — vozes cujo número cresce — apesar da perseguição, das ameaças, das sanções ilegais, dos processos criminais, da destruição de reputações, da rotulação de pessoas como traidores, tudo porque nos pronunciamos contra a guerra. Como chegámos ao ponto em que quem se opõe à guerra é considerado pró-russo e antidemocrático? Escutai bem: a paz não pode ser pró-russa. A paz é a única saída para a crise em que todos nos estamos a afogar — e o povo ucraniano, em primeiro lugar.

Zelensky diz-nos que vai exigir melhores condições de paz. Mas a questão é que estamos a perder o país, a nação. Não haverá povo a quem oferecer essas melhores condições. E todos vós aqui sabeis que a derrota militar da Rússia é impossível. Estes jogos custam demasiado. Pelo meu país e também pelo vosso futuro. Não há melhor momento para a paz do que AGORA.

Aqui na Europa, tornou-se patriótico manter silêncio sobre o que está a acontecer no interior da Ucrânia. As fronteiras fechadas aos homens transformaram a vida numa jaula para inúmeras famílias. A corrupção de escala colossal — uma escala que simplesmente não conseguis imaginar — que atinge o círculo mais próximo do presidente, em contraste com a pobreza total, está prestes a destruir a própria motivação para resistir à Rússia.

A caça aos homens, a tortura nos gabinetes de recrutamento, homens espancados até à morte por oficiais de recrutamento e, por vezes, mortos pelos seus próprios comandantes — tudo isto se assemelha a um espetáculo brutal de gladiadores, no qual os ucranianos comuns têm um único objectivo: sobreviver. Os homens fogem através de montanhas e rios; os nossos próprios serviços retiram os corpos daqueles que não conseguiram chegar ao destino. E à frente espera-nos mais um inverno terrível, sem aquecimento e sem luz.

Falam-vos de resiliência, de dignidade, de um espírito inquebrantável. Qual das coisas que acabei de descrever reflecte alguma dessas qualidades? Ignorar este sofrimento em nome de grandes ideias, escondê-lo por trás de belas palavras — isso é desumanidade. Em tempos sombrios, o mais difícil de tudo é permanecer humano. E recordo-vos mais uma vez: mais cedo ou mais tarde, cada um de nós será julgado pelos frutos que produzimos hoje.

Podeis imaginar-vos a vós próprios, às vossas famílias, aos vossos amigos no lugar dos ucranianos. Por favor, imaginai isso mesmo. Imaginai que é interminável. Imaginai que não há outra saída senão sobreviver assim — enquanto os meios de comunicação social e as agências anticorrupção noticiam, dia após dia, os milhões desviados e as vidas luxuosas das pessoas próximas do presidente e do poder.

A guerra de Putin é injustificada na sua brutalidade e desrespeito pela vida humana. O historial de Zelensky de desmantelar reformas, proteger redes de corrupção, enganar o seu próprio povo e colocar o poder pessoal acima da sobrevivência da nação é igualmente injustificado. Um intelectual alemão afirmou: “abordar ambas as realidades é o requisito mínimo de honestidade intelectual”. Por isso, por favor, perguntai a vós mesmos honestamente: é verdadeiramentecrível que uma corrida interminável para acumular mais armas permitirá que a Ucrânia vença — sem economia e com uma população que diminui ano após ano para muito abaixo da da Rússia?

Quando esta guerra começou, defendíamos valores. Agora, defendem nomes.

A Ucrânia ajudou a estabelecer um padrão de militarização da sociedade, e alguns líderes do Ocidente abraçaram-no. Há quem, na UE, pareça acreditar hoje que a militarização das suas economias e sociedades pode constituir uma resposta às dificuldades políticas e económicas. Mas o rearmamento permanente, aliado ao cultivo constante de uma imagem inimiga, cria a sua própria dinâmica. Quanto mais uma sociedade está preparada para a guerra, maior é a pressão para justificar essa preparação. E, mais cedo ou mais tarde, essa lógica corre o risco de produzir precisamente o conflito que alega querer evitar.

Aqui na UE, diz-se frequentemente que tudo o que era possível foi feito e que a culpa é apenas de Putin. O que Putin fez — enviar tanques para Kiev, ocupar partes do nosso território, incluindo a minha própria região natal, lançar mísseis e drones todos os dias — não tem justificação. No entanto, culpamos constantemente apenas Putin, mas não vemos a trave no nosso próprio olho. Será que o Ocidente fez realmente tudo para alcançar a paz?

O que vejo é isto: ameaças em vez de diplomacia; o desejo de destruir a Rússia, independentemente do número de vidas ucranianas que isso custe e do grau de degradação a que a Ucrânia seja submetida; e a vontade de vender o máximo de armas possível.

Zelensky concorda com isto — para ele, a economia tornou-se um cofre privado. Os lobistas da guerra concordam com isso, assim como todos aqueles que, de alguma forma, lucrarão com a situação. Mas como é que a maioria pode concordar com isto? Não compreendem que esta guerra não pode continuar com a mesma intensidade durante anos a fio? Mais cedo ou mais tarde, transbordará para além das fronteiras da Ucrânia.

Será que a Europa fez realmente o suficiente para pôr fim a esta guerra? Todos aqueles que tentaram falar com Putin foram perseguidos e rotulados de pró-russos — desde Orbán e Fico até ao próprio Presidente dos Estados Unidos. É difícil acreditar que, no mundo civilizado, narrativas tão superficiais e maniqueístas possam dominar — sobretudo quando o assunto é a guerra, a única guerra na Europa.

Sim, a Rússia iniciou esta guerra. Mas são os lobistas da guerra que a mantêm viva — aqueles que lucram com ela. Esse não sou eu, nem és tu. Então, por que razão apoiarias este massacre, esta guerra de desgaste contra os ucranianos? Vós sois legisladores. Sabeis que, quando algo precisa realmente de ser feito, é feito discretamente.

O que se esconde por trás da enorme campanha de relações públicas a favor da militarização na Alemanha? Incerteza quanto ao seu próprio rumo? Como se sentem os polacos perante a perspetiva de terem de lutar? Estão a comprar imóveis em Espanha e em Itália. Por que razão os belicosos britânicos e franceses ainda não se encontram nas fileiras do exército ucraniano? A resposta à pergunta é óbvia. Porque quando se trata de uma guerra a sério — quando a escolha é entre a vida e a morte por ideias — muitos acabarão por compreender o erro deste caminho da militarização, no qual o povo ucraniano é o primeiro a ser sacrificado. Os vossos filhos irão lutar?

Um professor ocidental aconselhou um aluno a ir para a frente de batalha na Ucrânia. Vendo a guerra como um filme de Hollywood, tal como a maioria dos ocidentais, o aluno assinou um contrato. Depois, deparou-se com o inferno e implorou para ser retirado. O professor respondeu: todos fazemos história no nosso lugar. É mais uma história que mostra como, aqui no Ocidente, as pessoas simplesmente não sabem o que é a guerra.

Por isso, pergunto-vos sem rodeios: estais prontos para que os vossos filhos lutem — numa frente de batalha real? Não acredito que estejais. Vejo como é difícil para os europeus aceitarem até mesmo um ligeiro desconforto nas suas próprias vidas. É precisamente por isso que temos sanções a meio gás. É precisamente por isso que o comércio com a Rússia continua.

Estamos agora no quinto ano de uma guerra em grande escala e no 13.º ano de guerra na Europa, e as estratégias de pressão sobre a Rússia estão a falhar. Como dizemos no nosso país: os ouriços picaram-se e choraram — e continuaram a comer o cacto.

É hora de mudar de estratégia. Não pode ser de outra forma, quando as pessoas e as circunstâncias mudaram. A situação na Ucrânia torna-se cada vez mais crítica a cada dia que passa. Por isso pergunto-vos, legisladores: por que razão não mudais a estratégia? Alguém tem de o dizer claramente — não existe tal coisa como uma diplomacia de ameaças. Simplesmente não existe.

Será possível sermos amigos da Rússia? Como ucraniana, não vejo qualquer possibilidade de amizade imediata após a dor que suportámos. Mas teremos de continuar a matar-nos uns aos outros? Uma coisa é não sermos amigos; outra, bem diferente, é continuarmos a matar. É possível manter a Rússia sob controlo e impedir que repita tal agressão — não através da guerra, mas através da razão, da diplomacia e da humanidade. E demasiadas pessoas renunciaram precisamente a essas virtudes no decorrer desta guerra.

Todos os dias vejo os depósitos de petróleo russos a arder. Vou ser honesta: como ucraniana, acredito que os russos devem sentir o que é a guerra. Mas, como pessoa que deseja a paz, compreendo que apenas mordemos a Rússia — e toda a sua fúria recai sobre as cabeças dos ucranianos, enquanto o Ocidente continua a viver de relações públicas e de meias-medidas. Se a Ucrânia resistiu ao inverno mais terrível que se possa imaginar e não sucumbiu — com o apoio ocidental —, então por que razão deveria a Rússia sucumbir, um país que nem sequer precisou de pedir empréstimos para travar esta guerra? Pensai nisto: a nossa dívida situa-se nos 110 por cento do PIB, e a Rússia nem sequer precisou de pedir empréstimos.

O colapso da Rússia é iminente apenas nas mentes de idealistas que desconhecem as realidades económicas da Rússia e da Ucrânia. Não estou aqui para defender a Rússia nem para a bajular — mas o pensamento positivo é uma armadilha e, na minha terra, essa armadilha mede-se em milhares de vidas. O pensamento ilusório está hoje pintado com as cores do sangue ucraniano. E cada artigo de um teórico-cruzado contra a Rússia — alguém que, muitas vezes, nunca pisou nem a Rússia nem a Ucrânia e baseia a sua compreensão nas redes sociais — é uma pequena tragédia, um sinal de degradação da nossa civilização. Pois não passa de um desejo infundado, disfarçado para justificar uma guerra terrível neste continente e o sofrimento diário que ela acarreta.

Por isso, estou aqui e imploro-vos: deixai de acreditar nas narrativas superficiais e maniqueístas que vos são transmitidas pelos enviados de Zelensky e pelos activistas financiados pelos vossos próprios líderes. Este círculo fechado de narrativas, desligado da realidade, nem sequer é uma troca de informação — é uma estrutura rígida e vertical de mensagens, uma espécie de autocensura, como se desejassem ouvir apenas o que já querem ouvir.

Dizem-vos: Putin não vai ceder. Temos de pressioná-lo ainda mais! Soa tão corajoso. Na prática, é absurdo — um banquete em tempos de peste. Esta guerra já ceifou centenas de milhares de vidas e destruiu milhões de famílias; é uma tentativa de sobreviver dentro de um moedor de carne. Putin deve ser abordado de outras formas — não com força cega. Este espetáculo interminável de morte nunca deveria ter sido normalizado.

Só um líder forte pode pôr fim a esta guerra. Os corações de milhões de pessoas estão cheios de gratidão para com Donald Trump pela coragem de questionar um statu quo sob o qual o povo ucraniano está condenado. E, no entanto, deparou-se com uma resistência extraordinária — primeiro por parte de Volodymyr Zelensky, cujos associados lucram com esta guerra através das suas empresas de drones, e depois por parte dos líderes europeus. Estes não são os termos certos para a paz, decidiram coletivamente alguns líderes europeus — nenhum dos quais jamais, na sua própria vida, concordaria em deixar o seu próprio país e a sua própria família passar pelo que a Ucrânia está a passar.

Quando Zelensky se candidatou à presidência, afirmou que se ajoelharia perante Putin para que este não colocasse a Ucrânia de joelhos. Disse que todas as vidas importavam, que as vidas das pessoas eram o que mais contava. E que, se não conseguisse pôr fim à guerra, cederia o cargo a outra pessoa que o fizesse. Hoje, ele altera as condições de paz de semana para semana: ora é a adesão à NATO, ora a devolução da Crimeia, ora as fronteiras de 1991, ora a adesão à União Europeia — como se tudo isto fosse alcançável de uma só vez —, ora a recusa em ceder o Donbass. Esta guerra não tem a ver com território.

A guerra russo-ucraniana é sangrenta e sem sentido. A esta altura, estão a ser causadas mortes e destruição imensas por nada. Se se trata de manter a Ucrânia fora da NATO — essa questão já foi retirada da mesa. Se se trata de defender a democracia — a nossa democracia está agora tão frágil que mal difere de qualquer regime autocrático: liberdade de expressão severamente limitada, instituições enfraquecidas, violações de direitos constitucionais básicos, perseguição política e vidas que importam tão pouco como em qualquer autocracia. Se o objectivo é destituir Zelensky do poder — ele tem sido o seu principal beneficiário: à beira de perder o poder em 2021, encontrou na guerra o meio de prosperar, lucrando com todos os seus aspetos, acumulando poder quase ilimitado no seu país e desfrutando de fama internacional. E se o objectivo é reconquistar os territórios que a Rússia conquistou — então a Ucrânia está simplesmente a perder mais deles, não a recuperá-los. Esta guerra não tem razão nem justificação para continuar, a não ser para beneficiar alguns pequenos grupos. E, por causa disso, a Ucrânia encontra-se à beira da extinção.

Apelo a um regresso à diplomacia e à política. Exorto os líderes a não temerem os ataques das redes sociais. Estou aqui por uma única razão: porque alguém tem de falar em nome do povo ucraniano e alguém tem de lutar por ele — não por ruínas, não por território, não por medalhas, mas por seres humanos. Superai estes ataques primitivos. Sede estrategas. Mantende os vossos amigos por perto e os vossos inimigos ainda mais perto. Sempre que falardes desta guerra amaldiçoada, lembrai-vos de que, dentro da jaula de uma nova autocracia europeia, se encontram milhões de pessoas que rezam, todos os dias, para que a guerra termine. A estratégia actual não funciona.

A Ucrânia encontra-se agora num estado tão terrível que não consegue sobreviver sem ajuda. E eu também, outrora, apelei a essa ajuda — à ajuda militar. Mas agora vejo-a desaparecer nas mãos de quem lhe convém, enquanto os nossos céus ainda não estão fechados, enquanto noventa e três por cento dos nossos abrigos não estão totalmente prontos para proteger ninguém e enquanto a pobreza e a decadência levam milhões a procurar a sua sorte no estrangeiro. Por isso, lembremo-nos de que é possível ganhar a vida com algo que não seja a guerra de um punhado de políticos. Vamos mudar a estratégia, alcançar a paz e investir no meu país. Vamos construir fábricas lá, restaurar as infra-estruturas, criar empregos e encher o orçamento com impostos.

66% dos ucranianos querem a paz o mais rapidamente possível, de acordo com uma sondagem recente da Gallup. Outros 11% não conseguiram responder, provavelmente por medo de expressar a sua verdadeira opinião.

Um sentimento antiguerra crescente está a inundar a Internet e os tribunais, porque na Ucrânia as pessoas podem ser condenadas, sancionadas ou rotuladas como traidoras simplesmente por apelarem à paz ou criticarem os dirigentes. A Internet ucraniana está repleta de vozes que discordam do statu quo — de voluntários, blogueiros e pessoas comuns. Entretanto, a televisão controlada pelo gabinete de Zelensky apresenta a guerra como uma realidade quotidiana imutável que nunca terá fim.

Qualquer pessoa cuja voz ganhe visibilidade significativa tem de se proteger. Na maioria das vezes, as pessoas ou abandonam o país ou alteram a sua posição pública. Todos viram as imagens horríveis do míssil russo a atingir o hospital pediátrico Okhmatdyt, em Kiev, em Julho de 2024. O que talvez não saibam é que, depois disso, vários blogueiros ucranianos conhecidos — tanto de língua ucraniana como de língua russa, com audiências na ordem dos milhões — divulgaram uma mensagem apelando ao fim da guerra. Cito: “Não precisamos das fronteiras de 1991, porque as pessoas só querem paz e tranquilidade.”

Todos estes blogueiros foram convocados para conversações com os serviços de segurança, onde lhes foi dito que se tratava de propaganda russa. Na Internet, espalharam-se alegações de que os blogueiros tinham sido pagos. Quase todos eles ficaram em silêncio depois disso, e um foi forçado a deixar o país.

Para Zelensky, a palavra da verdade é uma ameaça. Como profissional de relações públicas, ele conhece o poder das palavras. Apenas três dias antes deste discurso, Volodymyr Zelensky assinou sanções inconstitucionais contra mim. Ele alega que foi por difundir “propaganda russa”. Na prática, ele sanciona qualquer pessoa que diga o que ele não quer ouvir. Muitos dos seus próprios ex-membros da equipa já foram alvo da mesma punição por se oporem à guerra e se manifestarem contra a corrupção.

O número de acusações de traição no país também disparou.

Em 2015, um total de 73 pessoas foram condenadas por todos os crimes contra os alicerces da segurança nacional na Ucrânia. Desde 2022, foram anunciadas mais de 3 500 suspeitas e 1 048 pessoas foram condenadas por alta traição. Estes são os números de 2025; este ano, os números deverão ser mais elevados. Muitos destes casos envolvem pessoas que simplesmente falam sobre a paz. As imagens dos livros e filmes sobre a União Soviética não ganham vida para si?

Assim, no momento em que eu disser que são necessárias concessões territoriais — uma frase proferida por algumas das pessoas mais sensatas do planeta —, estaria a assinar a minha própria acusação de traição e a minha própria sentença de 15 anos ou prisão perpétua. Por isso, não o direi. Mas vou lembrar-vos que, em 2023, o New York Times publicou um artigo de opinião intitulado “A Ucrânia não precisa de todo o seu território para derrotar Putin”, escrito pelo vencedor do Prémio Pulitzer Serge Schmemann.

Schmemann deu início a uma discussão importante que não conseguimos levar por diante. Ignorámos o apelo para nos envolvermos e ouvirmos os seus argumentos: “O território recuperado não é a única medida de vitória nesta guerra”, escreveu ele na altura.

Lembrai-vos da Finlândia. Quem diria hoje que a Finlândia perdeu a sua guerra? Perdeu algumas batalhas — mas ganhou a sua nação e o seu futuro. A Ucrânia pode tornar-se outra Finlândia. A Ucrânia pode tornar-se uma fronteira entre o Ocidente e a Rússia.

Mas a estratégia atual está a empurrar-nos por um caminho muito diferente. Lembrai-vos do país na guerra do qual foram investidos biliões de dólares ao longo de vinte anos — um país que afundou na corrupção, cujas instituições enfraqueceram, até que, por fim, Cabul caiu nas mãos dos talibãs. Estais a conduzir a Ucrânia por esse mesmo caminho. As nossas instituições estão a ceder sob o peso da corrupção e de uma autocracia arrogante; o nosso povo está a fugir e a perder a fé; e a Rússia continua a avançar. Por que estais a fazer isto? Perdemos território e perdemos pessoas todos os dias, sem tréguas — e, com elas, a nossa oportunidade de um futuro.

Por isso, deixai-me ser perfeitamente clara. Todos aqueles que estão dispostos a combater a Rússia com sangue ucraniano, ignorando o sofrimento das pessoas comuns, estão a agir contra a Ucrânia e contra os valores democráticos. Defender hoje as políticas de Zelensky é defender um statu quo que representa um caminho à afegã para a Ucrânia e uma vergonha histórica para o Ocidente.

Se quereis realmente combater a Rússia, ide para a linha da frente. Não censureis os ucranianos que apelam à paz. Ficar confortavelmente sentado no Ocidente e atacar aqueles que exigem o fim do massacre não faz de vós heróis. Faz de vós hipócritas.

Não há justificação — nenhuma — para uma perda tão monstruosa de vidas e de capital humano. Nenhuma ideia, por mais grandiosa que seja, e nenhuma estratégia, por mais inteligente que seja, pode valer uma nação que perdeu metade da sua população, uma geração de crianças que não sabem ler, famílias varridas por uma única explosão e um futuro extinto antes mesmo de poder começar. Quando o balanço for finalmente feito, não será medido em território ganho ou perdido, nem em armas fornecidas, nem nos aplausos dos tapetes vermelhos. Será medido em vidas — nas crianças que nunca aprenderam, nos pais que nunca regressaram, no país que se permitiu que desaparecesse enquanto o mundo desviava o olhar e chamava a isso determinação. A história não perguntará com que intensidade aplaudimos. Perguntará o que salvámos.

Pois está escrito: “Pelos seus frutos os conhecereis. Uma árvore boa não pode dar frutos maus, nem uma árvore má pode dar frutos bons”. Que cada um de nós olhe, com honestidade, para o fruto que estamos a dar hoje. E que escolhamos — enquanto ainda há tempo para escolher — dar o fruto da paz.

Apelo hoje a todos os políticos europeus para que se unam em torno da causa da paz, para ajudar a pôr fim a esta terrível guerra entre a Rússia e a Ucrânia e para devolver a estabilidade e a segurança ao nosso continente. É isto, e não o belicismo e as posturas moralistas, que constitui o caminho para um futuro de sucesso e o apelo da nossa geração de políticos.

Para terminar, gostaria de agradecer à Alternativa para a Alemanha e, em especial, a Tino Chrupalla, por ter vindo de Berlim para participar neste evento, bem como, pessoalmente, ao Dr. Hans Neuhoff, por me ter convidado e por promover a própria ideia de debater caminhos para a paz na Europa. Esta é a coisa mais certa que qualquer pessoa pode fazer hoje. Obrigada.

 (https://iuliiamendel.substack.com/p/they-tried-to-ban-my-speech-i-gave)”.

Isto foi o que disse a Iuliia Mendel. Não eliminei o último parágrafo, em que ela agradece ao partido Alternativa para Alemanha (AfD), o partido de extrema direita da Alemanha. Os que antes me insultaram têm agora um novo argumento contra mim. Afinal Iuliia Mendel não tem credibilidade porque foi convidada por um partido de extrema-direita e “nós europeus, pluralistas e democratas não podemos dar voz a quem é apoiado pela extrema direita”. E concluirão que afinal o Boaventura não é apenas o homem de Putin, é também um fascista disfarçado. E por incrível que pareça, boa gente acreditará. Daqui a alguns anos (quantos?), os que se deixarem iludir por estes críticos talvez tenham de se perguntar: afinal, não era estranho que naquele tempo os partidos de extrema-direita fossem os partidos mais acérrimos opositores da guerra? Não residiram aí, pelo menos em parte, as vitórias políticas que vieram a ter para nossa desgraça?

Uma nota final: tenho saudades do Álvaro Cunhal que, em 1995, no meio de uma polémica sobre a renovação do sindicalismo, me invectivou como “um intelectual pequeno-burguês de fachada socialista”.

NOTA

¹ https://www.publico.pt/2022/02/25/opiniao/opiniao/chegamos-aqui-1996829

Como o meu texto é só acessível aos assinantes, junto o pdf:
Como chegámos aqui?
A soberania da Ucrânia não pode ser posta em causa. A invasão da Ucrânia é ilegal e deve ser condenada. A mobilização de civis decretada pelo presidente da Ucrânia pode ser considerada um acto desesperado, mas faz prever uma futura guerra de guerrilha. Putin deveria ter presente a experiência dos EUA no Vietnam: o exército regular de um invasor, por mais poderoso que seja, acabará por ser derrotado, se o povo em armas se mobilizar contra ele. Tudo isto faz prever incalculáveis perdas de vida humana inocente. Ainda mal refeita da pandemia, a Europa prepara-se para um novo desafio de proporções desconhecidas. A perplexidade perante tudo isto não poderia ser maior.
A pergunta é esta: como e porquê chegámos aqui? Há trinta anos a Rússia (então União Soviética) saía derrotada da Guerra Fria, desmembrava-se, abria as suas portas ao investimento ocidental, desmantelava o Pacto de Varsóvia, o correspondente soviético da NATO, os países do Leste Europeu emergiam da subordinação soviética e prometiam democracias liberais numa vasta área da Europa. O que se passou desde então para que o Ocidente esteja hoje de novo a defrontar a Rússia? Dada a diferença de poder entre a Rússia e as potências ocidentais em 1990, a resposta mais imediata será que tal se deve à total inépcia dos líderes ocidentais para capitalizarem os dividendos do colapso da União Soviética. Sem dúvida que a inépcia é patente e caracteriza bem o comportamento da União Europeia ao longo destes anos. Foi incapaz de construir uma base sólida para a segurança europeia que obviamente teria de ser construída com a Rússia, e não contra a Rússia, quanto mais não seja para honrar a memória de cerca de vinte e quatro milhões de mortes, o preço que a Rússia pagou para se libertar e liberar a Europa do jugo nazi.
Mas esta resposta é insuficiente se tivermos em mente a política externa dos EUA nos últimos trinta anos. Com o fim da Guerra Fria, os EUA sentiram-se donos do mundo, um mundo finalmente unipolar. As potências nucleares que os podiam ameaçar estavam neutralizadas ou eram amigas. As ideias de correlação de forças e de equilíbrio de poderes desapareceram do seu vocabulário. Esta acalmia fazia inclusivamente prever o fim da NATO por falta de objectivo. Mas havia a Jugoslávia, o país que, depois do fim da ocupação nazi em 1945, o General Tito tinha transformado numa federação de regiões (Croácia, Eslovénia, Bósnia-Herzegovina, Montenegro, Sérvia Kosovo, Macedónia), um regime que se pretendia independente tanto da União Soviética como do Ocidente. Os EUA, com o entusiástico apoio da Alemanha, acharam que era tempo de a Jugoslávia colapsar. Os graves conflitos internos e as crises financeiras dos anos 1980 foram aproveitados para fomentar a divisão e o ódio. Uma região, onde antes florescera o convívio interétnico e inter-religioso, transformou-se num campo de ódios. A nova guerra dos Balcãs, no início da década de 1990, transformava-se assim na primeira guerra em solo europeu depois de 1945. Violência inaudita foi cometida por todos os contendores, mas para o Ocidente, os vilões eram apenas os sérvios, todos os outros povos eram nacionalistas heroicos. Os países ocidentais (à cabeça, a Alemanha) apressaram-se a reconhecer a independência das novas repúblicas em nome dos direitos humanos e da protecção das minorias. Em 1991, o Kosovo exigia em referêndum a sua independência da Sérvia e oito anos depois a NATO bombardeava Belgrado para fazer cumprir a vontade dos kosovares.
Qual é a diferença entre o Kosovo e o Donbass, onde as repúblicas etnicamente russas realizaram referênduns em que se manifestaram a favor da independência? Nenhuma, excepto que o Kosovo foi apoiado pela NATO e as repúblicas do Donbass são apoiadas pela Rússia. Os acordos de Minsk de 2014 e 2015 previam a grande autonomia destas regiões. A Ucrânia recusou-se a cumpri-los. Foram, pois, rasgados muito antes de Putin fazer o mesmo. Qual a diferença entre a ameaça à sua segurança sentida pela Rússia perante o avanço da NATO e a “crise dos misseis” de 1962, quando os soviéticos tentaram instalar mísseis em Cuba e os EUA, ameaçados na sua segurança, prometeram defender-se com todos os meios, inclusivamente a guerra nuclear?
A resposta à pergunta sobre como e por que chegámos aqui reside fundamentalmente num erro estratégico dos EUA e da NATO, o de não terem visto que nunca estiveram num mundo unipolar por eles dominado. No momento em que terminava a primeira guerra fria, crescia a China, com o apoio entusiasta das empresas norte-americanas em busca de salários baixos. Assim germinava o novo rival dos EUA, e com isso a nova Guerra Fria em que estamos a entrar, aliás potencialmente mais séria que a anterior. Apostados em não reconhecer o seu declínio, desde a saída caótica do Afeganistão ao medíocre desempenho na pandemia, os EUA insistem em fugas para a frente, e nessa estratégia pretendem arrastar a Europa. Esta pagará uma alta factura pelo que se está a passar. A mais alta de todas recairá sobre a Alemanha, o motor da economia europeia e a única verdadeiramente concorrente dos EUA. É fácil concluir quem beneficiará da crise que aí vem, e não me refiro apenas a quem irá fornecer o petróleo e o gás. Por sua vez, a tentativa de isolar a Rússia, sobretudo depois de 2014, visa acima de tudo a China. Será outro erro estratégico pensar que assim se enfraquece a China. A China acaba de declarar que não há comparação possível entre a Ucrânia e Taiwan porque, para ela, Taiwan é território chinês. A implicação é clara: para a China, a Ucrânia não é território russo. Mas daí a pensar que se está a criar uma divisão entre a China e a Rússia será pura auto-ilusão.
Não tenho dúvida que para a Europa é melhor um mundo multipolar governado por regras de co-existência pacífica entre as grandes potências do que um mundo exclusivamente dominado por um só país porque, se isso alguma vez vier a suceder, será à custa de muito sofrimento humano. A invasão da Ucrânia é inaceitável. O que não se pode dizer é que não foi provocada. A Rússia, como grande potência que é, não se devia deixar provocar. Será que a invasão da Ucrânia é mais uma demonstração de fraqueza do que de força? Os próximos tempos o dirão.

1 Comment

  1. Caro Boaventura
    Há muito deixámos de ser o homo sapiens e virámos simplesmente para homo stultus
    Há dias um notável cientista interrogava-se – também via imprensa – se esta humanidade ainda seria capaz de sobreviver cem anos. Julgo que não e mais julgo que em vez de tráfico de droga – que estupidamente não tenho capacidade para perceber porque não acaba rápida e totalmente – não seria mais inteligente optar por outro negócio: o da (re)produção das pílulas que o Hitler&Cia usaram no final da 2ª guerra mundial, para auto-suicídio.
    Pobres florestas e pobres animais que tanto amo e que serão aniquilados pelos génios que não vão além de stultus.
    José DE Almeida Serra

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