O nosso cérebro tem uma evolução de quinhentos milhões de anos. É o órgão mais complexo e mais difícil de entender do Planeta e do Universo conhecido. É composto por 86 mil milhões de células cerebrais chamadas neurónios. Cada neurónio tem entre mil e cinco mil ligações com outros neurónios, o que nos permite dizer que em cada milímetro cúbico de cérebro há mais conexões do que seres humanos à superfície da Terra e que o número total de conexões ultrapassa o número de estrelas da Via Láctea. Se fosse possível contar os neurónios um a um em cada segundo, sem parar nem dormir, demoraríamos dois mil e setecentos anos a contá-los.
Nenhum de nós consegue imaginar a riqueza que temos, encerrada na escuridão de uma dura caixa craniana. Há muitos seres humanos que olham esta dádiva da natureza com profundo respeito e dela procuram colher o seus melhores frutos, o Pensamento e a Razão. Outros há, para quem o nosso magnífico cérebro merece tanto respeito como o esfregão da cozinha.
Assim sendo, podemos dizer que “metade” da razão e da mente da nossa sociedade está podre e enferrujada. Como se fora uma maçã, metade sã e metade podre. Simplesmente, a parte sã da maçã nunca consegue regenerar a parte podre, mas esta continua a invadir a parte sã até que toda a maçã esteja podre. Se a parte podre e a parte sã da sociedade estivessem separadas, a única solução seria cortar, extirpar a metade podre e deitá-la ao lixo. A forma de o fazer é que seria difícil de imaginar.
O são e o podre da sociedade não estão separados em duas metades distintas, como na maçã. O podre está infiltrado no meio do são, e o são infiltrado no meio do podre. Imaginar a vitória da parte sã nestas circunstâncias torna-se ainda muito mais difícil.
Todos vemos que o mundo está a cair aos pedaços, esquartejado por um exército de descerebrados, de seres desmiolados, atingidos por aquilo a que eu chamo, à semelhança do que acontece no corpo “físico”, de “carcinoma da mente”, altamente contagioso e invasivo. A ciclópica tarefa de uma revolucionária barrela ou hipotética quimioterapia só pode ser levada a cabo no seio da sociedade sã, se todos nos empenharmos, diariamente e racionalmente, na limpeza de todas as zonas podres da mentalidade social, na limpeza do absurdo Himalaia de esterco criado pela imunda sociedade neoliberal e plutocrática deste nosso tempo.
Para tal, seria indispensável que conhecêssemos o mais profundamente possível os factores necróticos desta degenerescência e os promotores e catalisadores da podridão. Trabalho quase utópico, numa sociedade mentalmente estupidificada e atrofiada, à qual os poderes instituídos fecharam a razão a sete chaves, a razão mãe do pensamento, o pensamento como a mais poderosa arma de que o homem dispõe contra a exploração do homem pelo homem, contra a escravidão, a corrupção, a perversão dos mais nobres princípios, contra a fraude de governos e grandes corruptos, contra a especulação selvagem, a falta de respeito por nós próprios e o desrespeito pelos outros, a arrepiante ignorância, a falta de civismo, a injustiça, o egoísmo, a mentira, sobretudo a mentira ao mais alto nível, a calúnia, o obscurantismo seja ele de que tipo for, a hipocrisia e a falsidade, sobretudo a hipocrisia dos criminosos que pregam a santidade, os fanatismos de qualquer espécie, o pensamento agrilhoado, a prisão da liberdade, a estupidez institucionalizada, a profunda incultura e a falsa cultura, o abandono da ética e da moral.
Sem a liberdade radical do Pensamento e da Razão, sem o respeito profundo pelo seu fruto, a Verdade, a mais nobre e sublime criação da nossa rede estelar de neurónios, o homem torna-se inexoravelmente vulnerável à podridão.