50 ANOS DO PODER LOCAL DEMOCRÁTICO | MEMÓRIAS AUTÁRQUICAS – I
Testemunho de Adão Cruz
Assembleia Municipal de Vale de Cambra
50 ANOS DO PODER LOCAL DEMOCRÁTICO | MEMÓRIAS AUTÁRQUICAS
O testemunho de quem viveu a transição para a democracia em Vale de Cambra.
Na sequência da Revolução de 25 de Abril de 1974, as câmaras municipais passaram a ser geridas por Comissões Administrativas, assegurando a transição até à realização das primeiras eleições autárquicas democráticas, em 12 de dezembro de 1976.
Em Vale de Cambra, coube ao Dr. Adão Pinho da Cruz, médico, escritor e cidadão profundamente ligado ao concelho, presidir à primeira Comissão Administrativa da Câmara Municipal, entre 1974 e 1975, tendo posteriormente sido candidato a deputado à Assembleia Constituinte.
Meio século depois, a Assembleia Municipal tem o privilégio de partilhar o testemunho que gentilmente nos concedeu, numa série de 10 episódios, integrada nas comemorações dos 50 Anos do Poder Local Democrático.
Ao longo desta série, Adão Cruz conduz-nos pelas memórias de um período singular da nossa história: o ambiente vivido após o 25 de Abril, os protagonistas da transição democrática, as dificuldades encontradas, as primeiras decisões da Comissão Administrativa, a relação com as populações e o caminho até às eleições de 1976.
Um relato pessoal, feito de episódios, nomes, convicções, dificuldades e afetos, que termina com uma reflexão dirigida às gerações de hoje.
Nas suas palavras:
«…um povo que muito me respeitava e amava e que eu tanto amei e nunca deixei de amar.»
Acompanhe os 10 episódios nas redes sociais da Assembleia Municipal de Vale de Cambra.
Porque preservar a memória de quem participou na construção do Poder Local Democrático é também valorizar a história coletiva do nosso concelho.
O nosso agradecimento ao Dr. Adão Cruz pela generosidade, disponibilidade e partilha deste testemunho
Assembleia Municipal de Vale de Cambra
EPISÓDIO 01
A madrugada que abriu as portas ao futuro
O ambiente político, social e económico de Vale de Cambra após o 25 de Abril de 1974.
ADÃO CRUZ
“O 25 de Abril foi um dos fenómenos político-sociais de maior importância pedagógica dentro de uma sociedade encarcerada em mitos, preconceitos, obscurantismos e grilhetas mentais que formataram e aviltaram a vida até meados do século passado.
Em Vale de Cambra, como em todo o Portugal, havia uma enorme ignorância, grande incultura, obscurantismos de toda a espécie, de que muita gente, na verdade, não era culpada.
O 25 de Abril foi o mais fascinante renascer da vida de todos aqueles que tinham dentro de si a terra preparada para nascerem cravos. Foi uma rajada de vento estilhaçando as janelas do tempo e deixando entrar o futuro e os sonhos pela mão dos pequenos gestos de cada um de nós.
Uma generosa pincelada de cor e de vida nas paredes gastas da existência, nas palavras desencantadas e nos rostos mortos da esperança. O abrir da madrugada que há tanto tempo se recusava a ser dia.
Eram muitas as certezas, ainda mais as incertezas e uma cândida ingenuidade brilhava em todos os olhos.
Claro que os graves problemas sociais e económicos que existiam em Vale de Cambra, sobretudo nas freguesias e aldeias mais inóspitas e pobres, que eu tão bem conhecia em razão da minha profissão de João Semana durante os dez anos que antecederam o 25 de Abril, não se resolveram nos meses nem nos anos que se lhe seguiram.
Foi o calor do 25 de Abril que foi fazendo germinar em muita gente de alma grande a revolucionária ideia de que é na relação com os outros que nós percebemos quem somos e que o sentido da nossa existência é o sentido da nossa coexistência.
Abriu-nos a mente à revolucionária consciência de uma necessidade crescente de sentir a beleza, o autêntico, a verdade, o gosto da vida para cada um e para todos, a solidariedade, a sede de saber e a consciência da soberania da liberdade e da justiça.
Infelizmente, esta maravilhosa conquista do 25 de Abril não se fez sentir em muitos corações, quer pelos anticorpos do passado, geneticamente enraizados nas cabeças das pessoas e dificilmente elimináveis, quer pela mentalidade contrarrevolucionária de todos os saudosos dos privilégios que a ditadura lhes proporcionava.
Daí começarem a aparecer, do ponto de vista político, tempos de convulsão e violência que muito denegriram a beleza da Revolução.
Tempos e factos difíceis de descrever, até porque a memória já está gasta, e cuja análise não cabe nesta curta resposta.”
EPISÓDIO 02
Os rostos da resistência em Vale de Cambra
Figuras da oposição ao regime e memórias do ambiente político local antes e depois de Abril.
ADÃO CRUZ
A população de Vale de Cambra era muito conservadora e politicamente muito amorfa e amordaçada, especialmente nas freguesias e aldeias serranas.
Havia em Vale de Cambra, antes do 25 de Abril, alguns nomes mais relevantes da oposição contra a ditadura, antifascistas e antissalazaristas, com alguma actividade política. Outros haveria, muito provavelmente, mas mais na sombra.
Um dos mais conhecidos era o Dr. António Duarte Teixeira da Silva, médico, com quem eu tive a honra de trabalhar, do ponto de vista profissional.
Outros muito conhecidos eram o Sérgio Pinheiro de Aguiar, comerciante em Macieira de Cambra, o Adelino Tavares Russo, agricultor de Cepelos, O Milton, da Formiga, Castelões, democrata convicto, o jovem João, de Cepelos, estudante e filho do Adelino, O Zé Nogueira (Zico), o Zé Fernando, o Manuel Augusto Almeida, o Luís Almeida (Luizinho), filho do Ernesto dos panos, coordenador da célula do PCP em Vale de Cambra, perseguido pela PIDE e pelos poderes locais, tendo, inclusive apanhado uma tareia pelas mãos de um conterrâneo.
Não podemos esquecer também o nosso saudoso amigo e verdadeiro democrata Alberto Bastos, o Jesus Silva, socialista, democrata convicto, cidadão firme e coerente, o meu colega de consultório e meu paciente Dr. António Júlio Teixeira da Silva, o Américo Campos e o pai, de Macieira de Cambra, o Manuel Campos, o António Bastos, agricultor do Pinheiro Manso, o Hernani Gandra, preso pela PIDE, o Augusto Aguiar, de Macieira de Cambra, o Manuel Pinho (Mocuna), sindicalista, o Angelo, de Outeiro do Rei, o Joaquim Negrais de Matos, o Eng.º Fernando Vide, o Manuel Augusto Matos, comunista convicto, de Macinhata, e com certeza muitos outros jovens que a memória e a informação não me permitem lembrar.
Não posso deixar de referir o Padre Joaquim Moreira dos Santos de quem mais adiante falarei, e eu próprio, que embora não tivesse filiação partidária era profundamente conotado com a esquerda, antifascista, antissalazarista e anticolonialista.
Já agora, referia os principais e mais conhecidos situacionistas e salazaristas, de entre os muitos que existiam em Vale de Cambra, sobretudo a nível das gentes mais poderosas.
O Dr. Manuel Gonçalves, Secretário de Estado das Comunicações, com quem eu me relacionava muito bem, a quem cheguei a tratar de um problema de saúde. Ele era muito amigo de Reimão Nogueira, na altura comandante das Forças Armadas da Guiné, para o qual escreveu uma carta de recomendação da minha pessoa e que eu rasguei logo que cheguei a Bissau.
O Dr. Abel Gomes de Almeida, chefe da ANP, com quem me dava muito bem, e a quem fiquei a dever um grande favor.
O Dr. Prado e Castro, com quem sempre me relacionei bem, e que era, quanto a mim, o ideólogo e controlador de toda a política concelhia, sendo ele quem sempre discursava, pois era bom orador, em todos os actos oficiais do regime.
O Dr. Armindo Matos, farmacêutico, o Padre Maurício, o pároco de Cepelos, o Evaristo dos correios que, segundo constava, vigiava a correspondência, O Dr. Emes Ribeiro, Chefe da Secretaria da Câmara e muitos outros menos evidentes, entre eles dois colegas meus.
Se bem que todos estes tivessem alguma actividade informadora, penso que havia muitos “bufos” espalhados pelo concelho, alguns deles bem conhecidos.
Não tendo eu grande actividade política, estava, como disse, profundamente conectado com a esquerda.
Lembro-me de algumas reuniões mais ou menos clandestinas, uma delas em Ramilos e outra no cinema da Pensão Bastos, com velhos democratas de Aveiro, Porto e Vale de Cambra, em que, sendo eu o mais jovem, me puseram a presidir.
Por outro lado, mantinha inúmeras conversas até altas horas da noite com amigos que eram da situação, como o Álvaro Pinho da Costa Leite, o Dr. Manuel Luciano da Silva e outros.
Resumindo, dava-me bem com toda a gente e era, praticamente, médico de todas as famílias.”



