50 ANOS DO PODER LOCAL DEMOCRÁTICO | MEMÓRIAS AUTÁRQUICAS II – Testemunho de Adão Cruz

50 ANOS DO PODER LOCAL DEMOCRÁTICO | MEMÓRIAS AUTÁRQUICAS II – Testemunho de Adão Cruz

 

 

Assembleia Municipal de Vale de Cambra

 

EPISÓDIO 03

De médico a Presidente da primeira Comissão Administrativa

As circunstâncias que levaram Adão Cruz à presidência da primeira Comissão Administrativa.

ADÃO CRUZ

“Considero todo este preâmbulo necessário para entendermos correctamente a resposta que darei à pergunta que me colocam.

Com efeito, sendo eu médico de clínica geral durante seis anos, três anos antes de ir para a guerra da Guiné e três anos depois de vir, calcorreei todo o concelho, por montes e vales, de dia e de noite, ao sol e à chuva, tornando-me, e digo isto sem ponta de presunção, numa das pessoas mais conhecidas, mais queridas e acarinhadas de Vale de Cambra.

Fizeram-me um grande jantar de despedida quando fui mobilizado para a guerra e uma fantástica recepção popular quando regressei, com foguetes, missa solene, banda de música e um grande almoço num salão da Metalúrgica Progresso.

Todas estas razões, penso eu, podem explicar a minha escolha popular para a presidência da Comissão Administrativa para a Câmara Municipal depois do 25 de Abril.

De qualquer forma, senti que fui empurrado contra a minha vontade, e ali aprisionado sem porta de saída, uma situação que considero das coisas menos agradáveis que me aconteceram na vida. Um dos piores anos da minha vida, não tenho dúvidas.

Por um lado, não tinha qualquer experiência de Administração Pública, e nunca tive qualquer propensão para cargos públicos ou políticos, por outro lado antevia um grande prejuízo para a minha vida, o que realmente aconteceu.

Um grande prejuízo pessoal, profissional (estava a exercer a especialidade de cardiologia no Hospital de Santo António no Porto, tendo ainda o meu trabalho de consultório), familiar (tinha na altura uma filha de 4 anos, um filho de dois anos e um bebé para nascer) e económico.

Uma situação que me levou a dizer: não sei se aguento, se não morrer desta nunca mais morrerei.

É uma pergunta à qual não sei responder em pormenor, pois a minha idade e a minha memória já não mo permitem. Tive de recorrer à ajuda do meu velho amigo Jesus Silva, esse cidadão exemplar que deve ter o melhor arquivo dos acontecimentos desse tempo.

Segundo o que me fez recordar, a constituição da Primeira Comissão Administrativa aconteceu da forma seguinte.

Com o 25 de Abril de 1974, foi destituído das suas funções de Presidente da Câmara Municipal de Vale de Cambra o Sr. Delmiro Henriques de Almeida, deixando de existir esse cargo.

Através do Governo Civil, foi formada uma Comissão Administrativa constituída por:

Presidente: Dr. Adão Pinho da Cruz.

Vice-Presidente: Dr. António Duarte Teixeira da Silva.

Vereadores: Eng.º Fernando Manuel Castro Vide; Joaquim Manuel Negrais Borges de Matos; Manuel de Pinho (Mocuna).

Mais tarde, em Novembro, foi nomeado vogal, por Portaria de 30 Out/1974, Manuel de Almeida Campos. (Informação do amigo Jesus Silva)”

 

Assembleia Municipal de Vale de Cambra

EPISÓDIO 04

Uma Câmara aberta à população

A constituição da Comissão Administrativa e a abertura da Câmara à participação cívica.

ADÃO CRUZ

“Quanto aos critérios que presidiram à escolha destas pessoas, também não é fácil responder. No que respeita à minha pessoa, penso que vale o que atrás deixei dito.

Quanto ao Dr. Teixeira da Silva, penso que a idade, o facto de ser um prestigiado clínico conhecido de toda a gente, um cidadão sério e exemplar, bem como um dos mais velhos e respeitados resistentes antifascistas constituem razões mais do que suficientes para a sua escolha.

No que respeita ao Joaquim Matos, penso que, para além da sua reputação intocável e da sua resistência antifascista, contou muito a sua experiência empresarial, industrial e administrativa.

O Eng.º Fernando Vide, não só por ser, além de oposicionista, um cidadão livre e independente, traria para a Comissão a grande vantagem dos seus conhecimentos de engenharia, indispensáveis às tarefas da Câmara.

O Manuel Pinho, antifascista, trabalhador e sindicalista convicto, quanto a mim seria um importante elo de ligação ao mundo do trabalho.

Tudo isto é o que eu penso nos dias de hoje, ao recordar tempos tão longínquos. Outras razões e pormenores poderá ter havido, mas, repito, os meus neurónios já lá não chegam.

A Câmara era uma entidade autocrática, propícia a favores, vícios, influências e outras coisas piores. Era dominada pelos poderes locais, sem a mínima intervenção da população.

Procurámos democratizá-la o melhor que pudemos, abolindo tanto quanto possível o espírito hierarquizante e começando por criar entre nós e os funcionários uma espécie de equipa colaboradora na resolução dos problemas do concelho, que eram muitos e muito complexos.

A primeira coisa que fizemos foi reforçar o soalho do Salão Nobre, de maneira a aguentar o maior número de pessoas possível, nas muitas futuras reuniões que tínhamos em mente.”

 

 

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