50 ANOS DO PODER LOCAL DEMOCRÁTICO | MEMÓRIAS AUTÁRQUICAS IV – Testemunho de Adão Cruz
Assembleia Municipal de Vale de Cambra
EPISÓDIO 06
Governar em tempos de convulsão
As dificuldades do período revolucionário, a relação com a população e a articulação com o Governo Civil.
ADÃO CRUZ
É aqui que a porca começa a torcer o rabo.
A nossa maior dificuldade foi enfrentar os inimigos da Revolução e o reaccionarismo que começavam a implantar-se de forma assustadora, incluindo arruaceiros locais. Havia também facções dentro do PPD e do CDS que muito injustamente nos dificultaram a vida.
As nossas sessões de esclarecimento, em que o meu braço direito era muitas vezes o Padre Joaquim, nem sempre eram bem recebidas.
Inacreditavelmente, sobretudo de noite, havia grupos de caceteiros, armados de paus e caçadeiras, que nos ameaçavam, não directamente, mas na sombra, por meio de intermediários.
Ficaram célebres alguns grupos ali do lado de Macinhata, das Baralhas, de Cepelos, com o pároco a comandar, e outros. Felizmente, nunca tiveram a coragem de nos tocar.
A Comissão era apartidária. Não me recordo de alguém, naquela altura, que fosse militante de qualquer partido. No entanto éramos rotulados de “comunas”.
Boatos, mentiras, difamações, intrigas, ofensas, calúnias, tudo isso chegava diariamente até nós por interpostas pessoas.
Cortava-me o coração saber que à frente dos partidos e no seu seio estavam grandes amigos meus, cuja amizade, mesmo assim, eu nunca desprezei. Pela minha parte, a amizade esteve sempre acima de todas as dissidências.
A nossa relação com os trabalhadores municipais, as freguesias, as associações locais e a população eram muito boas, pois nós éramos pessoas pacíficas, sérias, e tratávamos dos assuntos com toda a honestidade e transparência, sempre com objectivos democráticos de paz, justiça e direitos sociais.
Todavia, tendo eu vivido nesta terra a fase mais esperançosa e sonhadora da minha vida, que foi o 25 de Abril e a queda da mais opressora, medieval, decadente e vergonhosa ditadura salazarista, sempre pensei que o futuro traria, com o tempo, uma grande transformação na mentalidade das populações, o que não aconteceu.
Como já disse atrás, o conservadorismo, a pouca elucidação política do povo e a renitência em querer entender a alma da Revolução foram um campo fértil para a infiltração de forças reaccionárias, nascidas logo a seguir ao 25 de Abril.
Outras ameaças viriam sorrateiramente de vários lados, nomeadamente poderes locais, párocos e grupos caceteiros, como já disse, que tornaram as populações desconfiadas e impenetráveis a quaisquer novas ideias e transformações sociais verdadeiramente democráticas.
Tudo isto tornou a nossa actividade política e social muito dura e difícil, mas, tirando um ou outro caso, nunca tivemos quaisquer conflitos ou afrontamentos sérios.
Toda a nossa articulação com o Governo e com os Serviços da Administração Central era processada, se a memória não me falha, através do Governador Civil de Aveiro, Dr. Neto Brandão, com o qual mantínhamos estreito contacto por telefone ou correio, bem como reuniões, quer em Aveiro quer em Vale de Cambra.”


