Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime
Se não me encontrar num lugar, procure noutro,
Eu pararei em algum lugar à sua espera
“Song of Myself” de Walt Whitman
Parte II – A escrita manual e o desenvolvimento intelectual. Escrever é pensar, e pensar é o caminho para agir.
Escrever e ler são recíprocos. Ambos são necessários para que as crianças se tornem leitores e escritores fluentes
Autora anónima do sítio Learning for Life da plataforma Medium
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Nota de editor:
Com este texto encerra-se a parte II “A escrita manual e o desenvolvimento intelectual. Escrever é pensar, e pensar é o caminho para agir“ da presente série.
Dada a sua extensão editamos o texto em cinco partes, hoje a terceira.
FT
16 min de leitura
Texto 26 – Sobre a forma como estudei e como ensinei outrora face às Neurociências da Cognição de agora (3/5) (*)
Um texto autobiográfico
Coimbra, em Maio de 2026
(*) O presente texto teve a revisão da ferramenta de IA, Claude Sonnet 4.6. Depois, este texto foi revisto pelo Manuel Ramalhete a quem devo o detalhe de duas notas nele colocadas e a quem agradeço a revisão cuidada do mesmo.
(continuação)
A senhora da Pastelaria Vénus — 2013 (vd. Anexo na 4ª parte)
Ligado aos livros, deixem-me relatar uma pequena história que não tem nada a ver com a Universidade — ou talvez tenha. Ei-la.
Por volta de 2013, estava eu já reformado quando li grande parte do livro de Thomas Piketty Le Capital au XXIe siècle na Pastelaria Vénus. No fundo ainda não tinha perdido os hábitos de professor, pois era na Pastelaria Vénus que frequentemente eu via os pontos de exame. Tinha duas mesas para trabalho, e quanto ao ruído eu conseguia abstrair-me quase que totalmente, desde que não houvesse ruído de chávenas a tocarem-se umas nas outras. Neste caso não havia esse ruído, pois a máquina de café estava na outra sala.
Uma certa manhã, por volta das onze horas ao meio-dia, uma senhora aproxima-se de mim e delicadamente pergunta: posso fazer-lhe uma pergunta? Pode, claro que pode. Esteja à vontade. E a pergunta não se fez esperar: posso saber o que é que faz? Admirei-me pela pergunta que me era feita e questionei: porquê, já agora? Deixe-me dizer-lhe: sou cliente do café como o senhor. O senhor não reparou em mim e não tinha de reparar. Sou uma mulher entre muita gente anónima que passa pela sua frente. O senhor é diferente — quantas há aqui que fazem o que o senhor faz aqui? Ninguém, acrescentou. Sem que o quisesse fazer, fui levado a observá-lo desde há dias, e a admirar a sua postura.
Desde há dias que o vejo enormemente concentrado a ler, vejo-o sublinhar, vejo-o a escrever nos próprios livros e com uma forte intensidade de sentimentos na cara. Observo as mudanças no seu rosto quando escreve nos livros que está a ler — algumas vezes parece que está alegre, outras vezes parece que está furioso.
Não o conheço, mas digo-lhe: gostava de ter a sua garra. Gostava de ter na vida uma âncora como esta sua. Chegados aqui admirei-me e percebi que pisava um terreno espantoso, mas em que seria muito difícil progredir. Sou professor, hoje na situação de reformado, disse-lhe eu com alguma ternura. Depois acrescentei: E a senhora? Hesitou na resposta, disse-me que não sabia bem como me responder e de forma tensa disse-me: o meu marido morreu, com a crise económica os meus dois filhos saíram de Coimbra com os seus dois filhos cada um, e eu navego no vazio que tudo isto me deixou. Respirei fundo, fiquei silencioso e depois convidei-a a sentar-se à minha frente — e ainda a ouvi dizer-me que “gostaria muito de se sentir ancorada na vida como penso que o senhor se sente.”
Abreviando tudo aquilo que foi dito, questionei-a quanto ao seu estado de saúde e disse-me: em termos gerais e físicos não ando mal. Sinto-me é esmagada por este sentido de vida que não encontro. A si vejo-o sempre bem com as pessoas que encontra. Em reação disse-lhe: tem de falar abertamente com o seu médico de família. Disse-me que a sua médica lhe dizia que tinha de ter paciência, de ganhar ânimo na vida, e mandou-me ir ao psiquiatra — mas exceto nos comprimidos que me receita não vejo nenhuma diferença.
Olhei-a nos olhos, pus-lhe a minha mão sobre as costas de uma das suas e carinhosamente disse-lhe: vou dar-lhe uma sugestão. Esta pode parecer estranha, mas asseguro-lhe que o não é. Em tempos difíceis da minha vida, o que lhe vou dizer serviu-me de muito. Muito mesmo. E ao dizer-lhe isto, lembrei-me de John Stuart Mill, que se curou de uma profunda depressão através da leitura e com viagens pelo meio, conforme relatou na sua autobiografia. Disparo: fale com a sua médica psiquiatra naquilo que lhe vou sugerir. Ela que lhe escolha três livros. Não sou eu a fazê-lo porque não conheço a sua história de vida, a sua forma de pensar nela, os seus dramas interiores — mas ela sabe-o.
Compre esses três livros que suponho serem romances. Depois faça o seguinte: leia o primeiro livro, capítulo a capítulo, sem pressas. A partir do meio do livro, comece a sentir alguma empatia por uma ou outras personagens, fazendo fichas de leitura do que dela leu até aí — e faça o mesmo para o caso de haver alguma personagem pela qual esteja a nutrir antipatia. E não se poupe em estragar o livro: faça sublinhados, faça notas às margens. Dia a dia vai aumentando as suas notas até acabar o livro. Chegada aqui, faça um relato global sobre a obra que acabou de ler, como se estivesse a escrever um artigo para um jornal. Não se preocupe com a forma — não é uma escritora de profissão, importa é que escreva, que escreva para si. Concluída a escrita, fecha tudo num envelope. Fala com a sua psiquiatra sobre o que escreveu — mas não lhe dê os seus escritos.
Estamos fora da época balnear, os preços agora estão baixos — se puder, vá passar uns quinze dias para um sítio qualquer, hotel de preferência, onde haja gente, onde se cruze com gente às refeições, e vá entrando em conversa com as pessoas com quem se cruza. Entretanto retoma a leitura, agora do segundo livro, e faz a mesma técnica que fez para o primeiro. Escreva, escreva!
Depois de tudo isto, faça o seguinte: abra o envelope do que escreveu sobre o primeiro livro, reveja as suas notas face ao texto e, se tem agora uma opinião mais clara sobre a obra, sobre os personagens, volta a fazer o mesmo que fez antes — reescreva tudo. Aqui já pode mostrar a sua redação à sua psiquiatra.
E depois passa ao terceiro livro fazendo a mesma técnica. Quando chegar ao fim, reveja o seu segundo livro da mesma forma que fez com o primeiro e faça um balanço de tudo isto, com a sua médica de família ou com a sua psiquiatra. Pelo meio disto tudo, que lhe leva alguns meses, procure de vez em quando ir à livraria — por exemplo aqui a de Celas — e fale com a livreira para lhe recomendar livros que possa oferecer aos seus netos pequeninos. E ou manda-os pelo correio ou vá mesmo visitá-los, uma vez um, outra vez outro. Sem ser de forma parasitária, alimente-se mentalmente de si mesma e da convivência que tem de procurar com os outros.
A senhora quase chorava de comovida e rematou esta conversa dizendo: obrigado por tudo. O senhor é uma pessoa muito ponderada. Obrigado mais uma vez — mas não posso fazer grande parte do que me diz porque, quando aproximo a caneta do papel, a mão fica-me a tremer. Sinto as letras e palavras no ar como se estejam a fugir de mim, sinto que as quero agarrar, mas as letras fogem-me, fogem-me. Obrigado pelas suas palavras, pelo que me diz. Saiu-lhe dos lábios um obrigado profundo, tenso, quase que salpicado de lágrimas que não lhe corriam pela face. Virou-me as costas e foi embora. Com o corpo direito que nem um fuso, com a alma torcida por efeito de uma crise económica que se abateu sobre ela e que não consta em nenhuma estatística oficial sobre a crise da dívida pública em Portugal. Na altura lembrei-me do que foi a minha relação com os livros, lembrei-me da autobiografia de John Stuart Mill, lembrei-me do calor intenso da sua tertúlia de amigos e da relação de todos os seus elementos com os livros lidos e discutidos na tertúlia.
Hoje, em 2026, escrevo esta nota no contexto da série Crises de civilização e de ensino, num mundo em profunda policrise, porque ao ler os textos selecionados para a série senti que esta história mais parece uma antecipação da própria série — com bem mais do que uma década de antecipação. E, se olharmos bem para o que nos dizem os jornalistas de The Atlantic sobre livros, se olharmos bem para o que dizem os teóricos da Ciência da Leitura, se olharmos bem para o que nos dizem os textos dos vários professores selecionados para a série, se nos lembrarmos do que nos dizem Jared Horvath ou Maryanne Wolf, percebemos que a minha hipótese não é tola de todo.
Esta nota fala por si — mas nunca será demais repetir aqui o que já citei acima de Maryanne Wolf:
“WOLF: Sabe, o que eu recomendo é que o aspeto motor de fazer anotações realmente ajuda. Por isso, quase tudo que é verdadeiramente importante para mim, compro-o em formato físico ou imprimo como artigo. E essas anotações têm duas partes: escrevo nas margens e depois escrevo na contracapa do livro as páginas com as ideias mais importantes para mim. A contracapa dos meus livros tem páginas com palavras que dizem, por exemplo, ‘ideia sobre o amor’, ou sobre o ‘digital’, ou sobre uma outra coisa qualquer. Assim, quando volto ao livro, já sei automaticamente para onde preciso ir. LIMBONG: Então, para concluir, onde é que está a beleza da leitura profunda? Sem ela, o que é que perdemos?
WOLF: Perdemos dois dos melhores pensamentos — o do autor e o nosso próprio. E veja: a verdadeira beleza está em nos descobrirmos através do que lemos. A leitura profunda, no seu nível mais elevado, é um lugar de descoberta do outro, uma descoberta da beleza e até uma descoberta e apreciação pela nossa capacidade de pensar além dos limites do nosso quotidiano.” Fim de citação.
A sugestão que Maryanne Wolf nos deixa é que se leia, que se leia em profundidade e esta é uma boa sugestão que cada vez mais estamos todos nós a praticar cada vez menos.
Duas curtas notas em forma de conclusão
A mudança de suporte de estudo [7]
Em 2022 passei por uma situação curiosa. Reformado há dez anos e pela morte do meu colega Joaquim Feio, organizei a publicação de cinco longas séries de textos dedicados à sua memória. Uma delas tinha como tema a teoria da renda, um tema muito difícil de tratar. Fora do sistema clássico, a teoria da renda diferencial à Ricardo é matéria que não se estuda em lado nenhum, pelo menos ao nível das licenciaturas. É de resto o tema cada vez mais relevante na dinâmica do capitalismo — as rendas e as quase-rendas — mas ninguém está para se maçar.
Nesta série dividida em três secções, nem todos os textos selecionados, traduzidos e montados foram publicados, porque dadas as formalizações de ordem matemática e a complexidade de muitos dos seus gráficos, a sua edição tornava-se muito trabalhosa. Num deles aconteceu-me uma coisa curiosa, parecida com o que acontecia à senhora com que me cruzei na Pastelaria Vénus, que não conseguia escrever porque tinha a sensação de que as letras e as palavras lhe fugiam à frente dos olhos.
Em dois dos textos em que se formaliza um modelo muito simples de relações lineares da distribuição entre salários, lucros e rendas, fazia-se a representação gráfica do que poderíamos chamar a representação do conflito de classes na repartição do rendimento criado. [Os gráficos originais encontram-se no texto impresso]
Tínhamos então gráficos do tipo em que Or representa o eixo das taxas de lucro e para o sistema considerado, o ponto R representa a taxa máxima, ou seja, é a taxa de lucro quando a taxa de salários e de renda são ambas nulas; Ow é o eixo onde se representam os salários e para o sistema produtivo considerado a taxa máxima de salário é Wi, ou seja, o salário máximo do sistema verificar-se-ia quando a taxa de lucro e de renda são ambas nulas. De igual modo para a renda. A renda será máxima no sistema produtivo considerado quando esta for dada por Λ, e neste caso salário e lucros são nulos. Daqui se tira que quando a renda é nula, temos duas classes na luta pela repartição do rendimento, representada pela linha R1W1. Se os salários forem zero, a luta de classes é estabelecida entre capitalistas e proprietários das terras e então esse conflito é representado pela linha R1Λ1. Se a taxa de lucro for zero, a luta pela repartição do rendimento criado é então estabelecida entre proprietários da terra e trabalhadores, ou seja, o conflito de classes é representado pela linha W1Λ1.
Com terras alternativas teríamos dois sistemas de representação da repartição e dois planos correspondes aos pontos de repartição admissíveis em cada um deles, algo semelhante à escolhas de técnicas de produção em sistema capitalista. Destes, damos apenas uma representação gráfica, e estamos a falar da representação dos sistemas produtivos mais simples possíveis com três classes sociais a quererem repartir o bolo, o PIB dos s dois sistemas produtivos do país, para que se tenha uma ideia da complexidade visual do que se estava a analisar.
Posto isto, retomemos a configuração económica representativa de um país sem terras alternativas e, para o que segue, tomemos um outro gráfico mais “limpo” mais nítido, para o leitor que nos acompanhe nesta nossa história de vida académica, e em que aqui a variável de partida fixa é o salário:
Num sistema de três classes nenhuma taxa é zero e, portanto, o espaço possível de determinação das variáveis da repartição é o plano definido pelos pontos R1W1Λ1. Mas como é que se determina o nível de cada variável — renda, lucro, salário? Já não se trata de um jogo de oferta e procura como nos querem vender a ideia; trata-se de luta pelo poder na repartição.
Olhe-se por exemplo para a lei laboral de Montenegro. Será esta um jogo de oferta e procura? Não é, nem nunca foi assim. Porque se o fosse, seriam as livres forças do mercado a determinar os valores das taxas de remuneração e as regras do jogo — e não seria o governo a determiná-las. Mas é o governo a determinar as regras do jogo, e não o mercado. Da forma como o faz e no que quer fazer com elas mostra à evidência que este é um governo ao serviço das classes dominantes contra o trabalho. Mas mesmo aqui, atuando contra os trabalhadores como pretende, o governo vai tentar gerir o conflito de repartição entre os proprietários de terras e de imóveis e os empresários do processo produtivo. Neste contexto, o que resta para os trabalhadores é a variável de ajustamento do sistema, depois de garantidas as outras duas remunerações — a dos rentistas e a dos capitalistas. É assim que se compreende que não se toque na regulamentação do arrendamento local, que não se toque nas leis do arrendamento para habitação, que se defenda a presença de trabalhadores digitais enquanto se diz que não há casas para habitar e se culpa a imigração dita de pé descalço por esse mesmo facto, quando a maioria desta dorme em barracões sem condições.
Um outro exemplo da relação de classes da lei laboral vemo-lo com a história do banco de horas. Como assinalam no jornal Público o especialista do Código do Trabalho João Amado e colegas:
“[O banco de horas tal como é apresentado pelo governo] é uma fantasia, sob cujo manto diáfano se procura ocultar a nudez forte da verdade. O banco de horas não funciona assim, numa lógica paritária, equilibrada, simétrica. O banco de horas individual ou ‘por acordo’ consiste, realmente, num mecanismo flexibilizador da organização do tempo de trabalho, que confere ao empregador o poder de alargar o período normal de trabalho diário e semanal até certo limite, de acordo com as conveniências da empresa. Se o empregador assim entender, comunicará a necessidade de prestação do trabalho correspondente ao trabalhador, com a antecedência mínima de três dias ou, quando esse trabalho seja indispensável para prevenir ou reparar prejuízo grave para a empresa ou para a sua viabilidade, ‘logo que possível’.
Ou seja, em regime de banco de horas, o empregador pode aumentar o volume de trabalho requerido ao trabalhador, bastando comunicar-lhe atempadamente essa sua unilateral decisão. O empregador decide, comunica, ordena — na próxima semana, você não vai trabalhar 40 horas, mas sim 50 horas, não vai sair do emprego às 17 horas, mas sim às 19 horas! E ao trabalhador exige-se que acate essa ordem, que obedeça, sob pena de incorrer na prática de uma infração disciplinar.
Acima de tudo, é óbvio que este esquema de organização temporal da prestação laboral suscita delicadíssimos problemas ao nível da conciliação entre o trabalho e a vida pessoal e familiar do trabalhador.” Fim de citação.
Tudo se passa como se a família fosse um elemento irrelevante para o governo de Montenegro, uma vez que esta, no seu conjunto, tem de estar sujeita aos comportamentos aleatórios da entidade empregadora — não há filhos a levar ou a ir buscar, não há refeições a serem dadas a horas certas, não, nada disso: há apenas o que interessa ao empregador.
Os gráficos aqui colocados representam, pois, uma sociedade a viver sob tensão, e essa tensão é o que se pretende analisar quando introduzimos variações nas relações de poder entre classes. Pena é que a obra de Marx nesta matéria — a introdução das rendas no seu modelo — seja teoricamente um fiasco; pena é que na complexa obra de Sraffa, Produção de Mercadorias pelas Mercadorias (e pelo trabalho, o que correspondia ao título da obra por ele pensado), este mesmo tema tenha sido remetido para um anexo.
Imaginemos agora que a renda é dada por λ1. Um plano a passar por λ1 e perpendicular a este eixo, porque o seu valor está fixo, dá-nos a relação salário-lucro que emerge da posição de força dos rentistas, relação esta agora expressa pela linha R’1W’1. É claro que para a mesma taxa de lucro que anteriormente, a introdução da renda leva a que o salário seja menor. Do mesmo modo, a introdução do salário constante antes e após a introdução de renda seria agora a taxa de lucro que viria menor. Se houver duas terras diferentes em vez de uma, levanta-se o célebre problema da escolha das técnicas — neste caso, a escolha das terras — e tudo se torna mais difícil.
E ao nível do computador tudo se torna difícil de compreender quando queremos sair da configuração apresentada. É como se tivéssemos perdido ou reduzido a nossa capacidade de imaginação. Eu fiquei um pouco como aquela mulher que encontrei na Vénus — à medida que estava quase a chegar à conclusão de como as coisas se passariam no quadro do conflito de três classes na repartição, eis que as coisas desapareciam do nosso próprio horizonte. Aconteceu-me uma, duas, três vezes, ao querer sair do quadro restrito do desenho apresentado, e irritei-me. Peguei em todos os textos sobre a renda, passei-os a papel impresso com boa definição de impressão e fui para o Café Bolero. No café, com uma bica à frente, papel branco à minha frente e caneta, tudo se tornou mais simples — os desenhos fluíam nas folhas de papel branco à minha frente sempre que colocava uma variação qualquer nas variáveis que tomava como fixas. Tanto assim que hoje, ao escrever isto, nem percebo qual era a dificuldade em interpretar a série de gráficos em que pensava na altura — mas este facto de não perceber agora resulta apenas do facto de ter percebido já antes, quando utilizei papel e caneta. Aqui, ao contrário da senhora da Vénus, senti-me rejuvenescido, senti-me como nos anos setenta e com a garra de então a estudar uma matéria sobre a qual, no ISEG de então, poucos estariam à altura de entender — e entre esses estava o Augusto Mateus e o Martins.
Repare-se: o tema era o mesmo, os textos eram os mesmos, o leitor era o mesmo. O que é que mudou? O ambiente e o suporte de estudo — sobretudo este último. Leiam-se os textos da série porque estes explicam bem o que se passou e que eu não entendi na altura. Leia-se Maryanne Wolf, Jared Horvath e muitos outros, como os investigadores noruegueses que levaram à mudança de políticas educativas no Norte da Europa.
O papel da escrita na nossa capacidade de memorização e de entendimento
Durante mais de 36 anos dei aulas teóricas de 45 minutos, 1h15 e 1h45 — e não tenho memória de ter levado nenhum outro suporte para estas aulas teóricas que não fosse o que tinha na cabeça. Dizia muitas vezes que dava aulas com o cérebro, com a alma e com o giz na ponta dos dedos. No máximo o que levava, quando fumava, era a metade da parte de trás de uma carteira de fósforos com o sumário da aula — ou o mesmo sumário num bilhete do elétrico. Era escrito numa letra minúscula que eu hoje não seria capaz de ler. Eram aulas extremamente exigentes. Pegue-se num bom manual de Economia Internacional e percebe-se o que estou a dizer. Adicionalmente, tinha o hábito de criar situações de tensão em termos de concentração, avisando os alunos de que faria habitualmente paragens bruscas na exposição com perguntas para a sala, com o objetivo de estimular a concentração dos alunos em aulas com esta carga de exigência de atenção.
Qual seria o segredo para que isto funcionasse bem? Muito simples: eu preparava cada aula de forma cuidada e, mais, escrevia-a à mão. Mas se a escrevia, porque é que não fazia aulas de leitura como hoje se faz por muitos lados? Não o podia fazer! E pela razão muito simples de que, a seguir, logo que concluído o texto atirava-o para o lixo e deixava de ter o texto escrito e isto mesmo antes de a matéria ser lecionada. Acredite-se ou não, era assim mesmo. É evidente que isto pressupunha um bom domínio da matéria — mas disso já falámos quando nos referimos à aula especial das 18h-20h. E isso não chega. É preciso mais: é preciso também sentir que a matéria está à nossa frente, à frente dos nossos olhos, é preciso o nosso empenho pessoal. Reencontramos aqui o poder criativo que a escrita manual — com tudo o que ela implica de desenvolvimento mental — e o empenho pessoal têm neste processo. Reencontramos aqui, hoje e agora, o conjunto de textos que iremos publicar na série dedicada à crise civilizacional e do ensino em geral.
Houve duas aulas em que nada disso aconteceu — e vale a pena relatar o que se passou.
A primeira terá sido em janeiro de 1976. Eu lecionava Economia Internacional e Economia Marxista num tempo em que as aulas da Faculdade de Economia eram lecionadas na Faculdade de Direito. Entro na sala de aulas para lecionar a matéria de Economia Internacional. Começo a aula e os alunos avisam-me que estou enganado — que estamos na aula de Economia Marxista e não na aula de Economia Internacional. Fiz então o que hoje seria incapaz de fazer. Virei as costas aos alunos, fixei-me no quadro uns minutos, poucos, voltei a virar-me para eles e disse: vamos começar. E a aula era difícil — eram os esquemas de reprodução alargada de Rosa Luxemburgo, com muitas contas com frações pelo meio. A aula realizou-se como se nada se tivesse passado. Mas passou-se — e porque se passou, ficou-me gravada na alma. E estou agora a relatá-la.
A segunda foi durante a década de 90. Estava a dar uma aula de Finanças Internacionais em que a matéria a analisar era a evolução das taxas de câmbio efetivas nominais e reais. Era uma aula feita através dos estudos do BNP de Paris sobre taxas de câmbio. Era o tipo de aula que só era possível fazer com acetatos — na altura ainda não havia PowerPoints — e o papel do professor, face a cada gráfico, era relembrar os acontecimentos que estariam na base das mudanças verificadas. Era ao mesmo tempo um tipo de aula muito exigente. De repente, falta a luz, o retroprojetor apagou-se e a aula não se acabou, mas aquela matéria não podia ser lecionada naquele contexto, pois era feita a partir dos gráficos projetados. Virei-me para os alunos e disse-lhes: bom, deixemos esta matéria para a próxima semana e, como era o fim de um capítulo, passemos ao capítulo seguinte. E a aula realizou-se, mas com outra matéria e não a que estava planeada. Como é que isto se explica?
Maryanne Wolf e Jared Horvath explicam isto muito bem. Como nos diz Wolf na entrevista dada à NPR: há mais capacidade de armazenamento do que supomos quando se leu de forma empenhada, de forma profunda — e é isso que explica o que estou a relatar. Poderíamos acrescentar com Horvath que a relação entre aluno e professor produz um dos maiores efeitos observados na investigação sobre educação, e que a empatia não é apenas uma emoção — é uma sincronização fisiológica entre sistemas biológicos. Quando duas pessoas interagem, a sua atividade cerebral, ritmo cardíaco e respiração tendem a alinhar-se. O esforço intelectual desenvolvido fortalece a memória, enquanto a simples releitura não o faz; o esforço é uma característica essencial da aprendizagem, e não um defeito. E a relação entre professor e aluno não é apenas algo de natureza sentimental — é um poderoso agente de mudança e desenvolvimento humano. Poderíamos acrescentar ainda o que nos diz Barba Lorena, professora de Engenharia Aeroespacial na George Washington University: não há aprendizagem sem fricção, sem esforço — e isto é dito numa altura em que tudo se faz para evitar esse mesmo esforço.
Os autores citados explicam-nos bem os factos relatados anteriormente.
E a terminar um texto que já vai muito longo, deixemos aqui um pequeno detalhe que envolve empatia e memória sustentada por esta.
Reformei-me em 2012. Por volta de 2010 tive como aluno um jovem de nome Duarte Barreto Figueira. Na altura tratava-se de um aluno entre muitos. Devo-lhe ter dado entre 12 e 14 valores em Economia Internacional. Quando me reformei, enviei um texto de despedida a todos — alunos, funcionários, professores. Muitos deles reagiram ao texto, agradecendo com mensagens agradáveis para quem estava a abandonar a profissão. Um deles foi o Duarte Figueira. Saí da Faculdade e pouco tempo depois encontro-me com ele na rua — e ele descreve-me como foi a sua vida como estudante para sobreviver e se formar. Uma história de espantar. A minha primeira reação foi de que este aluno, noutras condições menos desfavoráveis, seria um aluno de exceção. Foi a ideia com que fiquei depois de o ouvir — daí a empatia reforçada. Voltei a cruzar-me com ele em Lisboa, numa loja de material para artes situada numa das transversais à Rua Garrett. Um encontro casual, cumprimentámo-nos com alguma efusão, mas mais nada.
Em maio de 2026 vou a Lisboa encontrar-me com a minha neta e vou com ela à ópera Por Todos Nós, com encenação de João Lourenço, no Teatro Aberto. O espetáculo começa às 20 horas e tinha a duração de 2 horas e 30 minutos. Jantar antes ou depois? Decidimos jantar antes. Fomos jantar ao restaurante do teatro. Escolher, esperar e comer foi tudo à justa. A cerca de três ou quatro metros está um grupo de gente jovem. Olho para um deles e tenho a sensação de ser uma cara conhecida. Se estudante, o tempo era já longo para que pela silhueta eu o pudesse identificar. Esse jovem levanta-se e vem ter connosco, e pergunta: será que ainda se lembra de mim? Ao ouvi-lo, recordei imediatamente a conversa em que me falou da sua vida pessoal e respondi a sorrir: creio que os teus pais te batizaram de Figueira — ou estou enganado? Pela voz reconheço-te, não podes ser outro. Como é possível que ainda se lembre de mim? Ele, assim como a minha neta, ficaram espantados a olhar para mim. Foi a memória auditiva a funcionar, acrescentei. Falou-se um pouco da vida dele, mas o tempo urgia e as oito horas estavam a chegar. No dia seguinte manda-me o seguinte email:
“Foi um enorme gosto reencontrá-lo no sábado no Teatro Aberto em Lisboa. Espero que tenha gostado tanto quanto eu gostei da ópera. Eu fiquei muito surpreendido que ainda se lembrasse do meu sobrenome. Tem uma memória fantástica. Espero reencontrá-lo mais vezes por Lisboa. Saudações Académicas, Duarte Figueira.” [8] Fim de citação.
A empatia a reforçar a nossa capacidade de armazenamento — é o que nos dizem os cientistas, é o que este pequeno detalhe passado no Teatro Aberto, e antes de assistir a um espetáculo memorável, nos confirma.
Mas também aqui há uma questão de texto, de contexto, de tempo e de espaço: Virei-me para a minha neta e disse-lhe: mudado o contexto este seria um muito bom aluno. Não abuse, professor, reage o Duarte Figueira. Paro o garfo e a faca, olho para a minha neta, depois olho para ele e digo: fizeste o teu curso num tempo em que ele tinha qualidade, isto é, em que exigia esforço e não era pouco, ao contrário do que se passa hoje. Nas tuas condições quantos o fariam hoje se lhes fosse exigido o mesmo esforço? Calou-se. Não te esqueças, nada pode ser visto fora das suas circunstâncias acrescentei. Ficámos por aqui.
Fiquei com a ideia de que seria Hegel e Marx a explicarem aquela situação, Marx com o seu relativizar dos resultados em face das respetivas circunstâncias em que estes resultados são obtidos, Hegel a dizer-nos que o sofrimento é a mãe de todo o conhecimento, mas se ligarmos o sofrimento de Hegel à fricção da aquisição do saber considerada pelas neurociências da cognição de hoje, diremos que temos uma boa grelha de leitura para entender a realidade estudantil de que temos estado a falar [9].
Nesta grelha de leitura encaixam-se as situações de estudantes como as duas raparigas africanas referidas, estudantes como a Ana Maria Abrunhosa, estudantes como o Duarte Figueira, estudantes como grande parte daqueles que frequentavam a aula das 18-20 horas, de entre os quais ainda me lembro de Rui Calvinho, da Rita, da Michaela, uma estudante romena de Erasmus, da Ana Pratas. E todos eles foram o contraponto frontal do que se passa hoje com a geração Z que enche de ar as salas vazias das nossas Universidades de hoje, são o contraponto da geração alfa que estamos a preparar para em termos de ensino vir a ser ainda pior que a geração precedente. Reconhecê-lo é um dever, é também uma obrigação, se queremos continuar a defender, e queremos, um ensino que passe a satisfazer os ditames de uma Democracia real que hoje não temos.
(continua)
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Notas
[7] Neste ponto não temos a intenção de explicar economia a ninguém, o que seria aqui sem sentido. O que pretendemos dizer é que mesmo nom modelo económico o mais simples possível, desde que haja três classes na repartição do valor acrescentado a visualização é tridimensional e relativamente complexa sobretudo quando operamos com mudanças na variação das variáveis de repartição. Pessoalmente, apenas pela visualização do ecrã eu não conseguia entrar na “alma” dos diferentes gráficos. Precisei de mudar de suporte de estudo, para papel e caneta, e aí tornou-se tudo muito mais simples para mim como leitor. Só quis mostrar isso.
[8] Escrevi ao aluno em questão pedindo autorização para citar o seu nome dizendo-lhe: Preciso de saber se autorizas o teu nome no texto. Repara que eu não sei a nota que te dei, mas não procuro saber. Poderia pedir na Faculdade a informação, mas também não quero. O que quero é que o texto tenha um “som” efetivamente natural. Por outro lado a carga afetiva de ligação a ti passa exatamente pelo reconhecimento das extremas dificuldades económicas e de trabalho duríssimo para ganhar a vida em que viveste e em que fizeste o curso. Hoje creio que não serias capaz de suportar o mesmo esforço, como direi o mesmo comigo, a minha história tal como ela foi também hoje não seria repetível e mesmo com a mesma pessoa que sou eu. A isto Marx chama as circunstâncias de cada um, situadas no tempo e no espaço!
[9] O exemplo mais caricato do facilitismo de hoje pode ser visto no seguinte exemplo: um aluno, anos e anos depois de ter deixado de estudar, e por sugestão minha, pede a reinscrição na Faculdade para concluir a licenciatura. Foi o que fez e no dia seguinte recebe a informação de que já está licenciado. Tinha feito disciplinas a mais no jogo bizarro de ter andado antes a fazer diversas opções para conseguir média mais elevada e estas foram agora tomadas como equivalentes a disciplinas obrigatórias. Licenciou-se sem saber como!





